Geane Mendes Costas (foto em destaque), de 51 anos, teve uma perna amputada depois de ser atropelada por um ônibus no Distrito Federal (DF). Imersa nas drogas, álcool e sem ajuda, passou a rastejar pelas ruas. Ignorando ratos, moscas, baratas e doenças, começou a recolher restos de comida de lixeiras para comer.
Por capricho do destino, teve a sorte de ser acolhida por uma rede de apoio. E hoje, luta por uma prótese para voltar a andar e recuperar o contato e os abraços com os filhos.
“O mais difícil é a saudade dos meus filhos. Porque comer, você cata no lixo, as pessoas doam. Mas o que mais sinto muito falta são meus filhos. Ficar sem a perna me atrapalha. Já caí muito. Mas me levanto. Quero esquecer de tudo que passou e focar só nos meus filhos. Eu amo eles e choro por causa deles. Sou feliz e, ao mesmo tempo, não sou“, resumiu Geane.
A mulher foi atropelada por um ônibus da Pioneira e afirma não ter recebido ajuda após o acidente.
“Eu quero viver ainda muitos anos, com meus filhos”, projetou.
A empresa nega a negligência e diz ter procurado a mulher, mas não houve resposta (leia mais abaixo).
Nascida no Piauí (PI), Geane viveu por muitos anos em Pernambuco (PE). Após um relacionamento abusivo, mudou-se para o DF com os filhos, uma menina e um rapaz que tem deficiência.
Na capital do país, passou a viver no Paranoá recebendo ajuda da família. De dia, trabalhava como diarista e a noite catava latinhas para reciclagem. Mas, ao longo dos anos, perdeu-se nas drogas. O Conselho Tutelar retirou a guarda dos filhos e ela passou a viver nas ruas.
O acidente
No dia 18 de novembro de 2024, por volta 17h30, sentou-se no meio-fio do Terminal Rodoviário do Paranoá. Estava cansada. Levantou-se para ir ao banheiro, mas teve o caminho interrompido. Geane foi então por um ônibus da viação Pioneira.
“Não vi mais nada. Eu acordei e vi o bombeiro puxando a minha perna e me colocando na maca. Eu gritando, gritando. Nem olhei mais para a perna. O sangue, o sangue. O bombeiro que falava: a sua perna, a sua perna. Eu só me preocupava com a minha cabeça. Não vi mais nada. Eu tenho certeza: eu morri, morri mesmo”, lembrou.
Geane teve múltiplas fraturas e ficou internada por 18 dias. “Quando acordei estava com a perna. Mas não tinha coragem de olhar. Estava sedada. Costuraram o meu pé. Desmaiei. Abri os olhos com aqueles ferros na perna. E eu pensei: ainda vou andar”, contou.
Diante do quadro delicado, a equipe médica decidiu amputar uma das pernas da paciente. “O médico disse que fizeram de tudo, mas ia ter que amputar. Acordei, vi só o cotoco”.
Comida do cesto de lixo
Ao deixar o hospital, Geane afirma não ter recebido ajuda da Pioneira. Ao invés de uma chance de recuperação, encontrou uma realidade cruel, onde precisava se arrastar pelo chão, pular de uma perna só e se humilhar para continuar sobrevivendo. “Saia pedindo. Passei muita fome, me arrastando. Não tinha mais condições de carregar latinhas, fazer uma faxina. Tinha dia que dormia sem comer. Procurava comida mesmo dentro do cesto de lixo e nunca morri. Quantas vezes comi”, relatou.
Por diversas noites, Geane dormiu em cima de papelão. E, muitas vezes, ao despertar estava cercada por homens em situação de rua. “Queriam bulir comigo. Mas sou tão forte que brigava. Eu nunca vendi meu corpo. Conseguia evitar. Muitas vezes”, revelou.
A vida Geane mudou em outubro de 2025. O advogado Jorge Leal Carneiro passava de carro pelo Itapoã junto com o filho. Jorge não acreditou quando viu a mulher se arrastando pelo chão e decidiu parar o veículo e estender a mão para ajudar.
A senhora ainda vem me buscar?
