Presidente defende processamento de terras raras no Brasil, rejeita papel de mero exportador de matéria-prima e afirma que país pode competir com chineses na cadeia tecnológica
247 — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem “inveja” do conhecimento acumulado pela China na exploração e no processamento de minerais críticos e terras raras. A declaração foi feita durante uma reunião no Palácio do Planalto com ministros, especialistas, pesquisadores e representantes do setor mineral.
As informações foram divulgadas pela RT Brasil, com base em reportagem do portal Metrópoles. O encontro, realizado na sexta-feira (10), teve como objetivo discutir a formulação de uma política nacional voltada à pesquisa, à exploração, ao beneficiamento e à industrialização desses recursos estratégicos em território brasileiro.
“Eu, sinceramente, achei que a gente era quase analfabeto nesse assunto e nessa reunião ficou claro o potencial de conhecimento que o Brasil tem em todas essas coisas que parecem uma coisa só da China, obcecada a ser a única do mundo, e da inveja do Trump de querer tomar o conhecimento da China”, declarou Lula.
Segundo o presidente, a reunião demonstrou que o Brasil dispõe de conhecimento técnico, instituições de pesquisa e profissionais capacitados para desenvolver uma cadeia produtiva própria. Para Lula, o próximo passo é definir o papel que o país pretende desempenhar em um setor considerado decisivo para a economia e para a geopolítica mundial.
Brasil não quer apenas exportar matéria-prima
Lula defendeu que o Brasil abandone o modelo baseado na simples extração e exportação de recursos naturais. A orientação do governo, segundo ele, é estimular o processamento dos minerais, o desenvolvimento tecnológico e a fabricação de produtos de maior valor agregado dentro do país.
“Nós não queremos ser vendedor de matéria-prima, nós queremos ser exportador de inteligência, de conhecimento. E é isso que a gente vai fazer com essas famosas terras tão raras, que eu ainda não as conheço. Mas vou conhecê-las”, afirmou.
A declaração reforça a estratégia do governo de evitar que o Brasil repita, no setor de minerais críticos, a posição historicamente ocupada na exportação de commodities. A intenção é utilizar as reservas nacionais como base para a criação de indústrias, centros de pesquisa, empregos qualificados e novas cadeias tecnológicas.
Minerais críticos e terras raras são empregados na produção de veículos elétricos, baterias, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de telecomunicações e tecnologias militares. Por essa razão, o controle da extração, do refino e da industrialização desses materiais tornou-se um dos principais pontos da disputa econômica entre China e Estados Unidos.
Lula afirma que Brasil pode disputar cadeia dominada pela China
Durante a reunião, Lula classificou o encontro como um momento de mudança na história brasileira em relação aos recursos minerais estratégicos. Ele afirmou que o país reúne condições para dominar tecnologias atualmente concentradas na China.
“Eu confesso a vocês que essa reunião de hoje, essa reunião, é a mudança da nossa história nessa questão das terras raras e minerais críticos. Se o Trump está preocupado com a China, pode começar a estar preocupado com o Brasil, que nós vamos ser detentor de fazer as mesmas coisas, ou mais qualificadas, que o chinês faz”, pontuou.
A China ocupa uma posição dominante na cadeia internacional das terras raras, principalmente nas etapas de processamento e refino. O Brasil, por sua vez, possui grandes reservas minerais, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse potencial geológico em capacidade industrial e tecnológica.
O principal desafio para o país está justamente nas etapas posteriores à extração. O domínio de técnicas de separação, purificação e processamento exige investimentos elevados, infraestrutura, formação de profissionais e desenvolvimento científico continuado.
Minerais críticos estão no centro da disputa internacional
A busca pelo controle dos minerais críticos ganhou importância com a transição energética, o avanço da inteligência artificial e a expansão da indústria de defesa. Países industrializados procuram reduzir sua dependência do fornecimento e do processamento realizados pela China.
Os Estados Unidos convidaram o Brasil, em 2026, para integrar uma aliança voltada à produção e ao refino de minerais críticos e terras raras. O governo brasileiro recusou a proposta por considerar que o mecanismo poderia limitar a autonomia nacional na definição de parcerias e estratégias para o setor.
A posição brasileira é negociar com diferentes países, preservando a soberania sobre os recursos e evitando uma vinculação exclusiva a um dos polos da disputa internacional. A orientação também busca assegurar que acordos de cooperação incluam transferência de tecnologia, investimentos industriais e processamento dos minerais no Brasil.
A política defendida por Lula parte do princípio de que a riqueza mineral deve ser utilizada como instrumento de desenvolvimento econômico e tecnológico, e não apenas como fonte de matérias-primas para outras economias.
Congresso analisa política nacional para o setor
O debate sobre minerais críticos também avançou no Congresso Nacional. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
A proposta prevê a criação de um fundo garantidor para projetos do setor e estabelece um crédito tributário de R$ 5 bilhões destinado ao processamento de minérios no Brasil. O texto ainda precisa ser analisado pelo Senado.
Entre os objetivos da política estão o estímulo à pesquisa geológica, a atração de investimentos, o fortalecimento da indústria nacional e a redução da dependência externa em setores considerados estratégicos.
O governo pretende combinar as medidas em discussão no Congresso com ações de instituições públicas, universidades, centros de pesquisa e empresas privadas. A meta é estruturar uma cadeia nacional capaz de atuar desde a identificação das reservas até a fabricação de componentes tecnológicos.
Ao defender que o Brasil se torne um exportador de conhecimento e tecnologia, Lula sinalizou que a política para terras raras e minerais críticos será tratada como uma questão de soberania, industrialização e inserção estratégica do país na nova economia mundial.



