Muito além da música, das bandeirinhas e das apresentações que encantam o público, o circuito de festas juninas movimenta uma robusta cadeia produtiva no Distrito Federal. Da criação de figurinos à montagem de cenários, passando por serviços de costura, maquiagem, sonorização, iluminação, transporte e alimentação, as quadrilhas juninas impulsionam a economia criativa e geram trabalho e renda para centenas de profissionais.
Uma das mais tradicionais ligas de quadrilha junina da capital, a Federação de Quadrilhas Juninas do Distrito Federal e Entorno (Fequajudfe) reúne, atualmente, 21 grupos filiados, que mobilizam entre 80 e 200 participantes (brincantes, diretores, músicos, técnicos etc.) na preparação dos espetáculos.
“A partir daí, toda a cadeia produtiva do movimento junino começa a ser movimentada”, afirma o presidente da entidade, Robson Eiras. De acordo com ele, o custo para colocar uma quadrilha competitiva na arena pode variar entre R$ 80 mil e R$ 300 mil, a depender do porte do grupo e da complexidade do projeto artístico. Nos bastidores, uma única quadrilha pode mobilizar entre 20 e 60 profissionais especializados, entre cenógrafos, costureiras, figurinista, maquiadores, coreógrafos e diretores de produção.
Para Robson, o impacto vai além dos grupos. “Isso demonstra a força e o crescimento das quadrilhas juninas profissionais do DF no cenário brasileiro”, afirma.
Preparação antecipada
A preparação para entregar esses grandes espetáculos que encantam a capital não é curta. Márcio Nunes, presidente há 15 anos da Liga das Quadrilhas Juninas do Distrito Federal e Entorno (Linqdfe), afirma que, para colocar uma quadrilha na rua, os preparativos começam logo em novembro do ano anterior, antecipando o que será apresentado no período do São João, entre junho e agosto. São 28 grupos filiados à entidade, com uma média de 120 a 140 pessoas por quadrilha.
A união de esforços, segundo Márcio, aponta os efeitos que a cultura popular tem: “Não é só a dança; é transformação de vida”. A quadrilha Arroxa o Nó, filiada à Liga, é bicampeã nacional e também foi vencedora do Circuito Junino do Distrito Federal em 2025.
Outra entidade que também marca presença este ano é a União Junina do Distrito Federal e Entorno, responsável pela organização do Circuito Junino e do Festival Gonzagão de Quadrilhas Juninas. Criado em 2015, o evento reúne 24 grupos, que somam mais de 2 mil dançarinos.
À frente da organização está Hamilton Teixeira, conhecido no meio junino como Tatu. Ele conta que a União Junina busca preservar elementos tradicionais das quadrilhas. “Dançamos a arriúna, fazemos os cinco movimentos obrigatórios e mantemos o casamento na roça”, explica. O presidente também destaca o caráter coletivo da entidade e o envolvimento de antigos integrantes. “Temos muitos voluntários formados pela quadrilha, pessoas que cultivam esse amor desde a quadrilha mirim”, afirma.
Expectativa
A quadrilha Pinga em Mim se reúne no Paranoá às sextas-feiras para ensaiar. Com 13 anos de existência, Diones Mendanha, coreógrafo e presidente do grupo, celebra com emoção o poder e a grandiosidade da cultura popular: “A expectativa é de fazer com que Brasília veja um pouco da cultura e do amor da quadrilha”. O grupo se apresenta na primeira etapa da competição da Liga Independente das Quadrilhas do DF e Entorno e constrói um ensaio colorido, entusiasmado e vibrante. A primeira etapa do competição da Linqdfe ocorre no dia 7 de junho.
Ruth Janiele, 26 anos, é a noiva da quadrilha Pinga em Mim na temporada de 2026. Além de dançarina, Ruth também é uma das diretoras e maquiadoras do grupo, do qual faz parte desde a fundação. Orgulhosa, ela comenta: “Eu não me vejo em outro lugar a não ser esse”. A dançarina interpreta, em uma narrativa de 30 minutos, uma história de superação de preconceitos derivados do machismo.
Cultura
Renan Silva, professor de Economia do Ibmec Brasília, explica que os festejos funcionam como importantes indutores de atividade econômica em um período do ano em que a demanda por serviços culturais costuma ser menor. “As festas juninas no DF funcionam como grandes ativadoras da economia criativa. Elas movimentam cadeias produtivas que dependem de criatividade, mão de obra artística e produção manual, gerando renda rápida e distribuída pela comunidade”, afirma.
O impacto econômico também pode ser medido pelo chamado efeito multiplicador. De acordo com o professor, estudos sobre economia cultural indicam que cada real investido em eventos desse tipo pode gerar entre R$ 1,80 e R$ 4 em retorno para a economia local. “A tendência é de que esse multiplicador fique próximo ao topo dessa faixa”, explica. Isso ocorre porque os gastos realizados com figurinos, estrutura e apresentações se espalham rapidamente por diversos segmentos da economia.
Em nota, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF) afirmou que as festas juninas têm “impacto direto na economia criativa e no fortalecimento do PIB local, ao movimentarem setores como turismo, hotelaria, gastronomia, transporte, comércio e serviços”. Segundo a pasta, além de promoverem o acesso à cultura e a convivência social, os festejos também geram emprego e renda e ampliam a circulação de recursos em diversas regiões administrativas do Distrito Federal.
Ainda de acordo com a Secretaria, não há previsão orçamentária para o lançamento do edital de apoio aos eventos deste ano. Em relação ao público esperado, a expectativa do governo é de que cerca de 20 mil pessoas por semana participem dos festejos em cada região administrativa durante o período junino.
Com informações da Agência Brasília
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