PF aperta cerco à rede de Vorcaro e amplia mapa de políticos sob suspeita

Relatório da PF aponta repasses milionários, viagens de luxo, hospedagens, ingressos e articulações políticas em favor do Banco Master

As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o esquema financeiro envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, ganharam novos desdobramentos nesta semana ao revelar a extensão das articulações do banqueiro nos bastidores da política brasileira.

O relatório da Operação Compliance Zero, tornado público na terça-feira (16/6) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, aponta que Vorcaro custeou viagens internacionais, hospedagens de luxo e outras vantagens para parlamentares influentes do Congresso Nacional.

Entre os citados estão o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito por Vorcaro em mensagens privadas como um “grande amigo de vida”, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Motta não é investigado pela Polícia Federal. Já Ciro Nogueira figura entre os alvos da apuração e foi alvo de mandado de busca e apreensão autorizado pelo STF em maio.

Segundo os investigadores, enquanto atuava no Senado em pautas de interesse do Banco Master, o parlamentar do PP recebia benefícios financeiros e outras vantagens custeadas por Vorcaro.

As investigações também alcançaram o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). De acordo com a PF, o senador teria recebido vantagens indevidas por intermédio do gestor Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, para defender interesses do banco no Congresso Nacional. Na quinta-feira (18/6), Wagner foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo Supremo.

“Grande amigo de vida”

Ciro Nogueira é apontado pela Polícia Federal como o principal destinatário de repasses financeiros indevidos atribuídos a Daniel Vorcaro. Segundo os investigadores, os pagamentos mensais ao senador, descritos como “mesadas”, podiam ultrapassar R$ 500 mil, somando cerca de R$ 6 milhões entre 2024 e 2025.

Além dos repasses em dinheiro, o presidente nacional do Progressistas teria recebido outras vantagens, como participação societária em empresas e o custeio de viagens internacionais, incluindo voos em jatos particulares, hospedagens em hotéis de luxo e despesas com eventos e restaurantes de alto padrão.

Em contrapartida, afirma a PF, Ciro atuava no Senado em pautas de interesse do Banco Master e de seu controlador.

Como exemplo, os investigadores citam a apresentação da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, conhecida como Emenda Master, em agosto de 2024. Segundo a corporação, a proposta foi integralmente redigida pela assessoria jurídica do banco.


O que é a Emenda Master

  • A Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 previa a ampliação do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante em caso de quebra de instituições financeira.
  • A medida beneficiaria o Master, que sustentava seu modelo de negócios na captação agressiva de recursos protegidos pelo FGC, direcionando esses valores para investimentos de maior risco.
  • A emenda proposta por Ciro Nogueira ampliaria significativamente a capacidade de captação da instituição ao elevar o limite de cobertura do FGC para R$ 1 milhão.
  • Na avaliação de especialistas, a medida daria fôlego ao modelo de negócios do Master, permitindo a entrada de mais recursos de investidores.
  • Em contrapartida, a mudança poderia incentivar o chamado “risco moral”, em que instituições financeiras assumem estratégias mais arriscadas porque eventuais prejuízos seriam cobertos pelo FGC, enquanto os ganhos permaneceriam com os bancos.
  • Em mensagens, Vorcaro celebrou a emenda e a classificou como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios do Master.

A relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, entretanto, não se limitava aos “negócios”. Em mensagens trocadas com a então namorada, em maio de 2024, obtidas pela PF, o banqueiro demonstra entusiasmo ao falar sobre o senador.

“Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, escreveu Vorcaro ao comentar que pretendia levá-la para conhecer o parlamentar.

Senador Ciro Nogueira e banqueiro Daniel Vorcaro

As conversas também mostram o empresário comentando planos de comparecer ao casamento de Duda Nogueira, filha do senador, acompanhado da namorada.

A defesa do senador Ciro Nogueira foi procurada pelo Metrópoles, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

Viagens internacionais

O relatório da Operação Compliance Zero aponta que Daniel Vorcaro custeou, de forma sistemática, viagens e despesas pessoais do senador Ciro Nogueira entre 2024 e 2025, com uso frequente de aeronaves particulares e serviços de alto padrão.

Entre os destinos citados pela investigação estão Paris, Nova York, Portugal e Courchevel.

Um dos episódios destacados é a viagem a Lisboa, em junho de 2024, quando o senador teria dividido um jato particular do ex-banqueiro com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Segundo a Polícia Federal, mensagens de WhatsApp encontradas no celular de Vorcaro indicam ainda que o banqueiro providenciou reservas de hotel na capital portuguesa para “Ciro e Hugo”.