Jorge montou uma rede de apoio. Geane ganhou um andador, cadeira de rodas, medicamentos, aposentadoria especial e uma casa alugada, com teto e uma cama para dormir. Começou a recuperar a dignidade. O grupo agora decidiu cobrar na Justiça uma reparação para Geane ter acesso a uma prótese. Para a mulher, voltar a andar é o primeiro passo para rever os filhos. “Não tenha dúvida. Com a prótese vou ter apoio. Andando, de pé vou conseguir outro emprego. Vou fazer minha diárias. Lavar, varrer casas”, comentou.
Atualmente, os filhos de Geane vivem em um abrigo em Brazlândia (DF). Caso consiga recuperar as condições de viver com eles, ela sonha com um recomeço, em um casinha simples, no campo.
“A gente sempre gostou do verde. No meu lotinho, minha casinha, que seja um “ovinho”. Isso não importa. Quero dar um abraço e ter minha honra de volta. Eu errei. Minha menina é inteligente. Da última vez que a vi, ela estava com 4 anos no abrigo. Ela me abraçou e falou: mainha, a senhora ainda vem me buscar? Ela escreveu o nome dela em um papel e me deu”, pontuou.
Para Jorge Leal Carneiro, o objetivo da ação judicial é recuperar a dignidade Geane.
“Nós estamos caminhando agora para que a empresa de ônibus faça o ressarcimento do que ela perdeu. Ou seja, das pernas dela. Não estamos pedindo uma mega indenização. Estamos pedindo próteses para que ela possa voltar a andar, trabalhar e o passo seguinte será para ela recuperar os filhos dela. Estamos pedindo um pouco mais para ela se recuperar, se reestruturar. Eu vejo como uma missão maior, para reestabelecer a dignidade dessa pessoa. Dando à ela condições sua casinha no campo, reorganizar a família e condições para ela viver com os seus filhos”, explicou.
Segundo Jorge, a empresa tratou Geane de forma subumana. “Fecharam os olhos. Não deu assistência. Nem uma cadeira de rodas. Simplesmente se omitiu. Isso não se faz nem com um animal. Foi um ato de desumanidade. Deixaram ela na rua. Quando eu a encontrei ela se arrastava. Meu filho, quando encontrou a Geane, abraçou ela. Começamos a fazer um trabalho degrau a degrau, de retorno da humanidade, da dignidade dessa pessoa”, comentou. Atualmente, a filha de Geane tem 12 anos e o rapaz, de 20 anos, é tem Síndrome de Down. O pedido de indenização é de R$ 5.515.018,00.
Pioneira
Por nota, a Pioneira informou que prestou todos os primeiros socorros no dia do acidente, e que uma equipe acompanhou a vítima até o hospital, onde ela foi internada com fratura exposta. “Registre-se que a vítima se encontrava sob efeito de álcool e outras substâncias químicas”, afirmou a empresa.
Segundo a empresa, não havia identificação da vítima, tampouco ela se encontrava em condições de indicar qualquer pessoa a ser contatada.
No dia seguinte, de acordo com a versão da Pioneira, a assistente social da empresa retornou ao Hospital de Base, mas a paciente ainda estava em atendimento, apresentando-se muito nervosa e agitada. A assistente social deixou um cartão com a enfermeira responsável, para que Geane pudesse fazer contato.
“Em nova visita ao Hospital, a empresa foi informada de que a paciente havia recebido alta, sem deixar endereço ou telefone para contato. A vítima jamais procurou a empresa após esse episódio. A empresa somente voltou a ter notícias da vítima por ocasião do ajuizamento da presente ação”, alegou a empresa de ônibus.
Quanto ao processo, segundo a Pioneira, o advogado da parte autora demonstrou “postura agressiva desde o início, pleiteando valores exorbitantes, superiores a oito milhões de reais, o que inviabilizou qualquer tentativa de contato direto com a vítima”.
Por fim, a empresa argumentou que não pode fornecer maiores detalhes, uma vez que os prontuários da autora se encontram sob segredo de justiça.
Com informações do portal Metrópoles
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