O avanço do câncer nas próximas décadas pode colocar ainda mais pressão sobre os sistemas de saúde em todo o mundo. É o que diz um relatório divulgado nesta quarta-feira (8/7) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e projeta que, se o ritmo atual for mantido e medidas mais efetivas não forem adotadas, o número de novos casos da doença chegará a quase 35 milhões por ano até 2050.
A estimativa representa um salto em relação aos 20,6 milhões de diagnósticos registrados em 2024 e reflete uma combinação de fatores, como o envelhecimento da população, o crescimento demográfico e a maior exposição a riscos conhecidos para o desenvolvimento da doença.
Além disso, o documento chama atenção para um dado que vai além dos pacientes diagnosticados. Embora cerca de uma em cada cinco pessoas desenvolvam algum tipo de câncer ao longo da vida, a OMS calcula que aproximadamente 92% da população mundial será afetada pela doença pelo menos uma vez, seja como paciente, familiar ou cuidador.
Na avaliação da organização, o câncer deixou de ser apenas um problema clínico e passou a representar um desafio social e econômico. O diagnóstico costuma provocar mudanças profundas na rotina das famílias, com impactos sobre a renda, a saúde mental e a qualidade de vida. Em muitos casos, os custos do tratamento e a perda da capacidade de trabalhar agravam ainda mais a situação financeira dos pacientes.
Medidas de contenção
Apesar do cenário preocupante, a OMS destaca que uma parcela significativa dos casos poderia ser evitada. Segundo o relatório, quase 40% dos novos diagnósticos estão associados a fatores de risco já conhecidos e passíveis de prevenção, como tabagismo, consumo de álcool, obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, infecções e exposição a agentes ambientais e ocupacionais.
O estudo também mostra que os avanços obtidos nas últimas décadas não têm chegado a todos da mesma forma. Países de alta renda ampliaram a vacinação contra o HPV, fortaleceram políticas de controle do tabaco e expandiram o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento, o que contribuiu para aumentar a sobrevida de pacientes com diferentes tipos de câncer.
Em contrapartida, milhões de pessoas que vivem em países de baixa e média renda continuam enfrentando dificuldades para realizar exames, iniciar o tratamento no tempo adequado ou ter acesso a medicamentos e radioterapia. Como consequência, as chances de sobrevivência permanecem muito inferiores às observadas nas nações mais desenvolvidas.
O relatório aponta ainda que essa desigualdade é hoje um dos principais entraves ao enfrentamento da doença. Em alguns tipos de câncer, a sobrevida em cinco anos supera 85% nos países ricos, enquanto fica abaixo de 45% nos países de baixa renda, evidenciando que o local onde a pessoa vive ainda influencia diretamente suas possibilidades de tratamento e recuperação.
Além disso, o avanço da doença, no entanto, não ocorre de forma homogênea entre os diferentes tipos de câncer. Segundo a OMS, o câncer de pulmão segue como a principal causa de morte por câncer no mundo. Entre os homens, os tipos mais frequentes são os de pulmão, próstata e colorretal. Já entre as mulheres, predominam os cânceres de mama, pulmão e colorretal.
Para a OMS, o conhecimento científico disponível hoje já permite reduzir significativamente o impacto do câncer. O desafio, segundo a entidade, é transformar esse conhecimento em políticas públicas efetivas, com investimentos contínuos em prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e fortalecimento dos sistemas de saúde. Sem esse esforço, o aumento do número de casos previsto para as próximas décadas deverá ser acompanhado por mais mortes evitáveis e pelo aprofundamento das desigualdades no acesso aos cuidados.
Com informações do Correio Braziliense



