EUA x Brasil: poucas chances de o tarifaço de 50% ser revertido

Apesar dos esforços do governo e da missão de senadores — que a partir de hoje negocia com empresários e políticos norte-americanos alguma medida relacionada à taxação de 50% a ser imposta aos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos —, é considerada nula a hipótese de adiamento ou suspensão do tarifaço decretado por Donald Trump. O presidente anunciou, ontem, que “o 1º de agosto é para todos”, o que inclui o Brasil. A afirmação reforçou o comentário do secretário de Comércio, Howard Lutnick, em entrevista, mais cedo, ao programa Fox News Sunday.

“Com certeza não haverá mais prorrogações, não haverá mais [período de] carência. As tarifas estão programadas para o dia 1º de agosto. Colocaremos a Alfândega para começar a coletar o dinheiro”, garantiu.

Lutnick deixou claro que a questão do Brasil, de todas as nações às quais os EUA decidiram taxar importações, é a mais difícil por conta do componente político — Trump atrelou a tarifação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, no Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe de Estado — e porque o Brasil não está no topo da lista de prioridades do comércio norte-americano.

“Obviamente, após 1º de agosto, as pessoas ainda poderão falar com o presidente Trump. Ele está sempre disposto a ouvir. Até lá, acho que o presidente vai falar com muitas pessoas. Se elas podem fazê-lo feliz é outra questão”, acrescentou.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro da Indústria, Comércio e Serviço, conversou longamente com Lutnick, em 19 de julho, e ouviu do secretário que todas as negociações comerciais estão concentradas na Casa Branca. E é aí que reside o grande problema brasileiro: não há um interlocutor com o atual governo dos EUA desde que Trump retornou à Presidência, em janeiro.

Ontem à noite, depois que o secretário dos EUA dissera que está tudo programado para o tarifaço vigorar a partir da sexta-feira, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio emitiu uma nota na qual afirma que “desde o anúncio das medidas unilaterais feito pelo governo norte-americano, o governo brasileiro, por orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vem buscando negociação com base em diálogo, sem qualquer contaminação política ou ideológica”.

Prossegue a nota afirmando que “reiteramos que a soberania do Brasil e o Estado Democrático de Direito são inegociáveis. No entanto, o governo brasileiro continua e seguirá aberto ao debate das questões comerciais, em uma postura que já é clara também para o governo norte-americano”.

E finaliza a nota: “O Brasil e os Estados Unidos mantêm uma relação econômica robusta e de alto nível há mais de 200 anos. O governo brasileiro espera preservar e fortalecer essa parceria histórica, assegurando que ela continue a refletir a profundidade e a importância de nossos laços”.

A comitiva de senadores que está em Washingon está ciente das dificuldades que enfrentará exatamente pela falta de uma ponte junto a Trump. O chanceler Mauro Vieira auxiliará os parlamentares nos contatos. Procurado pelo Correio para dar um panorama sobre as tratativas, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) foi lacônico e, de certa forma, sintetizou o estado de espírito da missão quanto ao sucesso da viagem. “Muita conversa e expectativa na nossa capacidade de se reinventar”, disse.

No X (antigo Twitter), o parlamentar petista postou o seguinte: “Nossa ida aos Estados Unidos é para defender o Brasil com respeito, seriedade e cabeça erguida. Não aceitaremos desrespeito com quem trabalha, produz e sustenta esse país com esforço e impostos. Negociamos como líderes, não como coadjuvantes. Construímos pontes com coragem e derrubamos muros com a verdade. É assim que se honra o Brasil, na prática, com presença e com propósito”.

Nem a URSS

Em entrevista ao Financial Times, publicada no fim de semana,  o embaixador aposentado Celso Amorim  principal assessor de política externa de Lula da Silva — disse que a tentativa de Trump se imiscuir em assuntos internos brasileiros não tem precedentes “nem em tempos coloniais”. “Nem a União Soviética teria feito algo assim”, disse. Para o diplomata, Trump age politicamente em favor de Bolsonaro, “seu amigo”.

