Autoimagem distorcida por aplicativos

Para os mais de 350 milhões de usuários — número estimado pelo Pew Research Center —, aplicativos de namoro são a esperança de encontrar, se não o amor, ao menos uma boa paquera. Esses mesmos programas, porém, podem estar golpeando a autoestima de jovens adultos, especialmente de mulheres, dizem pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália. Em um artigo publicado na revista Journal of Social and Personal Relationships, cientistas argumentam que as plataformas, focadas em imagens, prejudicam a forma como pessoas de 18 a 34 anos enxergam seus corpos. 

O estudo científico, que entrevistou 118 pessoas nessa faixa etária, soma-se a outra publicação australiana, do ano passado, segundo a qual a ênfase dos aplicativos de encontros na aparência influencia 20% das mulheres a recorrer a procedimentos estéticos. “Esperamos que as pesquisas orientem estudos futuros que busquem desenvolver intervenções para melhorar a autenticidade do uso de apps de namoro, assim como auxiliar profissionais a identificar com mais precisão as motivações de mulheres que desejam mudar a aparência”, explica John Mingoia, professor de psicologia on-line na Universidade do Sul da Austrália, que participou das duas pesquisas. 

No estudo mais recente, os pesquisadores entrevistaram usuários que passavam, em média, 44 minutos por dia deslizando o dedo na tela e enviando mensagens para possíveis futuros pares. Quase três quartos usavam aplicativos diversos, sendo o mais popular o Hinge, lançado há pouco no Brasil. Os resultados sugerem que há uma divisão de gênero muito clara na forma como os programas de encontros moldam a autoimagem. 

Mulheres

Para as mulheres, a confiança corporal estava intimamente ligada à validação e ao “sucesso” percebido nos aplicativos, como matches (quando duas pessoas gostam do perfil uma da outra) e mensagens. Segundo o estudo, ser ou não popular nesses programas as torna mais vulneráveis à rejeição baseada na aparência e mais propensas a aceitar procedimentos para modificá-la, incluindo cirurgia plástica e práticas de controle de peso prejudiciais, como pílulas emagrecedoras sem prescrição, uso de laxantes e indução de vômito. 

Por outro lado, para os homens, a imagem corporal foi menos influenciada pela validação e mais pela frequência e intensidade com que utilizavam as plataformas, sendo que, quanto maior a intensidade no uso, mais forte a pressão relacionada à aparência. “Os homens enfrentam menos pressão para atender a padrões de beleza rígidos, mas o uso intenso de aplicativos os expõe a mais rejeição, o que pode afetar negativamente a autoestima”, explica Georgia Cuthill, pesquisadora que conduziu o estudo da Universidade de Adelaide.

A cientista social destaca que os aplicativos de namoro funcionam como um espelho da autoimagem — mas, mais frequentemente, de forma negativa. “Como fornecem feedback constante baseado na aparência, principalmente para as mulheres, essa avaliação superficial pode começar a moldar a forma como as usuárias se sentem em relação aos seus corpos”, diz. “O ciclo de curtidas, matches e mensagens pode criar uma falsa sensação de sucesso. Embora isso possa parecer gratificante inicialmente, também pode reforçar padrões de beleza restritos e corroer gradualmente a autoconfiança.”

Procedimento

Na pesquisa publicada no ano passado, os autores entrevistaram 308 mulheres australianas entre 18 e 72 anos e descobriram que quase metade delas havia usado um aplicativo de namoro nos últimos dois anos. Uma em cada cinco relatou ter se submetido a pelo menos um procedimento estético. 

Segundo Naomi Burkhardt, que conduziu o estudo, as usuárias dos programas de encontro tinham “atitudes significativamente mais positivas em relação à cirurgia estética em comparação com as não usuárias”. Além disso, entre as primeiras a probabilidade de considerar modificar a aparência foi 20% maior. “A natureza visual dos aplicativos de namoro, que priorizam perfis com fotos, exerce uma pressão significativa sobre os usuários para que se apresentem de uma maneira idealizada, o que não é genuíno”, diz Burkhardt.

John Mingoia expressa preocupação, principalmente porque há estimativa de que, nos próximos anos, o número de usuários ultrapasse 450 milhões globalmente. “Impactos mais amplos na saúde podem ser significativos se a imagem corporal negativa e a constante autocomparação continuarem sem controle”, diz. “Sabemos que esses padrões aumentam o risco de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e distúrbios de imagem corporal a longo prazo.” 

O pesquisador destaca a necessidade de se investir mais em alfabetização midiática para ajudar os usuários a navegar em ambientes focados na aparência de forma mais segura. “Basear a autoestima na aparência pode criar um ciclo em que a validação é constantemente buscada, mas raramente parece suficiente”, lembra.

