Trump exalta Milei enquanto pobreza e desemprego castigam a Argentina

Washington considera o governo argentino seu principal aliado internacional e condiciona a continuidade do apoio financeiro à manutenção da direita no poder

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reforçou sua aliança com Javier Milei por meio de uma visita diplomática de alto nível à Argentina, em um momento marcado pelo agravamento de indicadores sociais e pelas dificuldades econômicas enfrentadas pela população. O vice-secretário de Estado estadunidense, Christopher Landau, afirmou que nenhum outro governo no mundo está tão alinhado com Washington quanto o argentino.

Segundo a Folha de S.Paulo, Landau fez a declaração na quinta-feira (22), durante entrevista coletiva no Ministério das Relações Exteriores, em Buenos Aires, após uma reunião com o chanceler Pablo Quirno. O representante do governo Trump elogiou a orientação econômica de Milei e defendeu o aprofundamento dos investimentos estadunidenses no país.

“Acredito que não há outro país em todo o mundo com o qual estejamos tão alinhados quanto com o governo da Argentina”, declarou Landau, número dois do Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio.

O diplomata também afirmou que a Argentina dispõe de recursos para se transformar em uma “superpotência econômica” e agradeceu ao governo Milei pela aproximação com os Estados Unidos.

“Somos muito gratos ao governo atual e esperamos que possamos continuar neste caminho de mais investimento, mais prosperidade e de criação de um ciclo muito positivo”, acrescentou.

Pobreza volta a crescer e atinge mais de 32% dos argentinos

Os elogios de Washington ao governo Milei ocorrem em meio à deterioração recente de indicadores sociais argentinos. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) mostram que a pobreza atingiu 32,3% da população urbana pesquisada no primeiro semestre de 2026, um aumento de 4,1 pontos percentuais em relação aos 28,2% registrados na segunda metade de 2025.

A indigência, que corresponde à parcela da população sem renda suficiente para adquirir uma cesta básica de alimentos, também avançou, passando de 6,3% para 7,5%. Entre as crianças de até 14 anos, a pobreza alcançou 44,5%, enquanto 10,8% viviam em situação de indigência.

Os resultados interromperam uma trajetória de redução da pobreza iniciada depois do primeiro semestre de 2024, quando o indicador havia atingido 52,9%. Apesar da melhora acumulada desde aquele período, os números mais recentes mostram uma reversão parcial dos avanços sociais.

O mercado de trabalho também apresenta dificuldades. Segundo o Indec, o desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, enquanto o número de trabalhadores assalariados registrados no setor privado permanece abaixo do observado no início do governo Milei.

A economia argentina apresenta resultados mistos. Embora a inflação tenha desacelerado significativamente em comparação com os níveis registrados no início da gestão ultraliberal, a alta dos preços continua pressionando o orçamento das famílias. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2% na comparação anual do segundo trimestre, mas recuou 0,6% em relação aos três meses anteriores, descontados os efeitos sazonais.

Nesse cenário, a aproximação diplomática com Washington ocorre paralelamente à persistência de dificuldades relacionadas ao emprego, à renda e ao acesso a bens essenciais, problemas que atingem especialmente os segmentos mais vulneráveis da população.

EUA condicionam apoio financeiro à continuidade da direita

A manifestação de Landau ocorreu apenas dois dias depois de o embaixador estadunidense na Argentina, Peter Lamelas, vincular publicamente a continuidade do apoio de Washington à manutenção de uma orientação política de direita no país.

Durante um encontro com empresários na cidade de Neuquén, o diplomata afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a continuar financiando projetos argentinos depois de 2027, desde que o país preserve a direção política adotada pelo governo Milei.

“Estamos prontos para continuar impulsionando e financiando, a partir dos EUA e para além de 2027, caso a Argentina continue avançando, e nunca retrocedendo”, declarou Lamelas.

Na sequência, o embaixador explicitou o posicionamento político defendido pela administração Trump.

“Estamos apoiando este governo, o governo de Milei, e o povo argentino, desde que sigam na direção correta: a direção à direita, e não à esquerda”, afirmou.

As declarações associam a continuidade da cooperação financeira estadunidense às escolhas políticas futuras da Argentina, incluindo o período posterior às eleições presidenciais previstas para 2027.

Questionado sobre as condições apresentadas pelo embaixador, o chanceler Pablo Quirno afirmou que a manutenção da parceria depende da continuidade das políticas econômicas adotadas pelo governo argentino.

