Funeral de Isaac Vilhena retrata uma dor que virou luta

O corpo de Isaac Augusto de Brito Vilhena de Morais, de 16 anos, foi sepultado no fim da tarde de ontem, sob forte comoção, no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul. O adolescente, aluno do Colégio Militar de Brasília, faleceu na noite de sexta-feira (17), após um ato infracional análogo ao crime de latrocínio, ocorrido Praça Maria Cláudia Del’Isola, entre as quadras 112 e 113 Sul.

cerimônia de despedida, iniciada às 14h, reuniu uma multidão. A Capela 1, onde foi realizado o velório, não comportou a quantidade de pessoas que compareceram para prestar as últimas homenagens. Muitos acompanharam do lado de fora, aguardando a saída do cortejo.

A urna de Isaac estava cercada por mais de 30 coroas de flores, principalmente rosas e crisântemos brancos e salmões. A quantidade de arranjos com mensagens de amigos e familiares não coube no veículo sepulcral, que fez o translado entre a capela e o local do sepultamento.

Na cerimônia, o som das vozes que se uniam no Pai Nosso e na Ave Maria se misturava às lágrimas e soluços. Os cânticos “Segura na mão de Deus” e “Nossa Senhora” foram entoados em coro, conduzidos por membros da Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, comunidade que Isaac frequentava pelo menos duas vezes por semana com a mãe, Jane Vilhena.

A despedida foi marcada por momentos de intensa emoção. A mãe, Jane, visivelmente abalada, manteve-se a maior parte do tempo de mãos dadas com familiares próximos. Os olhos marejados e o rosto cansado traduziam a exaustão do luto. Ainda assim, ela encontrou forças para agradecer o carinho recebido e recordar o menino carinhoso, sensato e determinado que criou.

“Obrigada por estarem aqui. Obrigada por amarem o meu filho. Isaac era luz. E vai continuar sendo. Ele me ensinou a ter fé até nos dias mais difíceis”, disse, com a voz embargada. Ela ainda recordou as vezes em que precisou “dar uma bronca” no filho.

O médico Lucas Vilhena, pai do adolescente, lembrou o momento em que soube do ocorrido. Ele e a esposa estavam na missa quando receberam a notícia de que o filho havia sido atingido. “Achei que fosse mais uma travessura. Mas, quando cheguei, vi meu filho sendo reanimado. A dor é eterna, mas com a graça de Deus vamos superar tudo isso”, afirmou ao cobrar que o caso continue sendo investigado.

Lucas agradeceu à equipe que atendeu o adolescente, aos amigos que os acolheram nos primeiros momentos e as centenas de pessoas que enviaram mensagens de apoio e carinho à família. “Foi um privilégio participar da vida do Isaac”, completou.

Um menino de fé e sonhos

Isaac estava no último ano do ensino médio e se preparava para se formar no curso de inglês. Segundo a família, ele tinha fluência quase completa na língua e sonhava em trabalhar com tecnologia e segurança da informação. Inteligente e curioso, costumava dizer que queria seguir os passos do irmão mais velho, Edson Avelino, de 28 anos.

O padre Maurício Coppi, que conduziu a bênção final ao garoto no momento da tragédia, recordou o carinho que o adolescente tinha pela igreja e pelas atividades comunitárias. “A família tem a fé muito fortalecida em Deus. Agora cabe a nós sermos instrumentos do Consolador”, disse o sacerdote, pedindo uma oração coletiva.

“A serenidade no olhar dele é o que conforta nosso coração. O Isaac era um menino bom, um menino de Deus, filho de Nossa Senhora. Não entendemos os mistérios de Deus, mas estamos aqui por solidariedade à família, que precisa da nossa força neste momento”, disse Terezinha, representante da paróquia.

Apoio dos colegas e da comunidade

Com as fardas cuidadosamente engomadas, os colegas do Colégio Militar de Brasília formaram uma espécie de guarda simbólica que acompanhou o cortejo. Abraçados, sustentavam uns aos outros entre lágrimas. Alguns seguravam terços nas mãos, em um gesto de fé e respeito. Professores e diretores da instituição também participaram da cerimônia, descrevendo Isaac como um estudante disciplinado e querido.

