Atleta surda do DF conquista três medalhas no Equador aos 56 anos

Atleta surda Daniela Francescutti aparece em registros de competições de natação e atividades esportivas.
Crédito das fotos: Arquivo pessoal

TaguaCei – Aos 56 anos, a servidora pública e atleta surda Daniela Francescutti realizou um sonho que começou ainda na infância ao conquistar três medalhas representando o Brasil no Open Panamericano Desportivo Absoluto de Surdos 2026, realizado em agosto, em Guayaquil, no Equador. A nadadora, que mora no Distrito Federal há mais de 30 anos, conquistou duas medalhas de bronze e uma de prata. A trajetória de Daniela reforça a importância do esporte para pessoas com deficiência.

Daniela disputou três categorias na competição internacional. Ela ficou com o bronze nos 100 metros livre e no revezamento 4×100 metros livre misto. Nos 200 metros livre, conquistou a medalha de prata.

Nascida no Rio de Janeiro, a atleta considera os resultados no Equador especialmente importantes por representar o Brasil e o Distrito Federal, onde construiu parte de sua trajetória pessoal e esportiva.

Sonho de menina

A relação de Daniela com a natação começou ainda na infância. Ela conta que teve os primeiros contatos com o esporte nos Estados Unidos, em 1972, quando acompanhou a mãe durante o período em que o pai cursava mestrado e doutorado no país.

A inspiração também veio da família. A avó paterna, Zaíra Martins, praticava saltos ornamentais.

“Minha avó paterna Zaíra Martins era atleta de saltos ornamentais. Então água está no sangue”, contou Daniela.

Aos poucos, a natação deixou de ser apenas uma atividade esportiva e passou a ocupar espaço importante na vida da atleta. Em 1982, ela participou do 2º Suderjogos da Coca-Cola Refresco S/A e conquistou uma medalha de ouro nos 50 metros peito.

“É um sonho de menina”, afirmou.

Retorno às competições

Depois de um período afastada das disputas, Daniela voltou às piscinas em 2007, quando participou do Campeonato Brasileiro de Masters de Natação, realizado em Brasília. Na ocasião, terminou em sexto lugar na categoria 35+ nos 1.500 metros livre.

Apesar da colocação, ela considera aquela competição um marco em sua trajetória.

“Retomei às competições em 2007, encarando logo 1.500 metros em um Brasileiro de Masters de Natação que foi realizado aqui em Brasília. Na ocasião, fiquei em sexto lugar na faixa 35 mais. Mas, para mim, foi meu ouro”, relembrou.

Desde então, Daniela acumulou mais de duas décadas de participação em competições e conquistou dois títulos brasileiros de surdos, além de cinco vice-campeonatos.

Federação de surdos

Em 2021, a Federação Brasiliense Desportiva dos Surdos (FBDS) entrou em contato com Daniela para convidá-la a se federar e representar a entidade em competições.

A princípio, ela demonstrou preocupação por não dominar a Língua Brasileira de Sinais (Libras). A resposta recebida pela federação, porém, foi decisiva para que aceitasse o convite.

“Eu falei: gente, não falo Libras e, na época, estava com 51 anos. A Federação falou: o que nos importa é que você comprove a perda auditiva, a idade não interessa, assim como aceitamos e valorizamos a diversidade surda, surdos oralizados, sinalizantes e bilíngues. Essa frase me conquistou na hora”, relatou.

A inclusão de pessoas com deficiência no esporte tem sido ampliada no Distrito Federal. O programa Bolsa Atleta para pessoas com deficiência passou a contemplar modalidades específicas para atletas surdos, incluindo a natação.

Daniela também passou a praticar outras modalidades ao lado da filha, Natalia. Neste ano, as duas começaram a participar do basquete de surdos e devem representar a Associação de Surdos do Gama (ASGDF) em uma competição prevista para novembro, em Blumenau.

Acessibilidade nas provas

Além dos resultados esportivos, Daniela chama atenção para as dificuldades enfrentadas por atletas surdos durante as competições.

Um dos principais obstáculos está no momento da largada. Como não consegue ouvir o sinal sonoro, ela já começou algumas provas depois dos demais competidores.

Segundo a atleta, a arbitragem passou a adotar uma medida que melhorou a situação: o movimento de abaixar a mão passou a ocorrer simultaneamente ao apito.

“Aos poucos, percebi a necessidade de uma melhor relação com a arbitragem, porque saía sempre depois dos atletas. Hoje em dia, a arbitragem abaixa a mão junto com o apito. Assim, tenho conseguido sair junto com todos”, explicou.

Para Daniela, entretanto, ainda há espaço para ampliar a acessibilidade nas piscinas.

Entre as alternativas defendidas por ela está a instalação de equipamentos visuais que possam substituir ou complementar os sinais sonoros utilizados nas provas.

“O ideal é ter o semáforo de largada, mas sabemos que certas tecnologias ainda são caras. E, no lugar do sino, que não ouvimos, o ideal seria o uso de uma placa vermelha com o desenho de um sino, presa a um mastro, que fosse mergulhada na água quando estivesse faltando a última volta de uma prova longa, como os 400, 800 e 1.500 metros livre”, explicou.

A atleta também observa que a solução poderia beneficiar outros competidores, já que nadadores ouvintes relatam dificuldades para identificar de qual raia vem o sinal sonoro durante provas longas.

A trajetória de Daniela se soma a outras experiências de atletas com deficiência do Distrito Federal, como a de Mizael Castro, convocado para representar o Brasil em uma competição internacional de goalball.

O avanço da participação esportiva também passa pela oferta de espaços e atividades adaptadas. Os Centros Olímpicos e Paralímpicos do DF oferecem modalidades esportivas para pessoas com deficiência, incluindo natação, atletismo e outras atividades.

Para Daniela, a conquista das três medalhas no Equador representa não apenas mais um capítulo de sua carreira, mas a realização de um sonho cultivado desde a infância.

Fonte: Jornal de Brasília

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