A direção nacional do PT iniciou uma ofensiva nas redes sociais para pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a colocar em votação a Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. A mobilização ocorre em uma semana decisiva para o Congresso e em meio ao agravamento das tensões entre o Legislativo e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo, que relata uma forte irritação de Alcolumbre após duas operações da Polícia Federal ampliarem as investigações sobre o uso de emendas parlamentares e os mecanismos associados ao chamado orçamento secreto. Embora as ações tenham atingido diretamente ex-deputados e dirigentes partidários, senadores avaliam que as apurações poderão alcançar integrantes da Casa.
A campanha petista, identificada pela hashtag #AprovaSenado, tenta aproveitar os últimos dias de atividade parlamentar antes do recesso para transformar o fim da escala 6×1 em uma votação de forte pressão popular. O recesso legislativo está previsto para ocorrer entre 18 e 31 de julho, desde que sejam cumpridas as condições constitucionais para sua realização.
PT convoca militância para pressionar o Senado
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, enviou uma mensagem ao grupo “Porta-Vozes do Lula” solicitando o engajamento de dirigentes, parlamentares e militantes na campanha digital.
“Estaremos dando início a uma grande campanha de mobilização nas redes sociais para que a gente possa pressionar o Senado a votar o fim da jornada 6×1”, afirmou Edinho.
“A PEC já foi aprovada na Câmara. Precisamos fazer com que a PEC seja aprovada também no Senado Federal”, acrescentou.
A proposta aprovada pela Câmara estabelece uma jornada semanal de 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial. O texto recebeu 461 votos favoráveis e 19 contrários no segundo turno e agora precisa do apoio de pelo menos 49 dos 81 senadores para ser aprovado no Senado.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, também convocou os apoiadores do partido a publicar vídeos e mensagens dirigidas aos senadores.
“Esta semana é importantíssima, é a última semana antes do recesso. Então, vamos nos mobilizar, vamos botar pressão total. Aprova, Senado, o fim da escala 6 por um!”, declarou Éden em vídeo divulgado nas redes sociais.
A mobilização virtual dá continuidade a uma campanha nacional promovida pelo PT, por centrais sindicais e por movimentos sociais em defesa da redução da jornada de trabalho sem diminuição dos salários. A plataforma partidária sustenta que o fim da escala 6×1 representa uma mudança estrutural nas relações trabalhistas e amplia o direito ao descanso, à convivência familiar, ao estudo e ao lazer.
Marina Silva adere à campanha
Pré-candidata ao Senado por São Paulo, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, da Rede, também participou da campanha e cobrou publicamente uma posição dos senadores.
“A Câmara dos Deputados já aprovou o fim da escala 6×1, graças à grande mobilização da sociedade brasileira e dos parlamentares que defendem os direitos dos trabalhadores. Agora é a vez do Senado fazer a sua parte”, afirmou Marina.
A adesão de Marina amplia o alcance político da mobilização e reforça a tentativa de apresentar a redução da jornada como uma pauta que ultrapassa as fronteiras partidárias. O tema ganhou forte apoio popular nos últimos meses e passou a ocupar lugar central na agenda trabalhista do governo Lula e de seus aliados.
O Executivo defende a substituição da jornada máxima de 44 horas por um regime de 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem perda salarial. Segundo materiais divulgados pelo PT, três em cada dez trabalhadores brasileiros com carteira assinada estão submetidos atualmente à escala 6×1.
Alcolumbre reage à pressão petista
A intensificação da campanha, porém, ocorre em um ambiente político deteriorado. Alcolumbre já havia demonstrado descontentamento após declarações do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e do líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC).
Os dois afirmaram que o presidente do Senado seria “responsabilizado” caso mantivesse a PEC fora da pauta. Alcolumbre respondeu que não aceitaria ameaças e indicou que tentativas de constrangimento público poderiam dificultar ainda mais o diálogo.
Apesar da reação do senador, a orientação dentro do PT foi não recuar na mobilização. Dirigentes partidários acreditam que a pressão social é indispensável para impedir que a proposta permaneça indefinidamente parada no Senado.
A bancada petista já vinha anunciando que faria da aprovação do fim da escala 6×1 uma de suas prioridades na Casa. Parlamentares governistas defendem que a ampla maioria registrada na Câmara seja reproduzida no Senado e que a proposta seja aprovada sem alterações que reduzam seu alcance.
Operações da PF ampliam tensão com o Congresso
O elemento mais explosivo da crise, no entanto, está nas operações da Polícia Federal relacionadas às emendas parlamentares. De acordo com o Estadão, Alcolumbre manifestou forte irritação em conversas reservadas depois que as investigações avançaram sobre personagens ligados ao Centrão.
Uma decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, atingiu o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, do Republicanos de Minas Gerais. Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar e a suspensão de emendas indicadas por ele.
O ministro também mandou bloquear R$ 6 milhões em emendas que, segundo a investigação da Polícia Federal, teriam sido desviadas por Eduardo Cunha. Ex-presidente da Câmara, Cunha é apontado como padrinho político de Hugo Motta e continua exercendo influência sobre setores do Centrão.