O clima de solidariedade era visível. Vizinhos e amigos se revezavam em gestos de amparo à família. Crianças e adolescentes do bairro, alguns da mesma idade que Isaac, carregavam rosas brancas nas mãos e observavam em silêncio o momento em que o cortejo deixou a capela em direção ao campo de sepultamento.

O sol já começava a se pôr quando o caixão foi levado ao local do sepultamento. A multidão acompanhou o cortejo até o fim, em uma corrente de fé e comoção. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelos aplausos que encerraram a cerimônia e pelo choro inconsolável dos pais, irmão e amigos, que não conseguiram conter a emoção do adeus. Desolada, a ex-namorada de Isaac, Flávia Rolon, 16, precisou ser acolhida pela mãe neste momento.

Por fim, o sepultamento foi marcado por uma cena de forte simbolismo. No momento em que a urna desceu, os colegas do Colégio Militar de Brasília entoaram, em uníssono, o grito de guerra da instituição, em uma homenagem comovente que ecoou pelo cemitério. Logo depois, balões brancos de gás hélio foram soltos no céu por amigos e familiares, um gesto silencioso de despedida. Enquanto os balões subiam, os aplausos ecoaram, mas as vozes se calaram. Em seguida, o silêncio tomou conta do Campo da Esperança, encerrando o adeus a Isaac com a leveza e a pureza que marcaram sua breve passagem pela vida.

“Este lugar era tudo para ele”

No domingo de manhã, o Parque Maria Cláudia Del’Isola, na 112/113 Sul, voltou a ser cenário de comoção. Familiares, amigos e moradores se reuniram, todos de branco, para prestar uma homenagem a Isaac Vilhena. O encontro, realizado às 10h, foi organizado por Cristina Del’Isola, fundadora do Movimento Maria Cláudia pela Paz, com o propósito de “emanar luz ao jovem e transmitir amor solidário à família”.

Cristina é mãe de Maria Cláudia Del’Isola, jovem assassinada em 2004, aos 19 anos, e cujo nome batiza o parque. Após o crime, ela transformou o luto em ação e criou o movimento, que hoje apoia vítimas de violência e promove a cultura de paz. “Não existem palavras no dicionário que expressem o que sente uma mãe e um pai em um momento como esse”, afirmou Cristina. “Esse apoio é muito importante em um momento assim.”

A homenagem começou com falas de familiares e vizinhos de Isaac. A mãe do estudante, Jane Vilhena, agradeceu o apoio e relembrou momentos marcantes com o filho. “Muito obrigada por estarem aqui. Amem seus filhos, ainda que de forma rígida”, disse, com a voz embargada. “Ele era grandão e vinha para a minha cama”, lembrou ela.

De frente para o local onde foram prestados os primeiros socorros, que estava repleto de flores e cartazes, Jane destacou o amor que o filho tinha pelo parque, que foi revitalizado e inaugurado em 2022. “Desde que o parque foi reinaugurado, ele não saía daqui. Este lugar era tudo para ele.”

O pai, Lucas Vilhena, fez um dos discursos mais emocionados. Ele contou que entrou na vida de Isaac quando o menino tinha apenas 3 anos e meio. “Quando ele começou a me chamar de pai, ele se tornou meu filho de verdade. Tem meu nome e meu sobrenome”, relatou. Lucas lembrou ainda da filha mais velha, Ana Júlia, a quem Isaac chamava de irmã. “Ele sempre sonhou em ter uma irmã e a chamava assim, nunca pelo nome”, disse. 

O pai compartilhou algo que lhe falaram e, por ser cristão, recebeu com carinho. “Se ele foi embora, aos 16 anos, foi porque Deus sabia que ele estava preparado”, citou.  “Agradeço todas as manifestações e àqueles que o socorreram naquele momento”, disse, com uma menção especial aos profissionais do Hospital de Base, que prestaram os atendimentos finais. 

Em tom de desabafo, o pai também fez um apelo por justiça. “Que se repensem as penas para esses atos, que duram dois ou três anos, enquanto a nossa será eterna”, declarou, aplaudido pelos presentes.

