É na Feira Central da Ceilândia, um dos cenários mais tradicionais da região, onde histórias de trabalhadores e moradores revelam como a cidade se tornou um símbolo de resistência e identidade cultural no Distrito Federal. Foi no dia 27 de março de 1971 que se iniciou a relocação de cerca de 82 mil moradores das ocupações irregulares por meio da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), que mais tarde deu origem ao nome da cidade. Passados 55 anos, Ceilândia celebra nesta sexta-feira (27) o aniversário da sua construção, marcada hoje por um comércio independente, cultura periférica e um povo incansável.
A Feira, hoje um dos pontos turísticos da região, foi considerada permanente em 1972, data que mostra a sua relevância na história da Ceilândia. A região conta ainda com outras feiras que fazem parte do dia a dia dos moradores, como a do Produtor e do Atacadista da Ceilândia. Além das outras permanentes: da Guariroba, do P Sul, Setor O, P Norte e a Livre de Guarapari.

Filho de pai piauiense e mãe cearense, Francisco Pinho é um exemplo das muitas trajetórias que circulam na Feira Central. Conhecido por todos como Chiquinho, ele contou ao Jornal de Brasília que começou a trabalhar com o pai na feira em 1980. Depois de alguns anos passou a trabalhar na banca, loja que assumiu junto com o apelido “Rei do Mocotó”. O pequeno empreendimento é conhecido por oferecer comidas típicas do nordeste e atrai uma grande clientela.
Muito fã de rock, Chiquinho deu sua personalidade ao local depois que assumiu o negócio. Todos os clientes que passam pelo local podem notar um traço da sua personalidade: o rock é a trilha sonora oficial do local. Chiquinho é colecionador de vinil e afirmou que o gênero possui uma grande força na região, além dos gêneros que já são símbolos da Ceilândia, como o hip-hop e o funk.
“Eu sou filho de nordestinos. Eu comecei no comércio com eles, depois até saí para tentar outras coisas, mas não deu certo e acabei voltando para a feira. E estou aqui até hoje. Eu nasci e fui criado na Ceilândia. Tudo o que eu tenho veio daqui: meus filhos foram criados aqui, hoje estão formados, minha esposa sempre esteve ao meu lado. A Ceilândia é tudo para mim. É o coração do Distrito Federal, é de onde vem muita gente trabalhadora. Eu devo tudo a esse lugar”, afirmou.
Orgulho de ser Ceilândia
Logo na banca da frente, mais uma história de quem vive o orgulho de morar na Ceilândia. Elizabeth de Queiroz, de 74 anos, chegou em Brasília em 1971, mas foi só em 1978 que foi morar na região, local que permanece até hoje. A casa da feirante fica próxima da Caixa d’Água, um património da capital. Ela conta que sua rua foi uma das primeiras a ganhar asfalto.

Projetada pelo arquiteto paranaense Gerhard Leo Linzmeyer, a Caixa d’Água é um dos símbolos da região e foi inaugurada em 1970, no ponto onde o então governador Hélio Prates lançou a pedra fundamental de Ceilândia. Para Elizabeth, residir praticamente em frente a um monumento tombado como Patrimônio Histórico do Distrito Federal é um privilégio.
Feirante no mesmo box desde 1980, ela contou ainda que foi no espaço que ganhou autonomia para criar os filhos. “Eu gostei da cidade desde o começo. Aqui tinha mais movimento, mais oportunidade. Foi onde eu construí minha vida e criei meus cinco filhos aqui. Hoje tenho filhos formados, trabalhando, família estruturada. Tudo veio do meu esforço aqui. A Ceilândia é tudo para mim. Eu não trouxe nada, eu conquistei tudo aqui. É onde eu construí minha história, minha família. Eu não gosto, eu amo esse lugar”, comentou.
Lugar que acolhe
Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) de 2024, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF Codeplan), a Ceilândia possui uma população de cerca de 287.113 pessoas. A mostra também observou que 59,3% dos moradores são naturais da Ceilândia e outros 40,3% são de outros estados do Brasil.

Outro dado revelado pela PNAD-A 2024 é que a região Nordeste concentra a maior parcela (60,7%) da população vinda de outros lugares. Entre os estados da região, o destaque vai para o Piauí com 7,1%. O dado confirma a história de Naira Regina Silva, de 23 anos. Ela veio para Brasília em 2022 com dois filhos e logo já se estabeleceu na região. Com o terceiro filho nascido no local, mais precisamente no Hospital Regional da Ceilândia, Naira relata que encontrou na cidade uma oportunidade de recomeçar.
Funcionária de uma banca da Feira Central, ela fala com gratidão sobre o espaço: “eu trabalho aqui na Feira há três anos. É um lugar que dá muitas oportunidades para quem está chegando. Tem muita gente que chega e consegue trabalho, porque sempre tem banca precisando de funcionário. Foi aqui, com esse trabalho, que eu consegui pagar meu aluguel, comprar comida e cuidar dos meus filhos. Eu gosto muito de Ceilândia e eu quero continuar. É uma cidade boa para quem quer trabalhar e recomeçar com mais dignidade”.

