Após ter conquistado a conciliação da cúpula das Forças Armadas com o presidente Lula (PT) no primeiro ano de governo, o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, 76, definiu como missão de 2024 lutar por mais dinheiro para a caserna.
Sem conseguir grandes avanços no Congresso, acumulou derrotas com seguidos congelamentos no orçamento e a inclusão das Forças no pacote de corte de gastos proposto pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda). Agora, pode deixar a pasta, a pedido dele mesmo, com militares insatisfeitos com o aperto nas contas.
Aliados do ministro da Defesa citam, sob reserva, um momento que marcou Mucio naquele que pode ter sido seu último ano completo no governo Lula.
Ele recebia cumprimentos de empresários em 8 de outubro, em evento da CNI (Confederação Nacional da Indústria), quando teve o discurso elogiado por um dos principais representantes da Base Industrial de Defesa do país.
No salão ainda cheio, Mucio respondeu que ensaiava o sermão havia semanas, ciente de que petistas ficariam desgostosos com o palavrório.
“A questão diplomática interfere na Defesa. Houve agora uma concorrência, uma licitação. Venceram os judeus, o povo de Israel, mas por questões da guerra, o Hamas, os grupos políticos, nós estamos com essa licitação pronta, mas por questões ideológicas não podemos aprovar”, discursou.
O ministro se referia ao veto de Lula ao contrato entre o Exército e a empresa Elbit Systems, de Israel, para a compra de 36 obuseiros, armamento semelhante a um canhão de longo alcance e precisão usado pela artilharia.
O pleito envolvia atritos com setores do governo e do PT –grupos que apelidaram Mucio de “general sem farda”. No caso dos obuseiros israelenses, a disputa pública acabou revelando contrariedades entre Mucio e o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Celso Amorim.
O ministro da Defesa, porém, não esconde que gosta de ser visto como o preposto dos militares no governo. Diz que as críticas aumentam sua credibilidade junto às Forças.
Com a missão de 2024, Mucio foi à Câmara dos Deputados, em abril, pedir aos congressistas a aprovação de uma PEC que define um percentual mínimo do PIB (Produto Interno Bruto) como orçamento de Defesa.
“Nós não precisamos de 2% como os países da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. A Colômbia, um país pequeno, tem 3,6% do PIB. Nossos vizinhos estão com um orçamento maior que o Brasil. Mas diante das nossas prioridades, nós não estamos investindo em uma defesa, que é a guardiã do nosso território, nossa soberania”, disse o ministro ao lado dos comandantes das Forças Armadas, que entraram no primeiro ano da gestão Lula com verbas equivalentes a pouco acima de 1% do PIB.
O orçamento do Ministério da Defesa para 2024 está em R$ 128,1 bilhões, de acordo com o Portal da Transparência do governo federal. Trata-se de um avanço nominal de 4,5% em relação a 2022, último ano da gestão Bolsonaro, e de 2,8% contra um ano antes.
As discussões sobre o fim de alguns benefícios das carreiras das armas, como a fixação de uma idade mínima para aposentadoria, foram a principal dor de cabeça para Mucio neste ano.
Segundo relatos feitos à Folha, Haddad pediu a inclusão dos militares no pacote de corte de gastos também como um símbolo. A promessa era de que as demais carreiras do funcionalismo público seriam as próximas a entrar no plano de contenção de despesas –o que não ocorreu.
Haddad defendia que a idade mínima de aposentadoria dos militares, fixada em 55 anos, entrasse em vigor num prazo de até dois anos. Os chefes militares pediam uma regra de transição de dez anos.
Sem um acordo entre as partes, os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica foram levados por Mucio ao presidente Lula para um encontro no Palácio da Alvorada, no fim de novembro.
Os chefes militares entregaram uma carta a Lula na qual expunham suas razões para alargar a transição para as novas regras. O presidente se mostrou disposto a acatar o prazo de dez anos, segundo uma pessoa que participou da reunião.
O vídeo institucional produzido pela Marinha que rebatia as acusações de privilégios militares, divulgado no dia seguinte ao encontro com Lula, fez toda a articulação desabar. Mucio disse a Lula para enviar o projeto de lei da forma como já estava escrito porque não queria mais discutir o assunto.
O comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, teve a demissão avaliada pelo ministro da Defesa. A conclusão de Mucio foi de que o desgaste com a eventual demissão seria maior do que contornar a crise.
Mucio é um dos ministros mais próximos de Lula. Apesar dos reveses, mantém a confiança do presidente. A rotina desgastante e o eterno conflito entre as Forças e o governo fizeram o ministro comentar com Lula sobre sua vontade de deixar a Defesa.
Ele aceitou o convite para comandar a pasta, ainda na transição de governo, com a condição de que não iria permanecer no cargo durante todo o terceiro mandato de Lula. Os desgastes se acumularam nos últimos meses, com o desenrolar das investigações de militares envolvidos na trama golpista de 2022, no final do governo Jair Bolsonaro (PL).
Como um de seus atos finais, Mucio quer convocar a imprensa para uma coletiva em meados de janeiro. A ideia é mostrar todas as ações realizadas pelas Forças Armadas em 2024.
Auxiliares do ministro já reuniram os números das operações militares no ano e enviaram ao gabinete de Mucio. Foram 62.200 militares empregados em ações, mais de 10 mil horas de voo, 2.663 brasileiros repatriados no Líbano e 71 mil resgates nas enchentes do Rio Grande do Sul.
Ele quer ainda destacar o inédito alistamento militar feminino e os avanços para a criação de uma carreira civil no Ministério da Defesa.
Antes, porém, Mucio pretende tirar duas semanas de folga após o Natal para conversar com a família e amigos. Segundo interlocutores, é momento para assentar seus pensamentos sobre o futuro.
Com informações do Jornal de Brasília
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