Depois dos discursos da família, o espaço de fala foi aberto para que os presentes pudessem prestar homenagens. Moradores da Asa Sul falaram sobre o impacto da tragédia e pediram mais segurança. 

Em seguida, começaram as orações. De mãos dadas, os presentes rezaram o Pai-Nosso e a Ave-Maria, encerrando com o Canto da Oração pela Paz. Entre os amigos e colegas de escola, a emoção era visível. Valeska Valente, mãe de um estudante do Colégio Militar de Brasília, onde Isaac estudava, fez um apelo aos jovens: “Queria que vocês lembrassem dos momentos felizes que compartilharam com o Vilhena. Falei para o meu filho: guarde a lembrança do seu amigo, isso é o mais importante. Toda vez que tiver vontade de chorar, ore por ele e pela família.”

Atendendo ao pedido de Jane, os colegas de Isaac entoaram o Hino do Colégio Militar de Brasília. Logo após esse momento entre os estudantes, os presentes fizeram uma caminhada em silêncio pelos caminhos arborizados do local e soltaram balões brancos, que subiram lentamente ao céu em homenagem ao adolescente.

Lembranças

Ao Correio, o irmão mais velho de Isaac agradeceu o apoio recebido e pediu orações pela mãe. Entre o choro contido e a fé, ele descreveu o adolescente como um jovem maduro e consciente dos próprios sonhos. “Meu irmão tinha apenas 16 anos, mas era um rapaz muito maduro. Maduro em seus objetivos, maduro em aceitar o que precisava ser melhorado. Não vai trazer ele de volta, mas dá o mínimo conforto saber que ele era querido e cumpriu seu papel”, afirmou Edson. “Eu peço muita oração, principalmente pra minha mãe, nesse momento tão difícil. Que Deus nos dê força pra dar todo o suporte a ela, que é quem mais vai precisar da gente.”

Entre os colegas do Colégio Militar de Brasília, as lembranças se misturavam à saudade. Luana Vilacinah, 17, contou que conheceu Isaac há pouco tempo, mas que a amizade entre os dois foi imediata. “O Isaac era um menino muito feliz. Onde passava, deixava alegria. Ele sempre esteve do meu lado, me ajudava com tudo que eu precisava. Era gentil, participativo, humilde. Me dói muito saber que o último momento que ele quis passar comigo não aconteceu, mas sei que ele está nos braços de Deus, sendo acolhido como o menino bom que sempre foi”, desabafou. 

Outro amigo, Luiz Felipe, conhecido como Sampaio entre os colegas, definiu Isaac como um “irmão de peito”. “A gente se conheceu em 2021, no sétimo ano, e desde então nossa amizade floresceu. Ele sempre falava dos sonhos dele. Queria ser técnico de TI junto com o irmão, ter um carro esportivo, viajar o mundo. Quando foi pra Los Angeles, me trouxe um broche. Quando foi pra Madri, trouxe um chaveiro. Mesmo longe, ele sempre lembrava de mim. É inacreditável o que aconteceu. Foi uma injustiça”, exclamou o jovem. 

A ex-namorada, Flávia Rolon, 16, também prestou homenagem com palavras que comoveram os presentes. “Eu tive o privilégio de fazer parte da família dele e conhecer a pessoa incrível que ele era. Nosso relacionamento terminou porque éramos muito jovens, mas o meu amor por ele nunca acabou. Ele era a luz em nossas vidas. Quem o conheceu sabe do que eu estou falando. Ele era amor, ele era luz”.

Após a morte de Isaac, Cristina Del’Isola recebeu diversas ligações de moradores e decidiu se reunir com eles para pensar em uma forma de acolher a família e prestar homenagem ao jovem. “Esse tipo de gesto foi essencial para mim quando vivi a minha perda. Nosso objetivo é oferecer um espaço de reflexão sobre a vida e, acima de tudo, de fortalecimento para os familiares, para que saibam que não estão sozinhos e que toda a comunidade está unida em oração e solidariedade”, disse a mãe de Maria Cláudia ao Correio

Com informações do Correio Braziliense

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