De acordo com a PF,  cinco diárias custaram cerca de 3 mil euros — aproximadamente R$ 18 mil — e uma fatura localizada no e-mail do banqueiro confirma o pagamento. O documento indica a contratação de “2x Jr. Suítes”, atribuídas a Ciro Nogueira e Hugo Motta.

“Isso reforça a identidade dos beneficiários da despesa”, observou a corporação.

Após a divulgação do relatório, Hugo Motta afirmou ter “muita tranquilidade” em relação às citações no documento e disse que suas relações são “corretas e institucionais”. Segundo ele, o encontro ocorreu em evento corporativo e jurídico realizado em Lisboa, já no exercício da presidência da Câmara.

O parlamentar acrescentou que não tinha conhecimento de qualquer irregularidade envolvendo o ex-banqueiro.

As datas citadas pela investigação coincidem com a 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, evento organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), ligado ao ministro do STF Gilmar Mendes.

Empréstimo para empresa de cunhada

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro indicam que a relação entre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ex-banqueiro não se restringiu à viagem a Lisboa.

De acordo com as investigações, Motta teria solicitado a Vorcaro a liberação de um empréstimo no Banco Master destinado a uma empresa ligada à sua cunhada, Bianca Araújo Medeiros. As conversas sobre a operação teriam ocorrido em março de 2024, antes de o deputado assumir o comando da Câmara.

O recurso teria sido utilizado na compra de um terreno em João Pessoa (PB), área onde está previsto o desenvolvimento de um novo bairro.

A informação foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Procurado, Hugo Motta afirmou que a operação seguiu os trâmites regulares e destacou que o banco estava autorizado a funcionar no período da contratação. Ele também disse que o pedido partiu da cunhada, que teria buscado o financiamento de forma formal junto à instituição.

“Quando você precisa de um empréstimo, você procura quem? O banco, não é? E a minha cunhada, que representa os negócios do meu sogro, procurou um banco. O banco estava legal à época? Podia operar? Ela tinha um crédito para poder fazer? Então foi uma operação legal. Não tem ilegalidade de nada nisso”, disse o presidente da Câmara.

Apartamento e show da Taylor Swift

Na quinta-feira (18/6), o escândalo envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, se aproximou do núcleo político ligado ao governo federal.

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal sob suspeita de ter recebido vantagens indevidas, por meio de pessoas ligadas ao ex-banqueiro, para atuar em defesa de interesses do banco no Congresso — incluindo o apoio à Emenda Master.

Na mesma operação, também foi alvo o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, que chegou a ser preso na primeira fase da investigação, em novembro de 2025, e posteriormente liberado com uso de tornozeleira eletrônica. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo a Polícia Federal, Augusto atuava como um canal recorrente de interlocução com Jaques Wagner, descrito como figura relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado.

Os investigadores registram o envio frequente de informações sobre rating, estrutura acionária, Will Bank, PEC nº 65/2023, operação BRB/Master, requerimentos no Senado e a CPI do Master a Wagner.

As primeiras vantagens atribuídas ao senador incluem viagens em aeronaves particulares vinculadas a Augusto Lima e ao Banco Master, ainda em 2023.

Em junho do mesmo ano, o senador teria recebido ingressos para um show da cantora Taylor Swift, em Los Angeles (EUA), conforme noticiado pelo Metrópoles por meio da coluna de Mirelle Pinheiro. De acordo com a investigação, Augusto teria orientado sua secretária a adquirir os bilhetes, pagos pela empresa Reag Investimentos, ao custo de mais de R$ 63 mil.

Outro ponto levantado pela PF envolve a negociação de um apartamento de luxo em um empreendimento em construção em Salvador. Em novembro de 2024, Wagner teria encaminhado a Augusto Lima o contato do gerente da construtora, informando a unidade e o valor de R$ 2,45 milhões.

No dia seguinte, o senador teria enviado material de divulgação do empreendimento, enquanto Augusto repassou dados do imóvel a Valério Marega Júnior, operador financeiro ligado ao caso Master.

Meses depois, em maio de 2025, Wagner teria solicitado informações complementares sobre a titularidade do imóvel para viabilizar a emissão de documentos. Na sequência, o nome de David Lopes Monteiro, suposto operador ligado a Vorcaro, teria sido encaminhado como intermediário no processo.

A Polícia Federal ainda identificou repasses que seriam destinados ao senador no valor total de R$ 3,5 milhões. As transferências saíram de uma empresa dirigida por Andrea Lima Novaes, prima de Augusto Lima, para a BN Financeira, empresa ligada ao núcleo familiar de Jaques Wagner.

Em nota, a defesa de Wagner negou que o senador tenha atuado em favor do Banco Master e reforçou que ele não é réu e nem foi formalmente denunciado por envolvimento com o caso.

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