“A única condição existente é que continuemos fazendo o que estamos fazendo, que sigamos pelo caminho do crescimento, da ordem macroeconômica e do equilíbrio fiscal”, declarou.

Trump ofereceu US$ 20 bilhões antes das eleições argentinas

O apoio de Donald Trump a Javier Milei já havia adquirido dimensão financeira durante as eleições legislativas de outubro de 2025, quando o governo argentino enfrentava instabilidade cambial e dificuldades políticas.

Duas semanas antes da votação, Milei viajou à Casa Branca em busca de respaldo. Durante o encontro, Trump advertiu que a continuidade da ajuda estadunidense dependeria do desempenho eleitoral do aliado.

“Se Milei não ganhar, não seremos generosos com a Argentina”, afirmou o presidente dos Estados Unidos diante de jornalistas.

Naquele período, Washington ofereceu um pacote de socorro financeiro de US$ 20 bilhões, destinado a evitar o agravamento da crise cambial.

Apesar da desvalorização do peso e de um escândalo envolvendo um aliado do presidente argentino, o partido governista A Liberdade Avança obteve 64 das 127 cadeiras em disputa na Câmara dos Deputados e 13 das 24 vagas renovadas no Senado.

O episódio evidenciou a importância da relação com Washington para a estratégia política e econômica de Milei. A assistência financeira oferecida pelos Estados Unidos passou a integrar uma parceria que também envolve investimentos, segurança e cooperação diplomática.

Washington elogia abertura ao capital estrangeiro, mas defende interesses nas Malvinas

Durante sua passagem por Buenos Aires, Landau afirmou que os Estados Unidos estão “satisfeitos com o atual governo argentino, que estende o tapete vermelho para o investimento estrangeiro”.

A declaração reforçou o apoio de Washington à política de abertura econômica adotada por Milei, que procura atrair capitais internacionais para setores como energia, mineração e infraestrutura.

Entretanto, a proximidade entre os governos não eliminou divergências sobre interesses empresariais estadunidenses.

Questionado sobre uma proposta legislativa argentina para endurecer as punições contra empresas envolvidas na exploração de petróleo nas Ilhas Malvinas, Landau ressaltou que Washington pretende proteger suas companhias.

O arquipélago está sob administração britânica, mas sua soberania é reivindicada historicamente pela Argentina. A proposta apresentada pelo governo Milei poderia atingir empresas estrangeiras que operam na região.

“Estamos, obviamente, zelando pelos interesses de nossas empresas. É natural que qualquer país se preocupe com isso, mas quero destacar que respeitamos o processo legislativo da grande nação argentina”, afirmou Landau.

A posição demonstra que a parceria política não impede o surgimento de divergências quando decisões argentinas podem afetar interesses econômicos estadunidenses.

Milei recebe enviado de Trump na Casa Rosada

Na sexta-feira (23), Javier Milei recebeu Christopher Landau na Casa Rosada, sede da Presidência argentina, consolidando a agenda de aproximação diplomática entre os dois governos.

O encontro ocorreu após o retorno do presidente argentino de uma viagem à Espanha e contou com a participação do chanceler Pablo Quirno, do embaixador estadunidense Peter Lamelas, do subsecretário de Assuntos Hemisféricos dos Estados Unidos, Juan Pablo Segura, e do embaixador argentino em Washington, Alec Oxenford.

A Embaixada dos Estados Unidos destacou que a parceria inclui investimentos em energia, minerais críticos e infraestrutura, especialmente por meio do projeto denominado Corredor Andes-Atlântico.

“A Argentina aposta na estabilidade e nas reformas, e os EUA a apoiam com investimentos em energia, minerais críticos e infraestrutura por meio do Corredor Andes-Atlântico”, informou a representação diplomática.

Na fotografia oficial, Milei e Landau aparecem com um prato comemorativo dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos, celebrados em 2026.

Antes da visita à Argentina, Landau esteve no Paraguai, onde Washington anunciou a abertura de um escritório antidrogas destinado à coordenação regional de programas de combate ao narcotráfico no Cone Sul.

A sequência de compromissos evidencia o esforço dos Estados Unidos para aprofundar suas relações com governos sul-americanos. No caso argentino, a parceria avança enquanto Milei enfrenta o desafio de conciliar a estabilização macroeconômica defendida por sua administração com a necessidade de reduzir novamente a pobreza, ampliar o emprego e recuperar o poder de compra da população.

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