Embora apenas Motta tenha divulgado uma nota pública de repúdio à ação policial, Alcolumbre não teria escondido sua insatisfação nos bastidores. O presidente do Senado é apontado no Congresso como um dos principais articuladores do sistema de distribuição de verbas que ficou conhecido como orçamento secreto, prática revelada originalmente pelo próprio Estadão.
Senadores temem avanço das investigações
Segundo o jornal, parlamentares avaliam reservadamente que as diligências da Polícia Federal poderão chegar ao Senado. O temor aumentou depois que a investigação passou a alcançar figuras influentes, partidos e mecanismos de indicação de emendas mesmo por pessoas que não possuem mandato parlamentar.
O chamado orçamento secreto permitia a distribuição de recursos públicos com pouca transparência sobre os autores das indicações e sobre os critérios utilizados para a escolha das obras e dos municípios beneficiados. Embora o Supremo Tribunal Federal tenha declarado o mecanismo inconstitucional, diferentes modalidades de emendas continuaram ocupando lugar central nas negociações entre o Executivo e o Congresso.
A reação de parte do Legislativo às investigações demonstra que a disputa ultrapassa a responsabilidade individual dos investigados. O avanço da Polícia Federal atinge um sistema de poder que ampliou consideravelmente a influência de deputados e senadores sobre o Orçamento da União.
Nesse cenário, o governo Lula enfrenta uma situação delicada: precisa defender a autonomia das instituições responsáveis pelas investigações e, ao mesmo tempo, depende do comando do Congresso para aprovar projetos considerados estratégicos.
Relação entre Planalto e Congresso pode piorar
A avaliação apresentada pelo Estadão é que o ambiente político, que já era hostil ao governo, sobretudo no Senado, piorou depois das operações da Polícia Federal. Até integrantes do PT admitem reservadamente que projetos importantes poderão ser adiados para depois das eleições de outubro.
Entre as matérias sob risco estão a PEC da Segurança Pública e a própria proposta que acaba com a escala 6×1, bandeiras que o governo pretende apresentar como compromissos centrais de sua agenda social.
A dificuldade para aprovar esses projetos foi discutida em uma reunião entre integrantes da coordenação da campanha de Lula. A preocupação é que o agravamento do confronto com o Congresso paralise as votações e impeça o governo de apresentar novos resultados antes da disputa eleitoral.
A direção petista, porém, decidiu apostar na pressão pública. A estratégia consiste em elevar o custo político de Alcolumbre caso ele mantenha a proposta fora da pauta, apresentando a redução da jornada como uma demanda direta dos trabalhadores.
Camilo Santana pede diálogo
Em meio à ofensiva, o líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), pediu cautela aos integrantes da base governista. Ele advertiu que ataques generalizados ao Legislativo podem dificultar a aprovação dos próprios projetos defendidos pelo governo.
“Temos que lembrar que somos governo e precisamos sempre dialogar para destravar os projetos de interesse do Brasil”, afirmou Camilo.
A declaração foi interpretada como um “puxão de orelha” nos aliados que adotaram discursos baseados na ideia de que o Congresso seria “inimigo do povo”. Para o senador, a pressão política precisa ser combinada com negociação institucional e construção de maioria.
Até o momento, porém, a tentativa de reduzir a tensão não produziu uma reaproximação entre o Palácio do Planalto e Alcolumbre.
MP do Frete também corre risco
A crise também ameaça a Medida Provisória do Frete, editada pelo governo em março para endurecer a fiscalização sobre o cumprimento do piso mínimo estabelecido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres.
A medida foi considerada fundamental para evitar uma nova greve dos caminhoneiros em diferentes regiões do país. Mesmo depois de aprovada pela Câmara, porém, a MP permanece parada no Senado e perderá a validade na quinta-feira, dia 16, caso não seja analisada.
Caminhoneiros afirmam que poderão voltar a cruzar os braços se a medida caducar. O impasse aumenta a pressão sobre Alcolumbre e demonstra como a deterioração da relação política pode produzir efeitos concretos sobre a economia e o transporte de mercadorias.
Semana decisiva para Alcolumbre e o governo
A última semana antes do recesso reúne, portanto, diferentes focos de tensão. De um lado, o PT mobiliza sua base social para exigir a votação de uma proposta que beneficia milhões de trabalhadores. De outro, a cúpula do Congresso reage às operações da Polícia Federal e ao avanço das investigações sobre emendas parlamentares.
Alcolumbre passa a ocupar o centro desse conflito. Como presidente do Senado, cabe a ele definir o calendário de votações e decidir se a PEC pelo fim da escala 6×1 será analisada antes da interrupção dos trabalhos legislativos.
A campanha #AprovaSenado busca transformar essa decisão em um teste público sobre a disposição dos senadores de atender a uma demanda social de grande alcance. Ao mesmo tempo, a crise em torno das emendas demonstra que as escolhas do comando do Congresso estarão condicionadas por uma disputa mais ampla envolvendo poder orçamentário, investigações policiais e a relação entre os Poderes.
O resultado dessa disputa poderá determinar não apenas o destino do fim da escala 6×1, mas também o grau de governabilidade de Lula durante os meses decisivos que antecedem as eleições de outubro.
Com informações do portal 247



