Na ONU, Lula critica ingerência externa e afirma: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

TaguaCei — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (22), durante a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que o Brasil não aceitará interferências externas em suas decisões políticas. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou, ao defender relações internacionais baseadas em soberania e cooperação.

Lula também criticou a divisão do mundo em áreas de influência, mencionou interferências estrangeiras em processos eleitorais e defendeu maior integração entre os países da América Latina. O discurso ocorreu às vésperas das eleições brasileiras de 2026 e incluiu referências à democracia, à segurança, aos conflitos internacionais, à economia digital e às apostas.

O presidente afirmou que o atual momento é um dos mais críticos para a diplomacia internacional nas últimas duas décadas e cobrou mudanças no funcionamento do Conselho de Segurança da ONU.

Críticas ao Conselho de Segurança

Lula afirmou que a organização enfrenta uma crise de credibilidade e criticou o que classificou como imobilismo do Conselho de Segurança.

“Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas”, disse.

Segundo o presidente, a estrutura atual do Conselho de Segurança não tem conseguido responder adequadamente aos conflitos internacionais. Lula defendeu uma reforma do sistema multilateral e maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais.

A defesa do multilateralismo esteve entre os principais pontos do pronunciamento.

Soberania e integração da América Latina

Ao falar sobre a América Latina, Lula afirmou que diferenças ideológicas não devem impedir a aproximação entre os países da região.

O presidente também criticou o que chamou de “ingerência externa em processos eleitorais” e afirmou que a divisão do mundo em zonas de influência e as disputas por recursos estratégicos são práticas que não correspondem aos desafios atuais.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”, afirmou.

Lula também defendeu a autodeterminação dos países latino-americanos e mencionou a situação da Venezuela. O presidente afirmou que cabe ao povo venezuelano decidir seu próprio destino.

Em relação a Cuba, criticou o bloqueio econômico mantido pelos Estados Unidos e classificou a medida como uma forma de punição coletiva.

A questão da soberania nacional também foi relacionada por Lula à capacidade dos países de estabelecerem políticas próprias diante de interesses econômicos e estratégicos externos.

Lula defende autonomia brasileira nas eleições

Com as eleições brasileiras previstas para outubro, Lula afirmou que o país terá um processo eleitoral transparente e competitivo.

“Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, declarou.

O presidente também afirmou que alguns candidatos poderiam se associar a interesses estrangeiros que, segundo ele, seriam contrários ao país.

“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, disse.

A eleição de 2026 terá primeiro turno em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro, conforme o calendário eleitoral divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Combate ao crime organizado

Lula também dedicou parte do discurso ao combate ao crime organizado no Brasil.

O presidente afirmou que o governo reconhece a gravidade do problema e defendeu cooperação internacional para combater o fluxo de armas e dinheiro utilizado por organizações criminosas.

“O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Lula rejeitou a possibilidade de que potências estrangeiras assumam diretamente a responsabilidade pela segurança das fronteiras brasileiras.

“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, declarou.

Segundo o presidente, o Brasil apresentou ao governo dos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater organizações criminosas e mecanismos de lavagem de dinheiro.

Guerra e conflito no Oriente Médio

Lula também voltou a defender soluções diplomáticas para conflitos internacionais e criticou o uso da força militar.

“A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”, afirmou.

Ao abordar o conflito no Oriente Médio, o presidente criticou as ações do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza e afirmou que gerações de palestinos carregarão as consequências da guerra.

Lula utilizou a expressão “genocídio” para se referir às ações do governo israelense em Gaza. A declaração faz parte da posição já manifestada pelo governo brasileiro sobre o conflito.

O tema das relações internacionais e dos conflitos também tem aparecido no debate político brasileiro, inclusive nas discussões sobre soberania e política externa.

Críticas às grandes empresas de tecnologia

Na área tecnológica, Lula criticou o poder concentrado nas grandes empresas do setor e defendeu regras para o desenvolvimento e utilização de novas tecnologias.

O presidente afirmou que existe o risco de uma espécie de “neoliberalismo digital” sem regras e transparência.

Segundo Lula, empresas de tecnologia conhecem os riscos associados a seus produtos, mas parte dos custos e consequências acaba sendo transferida para as famílias.

A declaração ocorre em meio ao debate internacional sobre inteligência artificial, plataformas digitais, proteção de dados e regulação das grandes empresas de tecnologia.

Defesa do Pix e críticas às bets

Lula também citou o Pix durante o discurso e afirmou que o Brasil não pretende aceitar pressões de empresas multinacionais para alterar o modelo de funcionamento do sistema de pagamentos.

“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, declarou.

O presidente também criticou o setor de apostas esportivas, conhecido como bets.

Lula afirmou que a indústria de apostas transforma o vício em fonte de lucro e pode contribuir para o endividamento e problemas financeiros das famílias.

O governo federal vem adotando medidas de regulação das bets, incluindo regras para publicidade e mecanismos de controle sobre empresas que operam no mercado brasileiro.

Ao concluir o discurso, Lula voltou a defender a cooperação internacional e a solução diplomática de conflitos. A fala na Assembleia Geral marcou a abertura da 81ª sessão do principal órgão deliberativo das Nações Unidas.

Fonte: Vermelho

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