Recém-chegado a Brasília, o embaixador palestino Marwan Jebril Burini espera contar com o apoio do governo brasileiro para enfrentar seus desafios diplomáticos. Entre eles está o Conselho de Paz proposto pelos Estados Unidos para discutir o futuro da Faixa de Gaza. O controverso grupo, que deve se reunir em Washington pela primeira vez nesta quinta (19), não inclui palestinos no alto escalão.
Burini, 63, diz que seu governo viu com bons olhos o fato de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu o assunto com Donald Trump, chamando a atenção do americano para a ausência de representantes da Palestina. “Fomos excluídos, como Lula disse a Trump, e precisamos estar ali”, afirma à Folha. “Somos nós que temos que resolver os problemas do nosso povo”, diz.
Por ora, as autoridades palestinas em Ramallah enxergam com ceticismo a criação do Conselho de Paz. Fará parte do grupo o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, que Burini descreve como “um criminoso de guerra que matou mais de 70 mil pessoas”, referindo-se à campanha militar de Tel Aviv em Gaza.
Nascido em Nablus, na Cisjordânia, o diplomata cresceu no Kuwait, estudou na Espanha e foi embaixador em El Salvador, antes de chegar a Brasília, em dezembro. A posse de Burini marcou um novo momento da diplomacia palestina no Brasil, já que seu antecessor, Ibrahim Alzeben, esteve no cargo por 17 anos.
O Brasil é um aliado histórico da Palestina. A gestão de Jair Bolsonaro foi uma exceção por ter se afastado de Ramallah e se aproximado de Tel Aviv. Burini prefere não comentar diretamente a possibilidade de um governo novamente avesso aos palestinos, depois das eleições deste ano. “As relações com a Palestina deveriam ser um assunto de Estado, e não de governo, independentemente de quem esteja no poder.”
Burini também pretende se apoiar na comunidade palestina local, estimada em 60 mil pessoas. “Eles são embaixadores da causa. Só de falarem sobre suas experiências, eles já ajudam a transmitir aos brasileiros o que está acontecendo na Palestina”, diz. “Nós fazemos o trabalho político, mas eles chegam a setores aos quais não chegamos.”
A diplomacia palestina lida hoje com diversas frentes além de Gaza. Uma delas é a Cisjordânia, e o gabinete de Netanyahu aprovou neste domingo (15) medidas que facilitam a compra de terras por colonos no território palestino. Tel Aviv ocupou a Cisjordânia em 1967 e, em desacordo com a comunidade internacional, continua a construir assentamentos. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, afirmou que o governo israelense “seguirá matando a ideia de um Estado palestino”.
“É uma continuidade da política criminosa de colonização, não tem outro nome”, afirma o embaixador Burini. “Não vai sobrar nenhum pedaço de terra para estabelecermos nosso Estado soberano. Isso é inaceitável.”
Na sua avaliação, a expansão israelense na Cisjordânia está relacionada aos ataques de 7 de outubro de 2023. Naquela data, membros do grupo terrorista Hamas, sediado em Gaza, atacaram o sul de Israel, deixando 1.200 mortos. Em retaliação, Tel Aviv iniciou uma campanha de bombardeios de dois anos, devastando a infraestrutura do território. Organizações internacionais, um painel independente da ONU e diversos governos, incluindo o do Brasil, acusam Israel de cometer genocídio, o que Tel Aviv nega.
“Israel diz ao mundo que é a vítima, que é o lado bom”, declara Burini.
O embaixador afirma que o Hamas não faz parte do governo palestino nem o representa. “Nada justifica matar crianças, tanto da nossa parte quanto da deles”, diz, referindo-se às vítimas palestinas e israelenses. “Só que este conflito não começou em 2023. Estamos há décadas sob ocupação.”
Uma das questões mais complexas das negociações para o fim da guerra é o futuro do Hamas em Gaza. Israel exige o desarmamento da organização, algo que hoje parece improvável. Nesse ponto, o governo de Ramallah está de acordo. “Eles deveriam entregar as armas e virar um partido como os demais”, afirma Burini. “Só deveria haver armas nas mãos do Estado.”
Com informações do Jornal de Brasília
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