Mercado

A psicóloga e sexóloga Alessandra Araújo, que atua em Brasília, considera que o uso de aplicativos de namoro “transformou a busca pelo afeto em uma espécie de mercado digital, onde a mercadoria é a própria imagem”. Em um ambiente onde se desliza para a esquerda ou para a direita de acordo com o que se vê na tela do celular, a complexidade humana é reduzida a uma foto, argumenta. “Quando a rejeição ocorre em massa, ou pior, quando o silêncio do ‘zero match’ predomina, o usuário raramente culpa o algoritmo; ele tende a internalizar essa falta de interesse como um defeito pessoal ou estético, é o famoso: onde eu estou errando, o que tem de errado comigo.”

Em um cenário de padrões irreais, a psicóloga e sexóloga destaca que, frequentemente, o peso maior recai sobre a mulher. “A construção histórica da feminilidade está profundamente atrelada à beleza como forma de ‘moeda social’ e validação, onde, se eu não sigo um perfil ou modelo específico, eu estou no lugar do dejeto da sociedade”, diz. Quando os encontros não avançam, reforça-se ainda mais a ideia de que o valor está associado à capacidade de gerar desejo imediato. 

Alessandra Araújo defende algumas estratégias para navegar nos aplicativos de namoro “sem afundar a saúde mental”, começando pela compreensão de que o algoritmo é uma ferramenta desenhada para manter o usuário conectado o maior tempo possível. A especialista recomenda estabelecer limites de tempo e priorizar conexões no mundo real. “Para se abrir a qualquer relacionamento, eu preciso, como pessoa, saber quem eu sou, ter o mínimo de autoconhecimento, para que eu não caia nas armadilhas das exigências sociais ou de violência relacional.”

PALAVRA DE ESPECIALISTA

O uso frequente pode desencadear comportamentos prejudiciais, como dietas restritivas, excesso de exercícios ou a busca por procedimentos estéticos sem reflexão adequada. Alguns sinais de alerta incluem preocupação excessiva com a própria imagem, necessidade constante de validação, queda na autoestima após uso dos aplicativos, comparação frequente com outras pessoas e mudanças bruscas nos hábitos alimentares ou de autocuidado. Para proteger a saúde mental, é importante desenvolver um uso mais consciente. Isso inclui limitar o tempo nos aplicativos, evitar basear a autoestima nas interações virtuais e fortalecer outras dimensões da identidade, como habilidades, valores e relações fora do ambiente digital. Também é fundamental trabalhar o autoconhecimento e a autocompaixão, entendendo que rejeições nesses espaços não definem o valor pessoal. Em alguns casos, buscar apoio psicológico pode ajudar a ressignificar essas experiências e construir uma relação mais saudável consigo mesmo e com os outros.

REGINA VERA DIAS SAUTCHUCK, psicóloga clínica e organizacional

TRÊS PERGUNTAS PARA…

REJANE SBRISSA, psicóloga cognitivo comportamental especialista em transtornos alimentares

Como os apps de namoro impactam a percepção do próprio corpo?

Esses aplicativos podem impactar e, muito, a autoestima. E isso acontece justamente por causa da lógica central deles, que é a dinâmica de “curtir ou rejeitar”, rápida, visual e muitas vezes superficial. Isso vai criando uma associação perigosa de que o seu valor pessoal depende de validação externa. Também, esses apps priorizam fotos. O que faz com que o corpo e o rosto virem o principal critério de escolha; em consequência, as pessoas passam a se comparar constantemente e, assim, sintam-se fora padrões, com sensação de inadequação corporal, busca por perfeição estética, autoimagem distorcida e redução da autoconfiança.

O uso frequente dos aplicativos contribui para comportamentos prejudiciais? 

Isso não acontece com todo mundo, mas é um risco real quando já existe insegurança com o corpo. A lógica é sutil, mas poderosa. A exposição constante a padrões irreais, perfis muito editados, corpos “perfeitos”, filtros… isso cria uma referência distorcida do que é normal. A comparação repetitiva faz a pessoa começar a pensar que, se ela fosse mais magra, mais jovem ou diferente, teria mais matches. Associa aparência à aceitação. Em níveis mais intensos, isso pode contribuir para transtornos alimentares, anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno dismórfico corporal, ansiedade e queda significativa da autoestima, podendo levar à depressão. Tudo isso faz a pessoa buscar tratamentos extremos, buscar cirurgias estéticas e dietas rígidas, sendo que, normalmente, nunca se sentirá satisfeita com a própria aparência. 

Por que, nesses aplicativos, as mulheres parecem ser mais afetadas pela validação?

Culturalmente, existe uma pressão maior sobre a aparência feminina, um fenômeno reforçado socialmente. A mulher foi historicamente mais “olhada” do que “ouvida”. Desde cedo, elas aprendem (explicitamente ou não) que ser bonita aumenta a aceitação social. Aparência influencia valor, desejo e até oportunidades. Isso cria uma espécie de “lente interna” e passa a ser uma preocupação constante. A cultura reforça padrões estéticos mais rígidos para mulheres. Embora homens também sofram pressão estética, ela costuma ser mais recente e menos central na identidade masculina. A socialização emocional é diferente para mulheres e homens. (PO)

Com informações do Correio Braziliense

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