Terra e resistência
“A gente costuma dizer que ela é como um furacão, um fenômeno da natureza”, é assim que Flávia Nascimento descreve a mãe, a dona Marlene Nascimento, de 71 anos. A idosa morava de aluguel em Taguatinga e se mudou para a Ceilândia em 1978 em busca da casa própria para criar os filhos. “O começo foi muito difícil. Aqui era só terra e quase não tinha transporte. Naquela época, muita gente dizia que Ceilândia era ruim, que era lugar de gente pobre. E a estrutura também dificultava: tinha ruas que simplesmente fechavam, o asfalto não continuava. Para sair, a gente precisava dar uma volta enorme”, relatou Marlene.
Ela contou ao Jornal de Brasília que não aceitava aquela situação e não desistiu de ir em busca de dignidade para a comunidade local. Marlene mora até hoje no local onde foram estabelecidas as primeiras quadras da Ceilândia. Ela conta que na época as ruas não tinham saída, o que dificultava a vida de quem vivia na região.
“Eu confesso que fui um pouco rebelde. Fui lá e quebrei o asfalto. Eu não aceitei aquilo. Fui reclamar, chamei outras pessoas e comecei a cobrar melhorias. A gente foi brigando, foi até a administração, e com o tempo as ruas foram sendo abertas. A cidade foi melhorando”, contou. E foi com isso e muitas outras histórias que dona Marlene, sem perceber, ensinou os dois filhos a lutarem por justiça e sempre buscarem aquilo que desejam. Hoje, Flávia e Sérgio, inspirados na trajetória da mãe, são formados e atuam nas causas sociais.
Ceilândia além do estigma
Produtora cultural, Flávia Nascimento afirma que a trajetória da Ceilândia é marcada por uma disputa de narrativas que atravessam gerações. A cidade nasceu associada a um processo de remoção e, desde então, passou a carregar estigmas que ainda hoje reverberam em diferentes espaços, que vão desde o mercado de trabalho à forma como seus moradores são vistos fora dali.

E é nesse cenário que em 1988 surge o grupo Atitude, com a proposta de valorizar o território e transformar a percepção sobre a cidade. “A cidade já nasceu com um estigma, e a gente queria mudar essa visão. Então começamos um trabalho para mostrar que é bom morar aqui, que a cidade tem força, tem cultura, tem história”, contou Flávia.
Segundo ela, o preconceito era evidente principalmente na juventude. “Nos anos 90, muitas vezes a pessoa deixava de conseguir emprego só pelo prefixo do telefone, que já identificava que era da Ceilândia”, lembra. A partir dessa realidade, o coletivo passou a desenvolver ações culturais e sociais com foco na valorização da identidade local e no fortalecimento do pertencimento.
Ao longo dos anos, os projetos se expandiram e passaram a dialogar com diferentes linguagens e instituições, sempre com o mesmo objetivo: dar visibilidade à potência cultural da cidade. Hoje, o grupo atua na divulgação da produção artística da região e na construção de uma nova narrativa sobre o território. “A gente mostra tudo de bom que existe aqui, do hip-hop ao samba, do rock ao reggae, além das ações sociais. A Ceilândia é uma cidade rica, forte, e a gente tem muito orgulho disso”, completou.
Empreendedorismo negro e perseverança
Nascida e criada na cidade, a empreendedora Nair Ambrósio carrega no próprio trabalho a conexão com o território e com a própria história. Para a trancista, empreender vai além de uma escolha profissional. “Empreender em Ceilândia, sendo uma mulher negra, é um ato de resistência e coragem. E foi exatamente isso que a cidade me ensinou desde a infância: ter coragem, perseverança e continuar”, disse.

Filha de uma família que faz parte das primeiras gerações de moradores, ela cresceu ouvindo relatos sobre um tempo em que faltavam condições básicas na região. Ela conta que os irmãos mais velhos viveram a ausência de infraestrutura, como falta de água e saneamento. Já a trancista acompanhou a cidade em transformação, ainda marcada por desafios mas também com avanços.
O caminho até consolidar o próprio negócio não foi simples. Com poucos recursos e sem formação em gestão, enfrentou dificuldades e também o preconceito. “Existe, sim, preconceito contra mulheres e, principalmente, mulheres negras. Mas eu mantive a resiliência e sigo buscando caminhos para superar os dias difíceis. “E apesar de tudo, eu amo Ceilândia. Foi a cidade que me viu crescer, que guarda as memórias da minha família e dos meus amigos. Como não amar esse lugar?”, pontuou.
Esse vínculo também se reflete na valorização da cultura local. Orgulhosa da diversidade artística da região, ela destaca o crescimento de talentos que ganham espaço dentro e fora do DF. “Hoje, além do meu trabalho como trancista, eu também participo de um projeto que une o salão afro ao hip-hop para conscientizar crianças sobre a história das tranças e combater o bullying, principalmente com crianças negras. É uma forma de fortalecer a autoestima e valorizar a nossa identidade”, explicou.
Com informações do Jornal de Brasília
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