Trump anuncia continuidade das negociações com o Irã, mas declara fim do cessar-fogo

Presidente dos Estados Unidos ameaça lançar ataques devastadores contra o território iraniano enquanto Catar e Omã tentam conter escalada militar e garantir a navegação pelo Estreito de Ormuz

247 — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington e Teerã concordaram em manter abertas as negociações diplomáticas, apesar da retomada das hostilidades no Golfo. Ao mesmo tempo, o mandatário norte-americano declarou encerrado o cessar-fogo alcançado entre os dois países no mês passado e voltou a ameaçar o Irã com uma ofensiva militar de grandes proporções.

As informações foram publicadas neste sábado (11) pela agência Reuters, em reportagem assinada por Steve Holland e Enas Alashray, com contribuições de correspondentes no Cairo, Dubai, Doha e Londres. Segundo a agência, as declarações de Trump ocorreram após uma semana marcada por novos ataques contra navios comerciais, bombardeios norte-americanos no Irã e ofensivas iranianas contra instalações militares dos Estados Unidos em países do Golfo.

“A República Islâmica do Irã nos pediu para continuar as ‘negociações’. Concordamos em fazê-lo, mas os Estados Unidos afirmaram a eles, em termos inequívocos, que o cessar-fogo ACABOU!”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social.

O governo iraniano contestou a versão apresentada pelo presidente norte-americano. Segundo a televisão estatal do país, Teerã não teria solicitado diretamente a retomada das conversações com Washington, mas concordado em receber um mediador enviado pelo Catar.

Negociadores catarianos se reuniram com autoridades iranianas para tentar reduzir as tensões e discutir a situação no Estreito de Ormuz, de acordo com uma fonte informada sobre as conversações ouvida pela Reuters. Arábia Saudita e Omã também estão envolvidos nos esforços diplomáticos para evitar uma nova ampliação da guerra.

Trump ameaça “destruir todas as áreas do Irã”

Em outra publicação, Trump afirmou ter ordenado que as Forças Armadas dos Estados Unidos permaneçam preparadas para atacar o Irã caso o governo iraniano execute ou tente executar um suposto plano para assassiná-lo.

“Mil mísseis estão preparados, carregados e apontados para a República Islâmica do Irã, com milhares de outros para serem lançados imediatamente, caso o governo iraniano cumpra sua ameaça, anunciada em muitas partes do mundo, de assassinar ou tentar assassinar o presidente em exercício dos Estados Unidos da América, neste caso, EU!”, escreveu o presidente norte-americano.

Trump acrescentou que as ordens já teriam sido transmitidas aos militares.

“As ordens já foram dadas, e as Forças Armadas dos Estados Unidos estão prontas, dispostas e capacitadas, pelo período de um ano, sujeito a prorrogação, para dizimar completamente e destruir todas as áreas do Irã — LOUVADO SEJA ALÁ!”, declarou.

Não houve uma resposta imediata do governo iraniano às novas ameaças de Trump.

Wall Street Journal e outros veículos da imprensa norte-americana informaram durante a semana que Israel teria compartilhado com Washington informações de inteligência segundo as quais o Irã teria elaborado recentemente um plano para assassinar o presidente dos Estados Unidos.

Durante o funeral do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo no primeiro dia da guerra, uma multidão ocupou um pátio nesta quinta-feira. Alguns participantes carregavam faixas com a frase “Nós mataremos Trump”, segundo o relato da Reuters.

Catar e Omã tentam impedir nova escalada

As declarações de Trump foram divulgadas em um dia de relativa calma, após uma semana de confrontos renovados. Três navios-tanque comerciais do Catar e da Arábia Saudita foram atacados, levando os Estados Unidos a bombardear instalações iranianas.

O Irã respondeu atingindo posições militares norte-americanas em países do Golfo. Nenhum novo ataque foi registrado na sexta-feira, enquanto mediadores regionais intensificavam os contatos diplomáticos.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, chegou a Omã neste sábado para discutir medidas destinadas a garantir a passagem segura de embarcações pelo Estreito de Ormuz, informou a agência semioficial iraniana Tasnim.

A guerra começou em 28 de fevereiro, com ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o território iraniano. Desde então, milhares de pessoas morreram, o abastecimento mundial de energia foi afetado e aumentaram os temores de uma desaceleração econômica global.

Um acordo provisório alcançado no mês passado deveria abrir caminho para o encerramento do conflito, atualmente em seu quinto mês. A retomada dos bombardeios e as ameaças de Trump, porém, colocaram em dúvida a continuidade dos entendimentos.

Estreito de Ormuz está no centro das negociações

O Estreito de Ormuz se transformou em um dos principais focos da disputa. Antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo consumido no mundo passava pela rota marítima, localizada entre o Irã e a Península Arábica.

Os Estados Unidos exigem que o governo iraniano declare publicamente que interromperá os ataques contra embarcações e permitirá a abertura de todas as rotas do estreito, sem a cobrança de taxas de passagem, disseram altos funcionários norte-americanos à Reuters.

Durante o conflito, Teerã ampliou seu controle sobre o estreito e passou a utilizar sua posição geográfica como um instrumento de pressão diante da superioridade militar dos Estados Unidos.

O governo norte-americano também considera fundamental restabelecer a segurança da navegação para conter a alta dos preços do petróleo, que representa um problema político para Trump antes das eleições legislativas de novembro.

Após várias semanas de queda, os preços do petróleo registraram sua maior valorização semanal em oito semanas, aumentando os custos de combustíveis e outros produtos para consumidores norte-americanos e para a economia mundial.

Ataques norte-americanos deixaram mortos e feridos

Pelo menos 17 pessoas morreram nos ataques conduzidos pelos Estados Unidos contra seis cidades iranianas entre quarta e quinta-feira, informou o chefe do centro de relações públicas e informações do Ministério da Saúde do Irã. Outras 115 pessoas ficaram feridas.

Apesar dos novos confrontos, autoridades norte-americanas afirmaram que as conversações entre os dois países foram produtivas nos últimos dias.

Teerã, por sua vez, advertiu que qualquer descumprimento de compromissos por parte de Washington receberá uma “ação recíproca”, segundo declaração do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano divulgada pela imprensa estatal.

A continuidade das negociações, portanto, ocorre em um cenário de extrema fragilidade. Enquanto mediadores do Catar e de Omã procuram estabelecer condições mínimas para um novo entendimento, Estados Unidos e Irã mantêm forças militares mobilizadas e trocam advertências públicas.

A contradição entre o anúncio de novas conversas e a declaração de que o cessar-fogo terminou evidencia o risco de que um incidente no Estreito de Ormuz, um novo ataque contra embarcações ou uma ofensiva contra instalações militares volte a desencadear uma rodada de bombardeios na região.

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