No aniversário de 55 anos de Ceilândia, comemorado em 27 de março, histórias que nasceram junto com a cidade ajudam a explicar a identidade da região marcada pela resistência e pela organização popular. Entre elas, está a trajetória do Centro de Cultura e Educação Popular Paulo Freire de Ceilândia (Cepafre), que, após quase quatro décadas de atuação, conquista sua primeira sede própria e reafirma o papel da educação popular como ferramenta de transformação social no maior centro urbano do Distrito Federal.
Fundado em 1986, antes mesmo da consolidação da nomenclatura Educação de Jovens e Adultos (EJA), o projeto surgiu como Núcleo Paulo Freire de Alfabetização de Adultos, criado por alunos do mestrado em Educação da Universidade de Brasília (UnB). A iniciativa nasceu a partir da escuta da comunidade, que apontava a alfabetização como uma das principais demandas da população local.
Desde o início, a proposta foi inspirada na metodologia freiriana, baseada no diálogo, na construção coletiva do conhecimento e na valorização da realidade vivida pelos estudantes. A parceria com a universidade permanece até hoje, com formação de educadores populares e ações conjuntas.
Logo nos primeiros anos, 1.182 jovens e adultos foram alfabetizados. Mas a caminhada foi marcada por desafios. A liderança histórica do projeto, Madalena Torres, lembra que a extinção de programas federais voltados à educação afetou diretamente a continuidade das atividades. “Após o governo Collor extinguir a Fundação Educar e o Projeto Rondon, as instituições ficaram desamparadas. Muitos estudantes deixaram de participar por falta de recursos e incentivo”, recorda.
Mesmo diante das dificuldades, o trabalho continuou, sustentado principalmente por voluntários e pelo compromisso com a comunidade. Para Madalena, a existência do projeto ainda é essencial diante do cenário nacional. “Ainda há cerca de 9 milhões de pessoas não alfabetizadas no Brasil. Muitas estão nas periferias. É um dado alarmante”, afirma.
Ela também lamenta a falta de dados atualizados sobre a alfabetização nas regiões administrativas, como Ceilândia. “Fico entristecida ao elaborar um projeto sem saber o número real de pessoas não alfabetizadas em Ceilândia e nas regiões próximas. O governo deveria divulgar essas informações de forma mais clara”, acrescenta.
É nesse contexto que o Cepafre ganha relevância. “O Cepafre está onde o Estado não chega. Funciona no Sol Nascente, onde estão o trabalhador e as pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade”, afirma o presidente da instituição, Pedro Lacerda.
A atuação, no entanto, enfrenta obstáculos cotidianos. A maior parte dos estudantes é formada por mulheres negras com mais de 50 anos, que acumulam jornadas de trabalho e responsabilidades domésticas. Muitas são mães e avós. “Mesmo quando a turma é perto de casa, elas precisam deixar tudo pronto antes de ir para a aula. Às vezes chegam atrasadas ou precisam faltar por causa das tarefas do dia a dia”, explica Pedro.
Além da alfabetização, o Cepafre forma educadores populares e desenvolve atividades culturais. “A grande beleza do Cepafre é fazer uma atuação freiriana, uma educação libertadora, crítica e coletiva. Só somos o que somos porque existe esse coletivo de voluntários, professores e educadores”, destaca Madalena.
Vidas transformadas
Histórias ajudam a dimensionar o impacto do projeto. A cuidadora de idosos Maria Lucimar Ferreira do Nascimento Carvalho, 59 anos, participou das aulas em 2019. Na época, trabalhava em serviços gerais e não sabia ler nem escrever. “Minha chefe me incentivou a voltar a estudar. Um dia, passei em frente à casa de um professor, peguei o número e liguei. Perguntei quanto seria. Ele disse que não cobraria nada, que só dependia de mim”, conta.
As aulas aconteciam na área da casa do educador, em um ambiente simples. “Ele me deu um caderno e uma caneta e sentamos na mesa. Foi lá que aprendi a ler e escrever”, lembra.
A metodologia valorizava o cotidiano dos alunos. “A gente trabalhava com palavras do dia a dia, como ‘comida’. Quem sabia um pouco mais ajudava o colega. Era muito coletivo”, diz.
Para Maria, a experiência foi decisiva. “Foi uma gratificação enorme. Foram meus primeiros passos para continuar meus estudos.” Hoje, ela cursa fisioterapia. “Estou em uma sala de faculdade. Nunca imaginei isso.” Ela também deixa uma mensagem para quem tem receio de voltar à escola. “Não tenha preconceito. A idade é só um número. Eu me sinto mais jovem depois dessa experiência.”
Em 2025, o Cepafre, em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa, criou ações em que metade dos estudantes participaram de cine-debates semanais sobre temas como pobreza, trabalho e a realidade da cidade. As outras turmas desenvolveram atividades de audiovisual e inclusão digital. “Ao final, cada grupo produziu um curta-metragem com histórias que eles querem contar. Foi um projeto inédito, que une alfabetização, cultura e tecnologia”, explica Pedro.
Terreno garantido
A conquista da sede própria marca um novo capítulo dessa trajetória construída junto com Ceilândia. O espaço, localizado no Setor O, foi cedido pela Superintendência do Patrimônio da União (SPU) por 10 anos, renováveis por mais uma década. Com cerca de 370 metros quadrados, o imóvel permitirá centralizar atividades e ampliar ações culturais.
A decisão de permanecer na cidade foi uma escolha consciente. “Ceilândia está no nosso DNA. Não faria sentido ter uma sede com o nome da cidade em outro lugar. Nosso pensamento e nossa atuação estão voltados para Ceilândia o tempo todo”, afirma Pedro Lacerda.
Durante décadas, o Cepafre funcionou em espaços cedidos, como salas no polo de extensão da UnB. A sede própria simboliza a consolidação de um trabalho que já alfabetizou mais de 16 mil pessoas, principalmente em Ceilândia e no Sol Nascente.
Mesmo com a conquista, o prédio ainda precisa de adaptações. Voluntários trabalham para estruturar cozinha, auditório e salas. A instituição também busca doações da comunidade para equipar o local. Para os integrantes, a nova sede representa mais do que um espaço físico. É o reconhecimento de uma história construída junto com a cidade. Ao completar 55 anos, Ceilândia celebra não apenas seu crescimento urbano, mas também iniciativas que nasceram do esforço coletivo e continuam transformando vidas por meio da educação.
O Cepafre, assim como a própria cidade, segue reafirmando que o conhecimento pode ser instrumento de cidadania, pertencimento e esperança.
Com informações do Correio Braziliense
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