Os governos de Washington e de Teerã sinalizaram nesta quarta-feira (15/4) que estão em andamento conversações indiretas, com o Paquistão no papel de “pombo-correio”, para acertar uma nova rodada de conversações a três para os próximos dias. Depois do fracasso do primeiro encontro, no fim de semana, na capital paquistanesa, os dois lados anunciaram o reforço do bloqueio naval na região do Golfo Pérsico, mas seguem observando, no fundamental, um cessar-fogo de 15 dias com vencimento na próxima quarta-feira. O Irã, em especial, reagiu à pressão dos Estados Unidos sobre suas operações de importação e exportação ameaçando estrangular o tráfego de navios mercantes também pelo Mar Vermelho — no caso, pela ação de seus aliados houthis, milícia xiita que controla metade do território do Iêmen.
Coube ao general Ali Abdollahi Aliabadi, encarregado do principal comando conjunto das forças iranianas, advertir os EUA sobre as consequências do bloqueio anunciado a navios que tenham origem ou destino em portos da República Islâmica. “Se criarem insegurança para nossos navios comerciais ou petroleiros, isso significará um prelúdio para a violação do cessar-fogo”, afirmou o militar. Em resposta, o Irã acena com a interdição completa para o tráfego naval comercial pelo Golfo Pérsico, pelo Estreito de Ormuz e mesmo pelo Mar Vermelho.
Essa última é outra via marítima crucial para a entrada e saída de petróleo e outras mercadorias de todo o Oriente Médio. Em uma de suas extremidades, dá passagem para o Mediterrâneo, através do Canal de Suez. Na outra, para o Mar da Arábia, através do Estreito de Bab el-Mandab. Este, como toda a margem leste do Mar Vermelho, é adjacente à parte do Iêmen controlada pelos houthis, que já atacaram navios mercantes como parte de suas disputas com Israel e Arábia Saudita.
Da parte dos EUA, está em vigor desde segunda-feira (13/4) um “contrabloqueio” que tem como alvo navios com origem ou destino em portos iranianos. Evitando entrar no Golfo Pérsico ou mesmo se aproximar do litoral persa, pelo risco de confronto com as defesas do regime islâmico, o dispositivo naval norte-americano já fez retornarem alguns navios que saíram do golfo pelo Estreito de Ormuz. Embora não haja números precisos e indiscutíveis, a reação do general iraniano sugere que a medida começa a fazer impacto.
Triângulo diplomático
Foi nesse ambiente que desembarcou em Teerã o comandante do Exército paquistanês, o marechal Asim Munir, uma das peças-chaves das negociações para o cessar-fogo. O militar foi recebido no aeroporto pelo chanceler Abbas Araghchi, que confirmou as versões sobre a costura de uma nova rodada de negociações e a extensão da trégua, para que EUA e Irã possam avançar em direção a um acordo de paz que ponha fim ao conflito iniciado com o ataque coordenado americano-israelense à República Islâmica, em 28 de fevereiro. Em missão paralela, o premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, foi a Riad para uma “troca de opiniões sobre a situação” com a Arábia Saudita.
“As conversas estão sendo realizadas”, corroborou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Embora nenhuma das partes tenha confirmado oficialmente uma nova rodada de negociações, a funcionária indicou que o governo norte-americano “está otimista em relação às perspectivas de um acordo” com Teerã. Em um sinal adicional de que ambas as partes apostam na diplomacia, a porta-voz indicou que um novo encontro “muito provavelmente” será realizado novamente em Islamabad, capital do Paquistão.
O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, acredita que EUA e Irã devem retomar as negociações e, eventualmente, prorrogar o cessar-fogo, “porque é do interesse dos dois lados”. “Essas mensagens trocadas são tentativas de controle da narrativa por parte de Donald Trump”, disse o estudioso em entrevista ao Correio. “E o regime iraniano procura não parecer fraco, subordinado às pressões americanas.” Ele acredita que a trégua pode ser estendida tacitamente, sem um ato formal. “Nenhum dos dois lados diz que o cessar-fogo acabou, e portanto fica subentendido que está prorrogado”, arrisca.
Economia em risco
A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, advertiu que a economia mundial poderá entrar em recessão se a guerra no Oriente Médio não for resolvida em breve e os preços do petróleo se mantiverem altos. “Devemos nos preparar para tempos difíceis” se o conflito persistir, disse a jornalistas durante entrevista coletiva, em Washington. “Estamos preocupados com os riscos para a inflação, que eles sejam transmitidos aos preços dos alimentos se as entregas de fertilizantes a um preço razoável não forem retomadas em breve”, explicou.
Georgieva aconselhou os bancos centrais a “esperar para ver” antes de ajustar as taxas de juros, se possível. Segundo a diretora do FMI, esse é um caso em que a população tem expectativas “bem ancoradas” de que a inflação permanecerá sob controle. “Se conseguirmos sair rapidamente da guerra, pode não ser necessário tomar medidas.”
Com informações do Correio Braziliense
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