Washington e Brasília – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considera o governo brasileiro hostil aos EUA, de acordo com empresários brasileiros que participaram, ontem, de um encontro fechado com um enviado da Casa Branca organizado pelo Milken Institute em parceria com o Lide, em Washington.
Michael Jensen, tenente-coronel aposentado da Força Aérea norte-americana e diretor sênior para o Hemisfério Ocidental do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, reconheceu que o Brasil é um dos mais antigos parceiros comerciais dos EUA, mas afirmou que é difícil investir no país por causa da insegurança jurídica. Contudo, ele considerou que a questão das tarifas de 50% aplicadas sobre os produtos brasileiros poderá ser passageira, segundo fontes que participaram do encontro.
“Ele foi muito duro e transparente sobre a insegurança jurídica do Brasil ser um desestimulador de investimentos de empresas americanas no Brasil e de que isso tem reflexos na segurança nacional dos EUA”, disse um dos empresários, que participou do encontro. “Ele falou sob a ótica de conselheiro de Segurança Nacional do presidente Trump. Enfatizou que os EUA e o Brasil são países amigos e seus povos, também”, acrescentou. “Ele lembrou ainda que EUA foram o primeiro país que aprovou a Independência do Brasil e que o Brasil foi o único país que lutou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos EUA contra o nazismo”, completou.
Na reunião, Jensen ainda defendeu que Brasil e Estados Unidos devem ser países livres e que precisam “andar juntos na região” e, a longo prazo, os dois países devem continuar sendo parceiros. Segundo ele, os EUA estão “muito interessados em fazer negócio com as empresas brasileiras, mas estão muito preocupados com o ambiente legal”.
Ao comentar sobre a estratégia da administração Trump para a América Latina, em particular, a prioridade é econômica e de segurança. “Um dos principais guidances é construir um relacionamento comercial de longo prazo. E, agora, o tempo é de turbulência, mas entendo que é um tempo de mudança. Isso não é o fim do mundo”, afirmou o conselheiro, segundo um interlocutor, acrescentando que o presidente norte-americano está aberto para refazer parcerias.
De acordo com os empresários, Jensen ainda disse que “há muita oportunidade para o mundo que entender as mudanças. Esse é um novo jeito de fazer negócios e estamos focando na vantagem que é ter uma parceria com os EUA”. Ele ainda afirmou que o que os EUA estão fazendo é permitir que o parceiro “faça a sua escolha”. “Se quiser ser nosso parceiro, estará tudo aberto, mas se não, ficará por conta própria”.
Segundo as mesmas fontes, Jansen disse aos empresários brasileiros que a impressão que os Estados Unidos têm do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é de que ele é hostil aos EUA e com pouca segurança jurídica, além de afirmar que o ambiente atual não é recomendável para os investimentos. Os empresários viram, nessa declaração, uma clara reprodução do discurso do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos EUA desde março, em uma campanha em defesa do pai, que está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe.
Uma das principais frases dele foi que “as oportunidades são limitadas pela política”. O militar reforçou que o principal foco do presidente Trump, no momento, está na balança comercial dos Estados Unidos e na importância do uso do dólar no comércio internacional. Segundo as fontes, Jansen ainda defendeu que “o dólar traz estabilidade para as relações comerciais entre os países da região”.
Pix em evidência
Um dos convidados do encontro, Roberto Campos Neto, vice-presidente e diretor global de políticas públicas do Nubank, destacou os avanços do Pix, lançado enquanto ele estava à frente do Banco Central. A plataforma de transferência instantânea é um dos focos de críticas de Trump ao justificar o tarifaço contra o Brasil.
De acordo com Campos Neto, o Pix vem sendo um instrumento importante para alavancar a digitalização das operações financeiras. “A intermediação bancária é muito importante nesse ambiente e o Pix foi o primeiro elemento da estratégia do BC para engajar as pessoas ao ecossistema de digitalização. Eu estou feliz de informar que, nesta semana, o Pix chegou a 290 milhões de transações em um dia. Eu nunca imaginava isso”, disse Campos Neto, lembrando que as projeções iniciais eram de 50 a 60 milhões de transações diárias. Na avaliação do ex-presidente do BC, os avanços da digitalização mostram que nessa nova realidade de transações instantâneas, “a importância da moeda, como o dólar, diminui”, porque o custo das operações cambiais tende a diminuir.
*A jornalista viajou a convite do Grupo Lide
Com informações do Correio Braziliense
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