Amorim deixou claro, porém, que a decisão brasileira de aprofundar sua participação no Brics é irreversível e não haverá recuo, apesar das pressões de Trump. Segundo o assessor de Lula, “o que está acontecendo (a expectativa de que passe a vigorar o tarifaço) está reforçando nossas relações com os Brics, porque queremos diversificar nossas relações e não depender de nenhum país só”. O embaixador frisou que, por conta dessa sanção dos EUA, o Brasil está pronto paras pretende fortalecer vínculos com países da Europa, da Ásia e da América do Sul.

Para Amorim, o Brics não tem caráter ideológico e pode ser uma válvula de escape do Brasil por conta da postura unilateral e isolacionista que Trump pretende impor aos EUA. “Países não têm amigos, têm interesses. Mas Trump não tem nem amigos nem interesses, só desejos”, criticou, acrescentando que o presidente norte-americano é “a ilustração do poder absoluto”.

Segundo o assessor de Lula, há alguma saída para o Brasil a médio prazo, caso o tarifaço passe mesmo a vigorar a partir de sexta-feira. Conforme disse, o Canadá — que foi ameaçado até de anexação por Trump, que chegou a tratar o país vizinho como 51º estado dos EUA — demonstrou interesse em negociar um acordo de livre comércio. Ainda segundo Amorim, o momento é excelente para destravar o acordo entre Mercosul e a União Europeia.

Improviso

Para o economista César Bergo, professor da Universidade de Brasília (UnB), o Brasil demorou a reagir de forma estratégica à iminente imposição de tarifas. Segundo ele, a resposta do governo tem sido marcada por improviso e despreparo diante de um cenário internacional cada vez mais hostil, politicamente articulado e com impactos significativos para a economia nacional. “O Brasil acordou tarde. A comitiva enviada aos Estados Unidos, embora simbólica, não terá poder de interlocução real com os tomadores de decisão”, advertiu.

Para Bergo, a postura reativa do Brasil evidencia a falta de um “plano B” diante da consolidação da política protecionista de Trump, que articula a medida como parte de uma estratégia política mais ampla. “A tarifa de 50% não é apenas uma questão econômica. É uma sanção comercial com forte conteúdo político. E, nesse jogo, o Brasil entrou despreparado, inclusive com falhas graves na diplomacia. Nem embaixador temos em Washington, o que compromete a capacidade de diálogo direto em alto nível”, criticou.

Bergo aponta que a reação brasileira ficou restrita a discursos e movimentos de última hora, quando já estava claro o endurecimento da postura americana. Ele também avalia que o governo brasileiro subestimou o impacto das movimentações de bastidores do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vem há meses solapando as relações entre os dois países. “Houve, sim, um trabalho de base feito por Eduardo junto a setores do Partido Republicano. Mesmo que tenha sido informal, foi eficaz. O Brasil ignorou esse movimento e está pagando o preço agora”, afirmou.

Acordo com a UE

Alheio à situação do Brasil, Trump chegou, ontem, a um acordo tarifário com a União Europeia, após uma breve reunião com a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. As negociações foram destinadas a evitar penalidades comerciais aos americanos e uma retaliação da Europa, que poderiam causar ondas de choque nas economias ao redor do mundo.

“Foi uma negociação muito interessante. Acho que será ótimo para ambas as partes”, observou Trump, que antes do acordo havia ameaçado uma tarifa de 30% sobre produtos europeus a partir de 1º de agosto, que baixou para 15%. Trump e Ursula realizaram conversas em um dos campos de golfe do presidente norte- americano na Escócia.

Ele reafirmou que busca justiça comercial para os EUA. A líder europeia concordou que a UE é superavitária na relação comercial e que é necessário rebalancear.

“Quem não quiser pagar nenhuma tarifa deve abrir uma fábrica nos EUA. Não vendemos carros ou produtos do agronegócio para a Europa. Eles vendem milhões de carros para os EUA”, resumiu o presidente.

Segundo Ursula, a tarifa acordada de 15% compreende a maior parte dos produtos que seriam taxados — entre eles, carros, semicondutores e fármacos. “Estes 15% são um teto claro, portanto, sem acumulação”, explicou a líder da UE, acrescentando que foi ajustada uma taxação zero em uma série de produtos estratégicos.

Com informações do Correio Braziliense

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