Com mais de 3,5 mil pessoas em situação de rua, o Distrito Federal convive com uma realidade marcada pela vulnerabilidade e pelo uso abusivo de drogas. Na Asa Sul, uma das regiões mais tradicionais de Brasília, a convivência forçada entre moradores, comerciantes e a população em situação de rua expõe o desequilíbrio entre questões sociais, econômicas e de saúde pública.
Para a comerciante Renata Cabral Peres Espíndola, o problema ultrapassa a dimensão humanitária e atinge diretamente a segurança pública. Sócia de uma loja na 303 Sul desde fevereiro deste ano, ela relata episódios frequentes de consumo de drogas na quadra, além de já ter presenciado ameaças e furtos envolvendo pessoas em situação de rua. Renata atribui parte desses delitos a quem tem histórico criminal.
“Como o Centro Pop é aqui perto, tem muitas pessoas em situação de rua nas redondezas. Muitas delas são reincidentes do crime e ficam nessa situação. Um caso recente foi um homem que entrou na loja, importunou uma cliente e ameaçou funcionários com uma faca. Fiz o boletim de ocorrência, mas os policiais minimizaram o caso”, relata a comerciante, que acompanha o andamento do processo judicial. Segundo ela, o homem possui mais de 20 registros de ameaças, furtos e violência doméstica.
Cássio Rodrigues, que trabalha no comércio da 303 Sul há dois anos, conta que a situação afeta o cotidiano, principalmente devido ao incômodo gerado pela população que dorme na frente do comércio e deixa sujeira no local. “Não podemos expulsá-los, porque eles têm direito de estar onde quiserem, mas a sujeira é incômoda”, conta.
A aposentada Maria José, 80, mora na 302 Sul e conta se sentir insegura. “Não temos condições de sair de casa à noite. As ruas da quadra ficam muito escuras. Não me sinto segura”, afirma.
Uso de entorpecentes
Entre os inúmeros desafios enfrentados por pessoas em situação de rua, o uso de substâncias psicoativas aparece como um dos elementos mais visíveis e estigmatizados. Para Júlia Valladão, assistente social no projeto Formas da Rua e especialista em direitos humanos, o uso abusivo de álcool e drogas pode ser a causa da situação de rua, quanto pode surgir como consequência dela.
“Há pessoas que fazem uso abusivo. Essas pessoas acabam se comprometendo financeiramente, quebrando vínculos familiares e vivenciando ou estando em situação de rua. Mas também há quem já esteja em situação de rua por outros motivos, por vínculos rompidos, questões financeiras que não têm relação com o uso, mas acabam utilizando substâncias psicoativas e álcool, seja por conta do frio, da fome, para aguentar a violência cotidiana. São várias questões diferentes”, explica Júlia.
Políticas públicas
Diante desse quadro, o Governo do Distrito Federal busca articular formas de apoio, como o “Acolhe DF” oferecem suporte. Por meio do acolhimento, prevenção e reinserção social para pessoas que enfrentam o uso indevido de drogas no Distrito Federal, 1.424 atendimentos foram realizados no programa somente em 2024, oferecendo suporte psicossocial a familiares de pessoas que fazem uso abusivo de álcool e drogas.
Além disso, o governo do Distrito Federal, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) mantém 27 equipes de abordagem social, que acompanham e atendem a população em situação de vulnerabilidade com serviços de acolhimento, saúde, assistência e encaminhamento para programas de trabalho e moradia.
No entanto, a doutora em antropologia social pela UnB Izis Morais Lopes dos Reis considera as ações do GDF para essa população incipientes. “Temos somente dois Centros Pop, que são serviços fundamentais para garantir o mínimo de dignidade: banheiros, alimentação, espaço para higiene de roupas. O Plano Piloto, que é o local com maior contingente de pessoas em situação de rua, possui somente um Centro Pop, na Asa Sul”, relata. De acordo com ela, as vagas também estão muito abaixo da demanda.
Saúde mental
A reportagem buscou compreender os diversos fatores que levam uma pessoa à situação de rua. Segundo a especialista, questões relacionadas à saúde mental podem influenciar esse processo. “Os fatores mais comuns são quebra de vínculos familiares, questões financeiras, extrema pobreza, questões de violências prévias, já sofridas, que fazem com que a pessoa encontre na situação de rua uma liberdade que ela não encontrava dentro de casa”, relata.
Esse sofrimento é agravado pelos estigmas que recaem sobre essas pessoas, e, além da invisibilidade, há uma constante negação dos direitos básicos. “Além de serem ativamente invisibilizadas, tanto pelo Estado, como pela sociedade, elas são tratadas como não merecedoras de qualquer direito que seja garantido. […] O maior estigma é serem chamados de ‘vagabundos’, ‘noiados’, não são vistos como seres humanos”, ressalta.
Com informações do Correio Braziliense
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