O governo Lula lança um plano de R$ 11 bilhões para enfrentar o crime organizado, com medidas voltadas ao combate às facções, ao tráfico de armas, à resolução de homicídios e à lavagem de dinheiro, em meio à pressão crescente sobre a área de segurança pública.
O programa, batizado de “Brasil contra o crime organizado”, será apresentado no Palácio do Planalto com a presença do presidente Lula e do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
O pacote sucede às iniciativas anteriores, como a PEC da Segurança, aprovada na Câmara com alterações que desagradaram ao governo e parada há mais de dois meses no Senado. A proposta contempla uma expectativa da população.
De acordo com levantamento do Datafolha, feito em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado no último domingo, 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam notar a presença direta do crime organizado no bairro onde vivem. O dado reforça a centralidade política do tema para o governo.
Recursos federais e empréstimos aos estados
O novo programa prevê cerca de R$ 1 bilhão do Orçamento federal deste ano e outros R$ 10 bilhões em empréstimos aos estados por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Os recursos devem ser direcionados principalmente ao Fundo Nacional de Segurança Pública e ao Fundo Penitenciário Nacional.
A execução do plano dependerá da adesão voluntária dos governos estaduais. Caberá aos estados aceitar as propostas do governo federal para ter acesso aos recursos. Esse ponto é considerado crucial, já que a cooperação federativa será determinante para a implementação das ações nas áreas mais afetadas pela atuação de facções.
O lançamento ocorre sob cobrança por resultados no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Wellington César Lima e Silva, que sucedeu Ricardo Lewandowski em janeiro, comanda uma pasta vista como estratégica para o governo neste ano eleitoral.
Quatro eixos contra o crime organizado
O programa foi estruturado em quatro frentes principais: combate ao tráfico de armas, fortalecimento do sistema prisional, aumento da taxa de resolução de homicídios e asfixia financeira das organizações criminosas, destaca reportagem do jornal O Globo.
A frente financeira ganhou força após os desdobramentos da Operação Carbono Oculto, que apontaram o uso de estruturas de fintechs por facções como o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho, o CV, em esquemas de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Segundo investigações citadas pelo jornal, esses mecanismos movimentaram mais de R$ 28 bilhões nos últimos seis anos.
Entre as medidas previstas estão a criação de uma unidade central da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, a Ficco, e a implantação de leilões centralizados no Ministério da Justiça para a venda de bens apreendidos do crime.
Governo tenta evitar classificação de facções como terroristas
O combate ao crime organizado também ganhou peso diplomático diante da intenção dos Estados Unidos de classificar grupos brasileiros, como PCC e CV, como organizações terroristas. O Planalto rechaça essa hipótese junto ao entorno de Trump por temer interferências indevidas no Brasil.
No mês passado, a Receita Federal e a agência de fronteiras dos Estados Unidos, a U.S. Customs and Border Protection, firmaram um acordo para compartilhamento de informações de inteligência e realização de ações coordenadas para interceptar cargas ilegais, especialmente de armas e drogas, que circulam entre os dois países.
Reforço em presídios e combate a ordens de dentro das cadeias
Outro eixo do plano mira o sistema prisional. A iniciativa prevê a compra de bloqueadores de celular, drones, scanners corporais e radares capazes de detectar túneis para 138 cadeias estaduais. Segundo governistas citados na reportagem, essas unidades abrigam 80% dos chefes de facção.
O objetivo é dificultar a comunicação de lideranças criminosas presas com comparsas em liberdade. A proposta também busca aproximar o padrão de segurança das penitenciárias estaduais daquele adotado em prisões federais, incluindo regras de isolamento.
O problema do uso de celulares, porém, também atinge unidades federais. Um relatório da empresa de cibersegurança Ironfence, entregue à Secretaria Nacional de Políticas Penais e citado pelo jornal, apontou a presença de aparelhos no perímetro ou no entorno de cinco penitenciárias federais entre novembro de 2025 e fevereiro.
Na penitenciária de Catanduvas, a ferramenta identificou 153 aparelhos na área, inclusive próximos aos pavilhões de detentos. Em Campo Grande e Brasília, foram contabilizados 132 e 452 dispositivos, respectivamente, com sinais captados em áreas sensíveis.
Resolução de homicídios é desafio nacional
O governo também pretende atuar para reduzir a disparidade entre os estados na resolução de homicídios. Uma das medidas previstas é a unificação dos bancos nacionais de perfis genéticos.
Dados mais recentes do Instituto Sou da Paz, referentes a 2023, mostram que o índice de conclusão definitiva de casos de homicídio no Brasil é de 36%. O percentual está abaixo da média mundial, de 63%, e também da média do continente americano, de 43%.
A baixa capacidade de elucidação de homicídios é vista como um dos entraves para o enfrentamento mais amplo das redes criminosas. A padronização de dados e o uso integrado de informações genéticas aparecem, nesse contexto, como instrumentos para fortalecer investigações.
Pesquisas mostram medo da população
A pesquisa Datafolha mostra que, entre os brasileiros que percebem a atuação do crime organizado em seus bairros, 34,9% afirmam que traficantes ou milicianos influenciam muito as decisões e regras de convivência locais. Outros 26,5% veem influência moderada, enquanto 19% dizem que essa influência é pequena.
A presença dessas organizações também afeta a circulação e a rotina da população. Entre os moradores de áreas impactadas, 81% relatam medo de ficar no meio de confrontos armados, 74,9% evitam determinados locais e 65,2% dizem que deixam de circular pela região em certos horários.
Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que a criminalidade passou a operar em estruturas cada vez mais organizadas.
“Por trás de um crime que antes poderia ser difuso, temos cadeias criminais organizadas que vão sendo reguladas e consolidadas, sobretudo no PCC e no CV, além de outras 30 a 40 organizações presentes no território brasileiro”, disse.
Adesão dos estados será decisiva
A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, avaliou positivamente a iniciativa federal, mas criticou o fato de o lançamento ocorrer a poucos meses da eleição. Para ela, o ambiente político pode dificultar a adesão de governadores ao programa.
“Dada a polarização e o acirramento político, me parece que há chances de muitos estados não aderirem justamente para não dar dividendos ao governo”, afirmou.
Carolina também cobrou articulação política do Planalto para viabilizar a execução do pacote.
“Terá de ser a prioridade um: articulação política de todo o governo, dos diferentes ministérios, do próprio presidente, para dar conta de costurar e tentar superar algumas dessas resistências que podem acontecer”, declarou.
A nova frente de segurança pública surge enquanto o governo tenta destravar a PEC da Segurança no Congresso.
Com informações do portal 247
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