O Dia Nacional do Reggae, celebrado nesta segunda-feira (11), homenageia a data da morte de Bob Marley, artista responsável por popularizar o ritmo jamaicano em diferentes partes do mundo. Mais do que um gênero musical, o reggae é reconhecido como uma expressão cultural marcada por mensagens de resistência, liberdade, espiritualidade e críticas sociais, além da forte ligação com a cultura rastafari. Oficializada no Brasil em 2012, a data também reforça a importância do movimento em Brasília, onde o reggae ganhou força entre as décadas de 1970 e 1980, especialmente no Guará, conhecido por muitos como a “cidade do reggae”.
Para o cantor de reggae Jacob Bruno, o estilo surgiu inicialmente como uma manifestação cultural ligada à celebração e à vivência do povo preto jamaicano, mas acabou se tornando também um instrumento político e social. Segundo ele, a própria existência de pessoas pretas “se divertindo e amando” já carrega um significado político. “O reggae nasceu como uma expressão festiva e romântica do povo preto, da Jamaica. Depois algumas pessoas levaram para um lado mais militante da música. Apesar de muitas vezes trazer questões sociais, acho que a maioria das pessoas vê o reggae como uma música festiva, ligada à celebração da natureza e da vida”, afirma.
Mesmo com diferentes interpretações ao longo dos anos, Jacob acredita que o reggae continua sendo uma ferramenta de transformação social, ainda que hoje muitos artistas e públicos enxerguem o gênero também como espaço de lazer e conexão coletiva.
A relação do seletor Fábio Oliveira com o reggae começou ainda na infância, mas foi durante um período vivendo no Uruguai que ele passou a atuar diretamente na cultura sound system. Segundo Fábio, o contato com um coletivo de música jamaicana despertou o interesse pela pesquisa musical e pela construção de seleções voltadas ao reggae. “Cheguei no Uruguai em 2010, conheci um coletivo de música jamaicana e comecei carregando caixa de som para os caras. Um dos seletores me incentivou a comprar discos, comecei a montar minha coleção e passei também a toastar, que é quem anima a galera no sound system”, relembra.
Em 2014, já morando em Brasília, Fábio decidiu montar o próprio sound system. Foi nesse período que conheceu o parceiro Antônio, responsável pela fabricação das caixas de som utilizadas nas festas realizadas pelo coletivo entre 2014 e 2016. Para ele, o reggae possui uma mensagem política que dialoga diretamente com pautas antirracistas e de enfrentamento às opressões sociais. “O reggae é uma música que dialoga com o povo preto, contra o racismo, contra o fascismo e contra a opressão. As músicas e seleções que faço carregam muito dessa ideia e dessa ideologia”, destaca.
Além da música, a dança também ocupa um espaço importante dentro da cultura reggae. O dançarino Hud Oliveira explica que, na Jamaica, o reggae possui uma relação mais voltada à musicalidade e à celebração coletiva, enquanto estilos posteriores, como o dancehall, trouxeram movimentos corporais mais intensos e batidas eletrônicas mais marcantes. “Dentro da cultura jamaicana, o reggae tem mais força como música mesmo. Os movimentos acontecem de forma mais leve, mais curtida. O dancehall vem depois com uma pegada mais eletrônica e com graves mais pesados, trazendo uma sensação maior de dança”, explica.
Segundo Hud, no Brasil o reggae acabou ganhando características próprias, especialmente no Maranhão, conhecido nacionalmente como a “Jamaica brasileira”. Na região, a dança passou a ser marcada por movimentos de casal, realizados de forma próxima e lenta. “As pessoas dançam agarradinhas, rosto no rosto, peito no peito. Isso mostra como a música provoca respostas diferentes em cada povo e em cada contexto social”, afirma.
Apesar da força cultural do movimento, Hud aponta que os profissionais da dança ainda enfrentam dificuldades em Brasília. Entre os principais desafios estão a falta de valorização financeira, a ausência de regulamentações para cachês e a pouca contratação de dançarinos em shows e eventos.
“Não temos conselho da dança que determine valores e precificação de cachês, poucas companhias pagam salário e muitas vezes a dança ainda é tratada apenas como entretenimento secundário. Mas esse cenário está mudando aos poucos, principalmente com o avanço das políticas públicas voltadas para a categoria”, ressalta.
Entre música, dança e resistência cultural, o reggae segue atravessando gerações e consolidando espaços em Brasília. É um gênero que mantém viva uma tradição que une celebração, consciência social e identidade coletiva.
Com informações do Jornal de Brasília
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