O Banco de Brasília (BRB) pretende expandir a marca Nação BRB Fla, com a abertura de agências físicas em todas as capitais do país no prazo de até um ano. A iniciativa aposta na força da parceria com o Flamengo e busca dar mais visibilidade à plataforma digital da colaboração. A primeira agência está prevista para ser inaugurada em maio, no Rio de Janeiro.
O banco digital foi lançado em julho de 2020 e chegou a conquistar 2 milhões de clientes pouco depois de completar um ano. Segundo dados divulgados pelo BRB, o Nação BRB Fla encerrou o primeiro semestre de 2025 com 3,8 milhões de contas. Entre os produtos e serviços destinados aos correntistas, estão seis diferentes tipos de cartões de crédito, seguros e uma plataforma de investimentos.
Economista e especialista em educação financeira, Newton Marques destacou que a visibilidade da torcida do Flamengo abre espaço para negócios e estratégias de marketing para o banco. “Onde houver condições de viabilizar negócios com a torcida do Flamengo, fazendo uma combinação de patrocínio entre o time e o BRB, isso se tornaria muito relevante. Foi assim que o BRB passou a patrocinar o time”, explicou. “Imagine quantos milhões de pessoas visualizam e podem se interessar em abrir conta no BRB por conta dessa parceria”, completou.
Empréstimo
No esforço para sanear o banco, o presidente Nelson de Souza espera o aval do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para captar o empréstimo de R$ 6,6 bilhões. Segundo ele, as tratativas estão cada vez mais avançadas. “Tivemos várias reuniões nos roadshows que fizemos. Nessas nossas idas, chegamos a ter posições firmes com relação a esse assunto, a ter essas garantias. Tivemos reuniões com o FGC semana passada. Ficamos bem adiantados com relação ao assunto a ser resolvido e quais as maneiras mais rápidas de aportar esses recursos”, afirmou.
O banco estuda usar, como garantia, a dívida ativa do GDF (débitos que o governo tem a receber), que pode chegar a R$ 52 bilhões, por meio da securitização, além de solicitar apoio do governo federal para auxiliar nas negociações das garantias. Segundo a avaliação do professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, caso a proposta seja aprovada, o BRB teria mais tempo para captar recursos. “Se o BRB conseguir homologar essa garantia junto ao FGC, ele ganha um fôlego importante para captar recursos ou estruturar operações de assistência financeira. Utilizar um ativo ‘parado’, como a dívida ativa, para garantir liquidez imediata é, em teoria, um uso eficiente do balanço do acionista controlador, que é o GDF”, destacou.
Renan Silva ponderou, no entanto, que o principal entrave está no campo jurídico. “O maior desafio aqui é a Lei de Responsabilidade Fiscal e o entendimento do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Muitas vezes, a securitização de dívida ativa é interpretada como uma operação de crédito antecipada, o que pode sofrer vedações dependendo de como o fluxo de caixa é estruturado”, ressaltou. “No fim, acredito que é uma saída criativa para um momento de necessidade”, completou.
Serrinha
O ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes solicitou ao GDF esclarecimentos sobre a inclusão da Gleba A da Serrinha do Paranoá nas medidas de apoio financeiro ao BRB. O pedido foi formalizado em documento assinado na última sexta-feira.
Ontem, o GDF enviou à Câmara Legislativa (CLDF) um projeto de lei em regime de urgência para alterar a Lei nº 7.845/2026, que trata do fortalecimento das condições econômico-financeiras do BRB. A proposta, encaminhada pela governadora Celina Leão (PP), retira dois imóveis da lista, um terreno localizado no SIA Trecho Serviço Público LT G, atualmente utilizado para serviços de saúde, e a Gleba “A”, na região da Serrinha do Paranoá, após a identificação de impedimentos legais e ambientais.
A mudança corrige o que a área técnica da Secretaria de Economia classificou como uma indicação inadequada de bens na versão original da lei. De acordo com o secretário de Economia, Valdivino José de Oliveira, os imóveis possuem restrições ambientais ou de destinação, o que impede sua utilização em operações como venda, transferência, permuta ou integralização de capital, mecanismos previstos para reforçar o caixa do banco.
Sancionada em 10 de março de 2026, a Lei nº 7.845 autoriza o GDF, na condição de acionista controlador do BRB, a adotar medidas para recompor o patrimônio líquido da instituição. Entre elas estão o uso de bens móveis e imóveis, a estruturação de fundos de investimento e diferentes formas de negociação de ativos.
Segundo o governo, a alteração proposta não gera impacto orçamentário aos cofres públicos. A tramitação em regime de urgência foi solicitada com base na Lei Orgânica do Distrito Federal, sob o argumento de necessidade de análise rápida. Não há prazo definido para a apreciação do projeto pela Câmara.
Rebaixamento
A Fitch Ratings, agência global de classificação de risco, rebaixou as notas de crédito do BRB para “CC”, nível altamente especulativo, e retirou todas as classificações da instituição. A decisão reflete o alto risco de inadimplência, em meio à falta de transparência, ausência de dados financeiros atualizados e incertezas sobre a situação do banco. Segundo a agência, essas limitações comprometem o monitoramento independente e indicam possível deterioração na governança.
Para Newton Marques, o impacto vai além da avaliação técnica. “A nota ‘CC’ é extremamente baixa e indica alto risco de inadimplência. Na prática, investidores passam a exigir mais garantias ou até evitam aplicações. Para captar recursos, o banco tende a pagar juros mais altos, reduzindo a rentabilidade”, ressaltou. O relatório também aponta maior probabilidade de eventos adversos, como default ou reestruturação da dívida.
O movimento acompanha rebaixamentos anteriores de Moody’s e S&P Global Ratings, que já haviam colocado o BRB em nível especulativo, citando fragilidade de capital e incertezas ligadas à Operação Compliance Zero. A sequência de cortes reforça o cenário de estresse financeiro e o desafio do banco em recuperar a confiança do mercado diante da necessidade de capitalização.
O Correio procurou o BRB para comentar sobre o rebaixamento, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Calendário
A agenda do BRB, nesta semana, reúne etapas decisivas para o futuro da instituição e concentra a atenção do mercado e dos investidores. Amanhã, inicia o prazo para que acionistas exerçam o direito de preferência na compra de novas ações, dentro do processo de aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões aprovado em assembleia anterior.
Na quarta, está previsto um novo encontro para discutir a definição do montante global de remuneração dos administradores do banco, além da fixação dos valores pagos aos membros do Conselho Fiscal. Paralelamente, cresce a expectativa em torno da divulgação do balanço financeiro, previsto para 29 de maio. Usado como principal instrumento de transparência, o balanço detalha lucros, prejuízos, dívidas, ativos e riscos, além de indicar a real capacidade do banco de sustentar suas operações ao longo do tempo.
Nelson de Souza demonstrou confiança no cumprimento do prazo e reforçou a confiança na instituição. “Esperamos que tenhamos cada vez um banco mais forte. O BRB continuará sendo a empresa ícone do povo de Brasília e este banco não irá quebrar”, garantiu.
Economista Newton Marques explicou a avaliação da saúde de um banco passa por três pilares fundamentais. “Liquidez é a capacidade de honrar pagamentos no curto prazo. Já o problema patrimonial ocorre quando há prejuízos acumulados que exigem aporte de capital. E a solvência está relacionada à capacidade de o banco se manter no longo prazo”, afirmou.
Com informações do Correio Braziliense
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