Sem grande impulso da agropecuária e com juros ainda altos, o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil deve seguir em desaceleração em 2026, registrando um crescimento menor do que em 2025, projetam analistas. Com a perda de ritmo, a inflação tende a ficar abaixo do teto da meta, sem gerar prejuízos significativos para o mercado de trabalho, que deve continuar aquecido.
No caso do PIB, a projeção mais recente do mercado financeiro indica alta de 1,8% em 2026, após crescimento previsto de 2,26% em 2025, conforme o boletim Focus divulgado pelo BC (Banco Central) na segunda (29).
O resultado de 2025 só será publicado em março pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
“É uma economia que está em processo de desaceleração, mas que não deve causar um grande mal-estar para a população, porque a inflação vai estar abaixo [do teto da meta], e o desemprego vai estar relativamente baixo. É um cenário diferente daquele do pós-recessão de 2015 e 2016, por exemplo”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.
Ele prevê alta de 1,5% para o PIB em 2026, após projeção de 2,1% em 2025.
Para a inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), Vale espera variação de 4,2% em 2026, após 4,4% em 2025. O dado fechado de 2025 será divulgado pelo IBGE em 9 de janeiro.
Na mediana, as previsões do mercado financeiro apontam IPCA de 4,05% em 2026, após avanço de 4,32% em 2025. Os números estão abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC.
Analistas afirmam que os alimentos podem mostrar alguma aceleração no próximo ano, depois do alívio gerado pela safra recorde e pela queda do dólar em 2025.
As projeções, por outro lado, sinalizam que a manutenção dos juros em patamar elevado deve contribuir para conter os preços dos serviços.
A expectativa é de que a taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, comece a cair até o final do primeiro trimestre, mas ainda encerre 2026 em dois dígitos. A projeção do Focus é de juros de 12,25% ao fim do ano eleitoral.
“O número menor para a inflação do ano que vem [2026] é a composição de bens importados ainda em patamar confortável com a diferença da inflação de serviços, que a gente acredita que será mais baixa, porque vem a reboque da desaceleração da atividade econômica”, afirma o economista-chefe do banco Daycoval, Rafael Cardoso.
O banco trabalha com projeção de crescimento de 1,7% para o PIB em 2026, depois de avanço de 2,2% em 2025. Para o IPCA, a instituição espera alta de 4,1% no ano eleitoral, depois de aumento de 4,3% nos 12 meses anteriores.
Nova isenção do IR pode impulsionar PIB
Na visão de Cardoso, um dos fatores que tendem a impedir uma desaceleração mais forte do PIB em 2026 é a entrada em vigor da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês.
A expectativa é de que a medida libere mais recursos do orçamento das famílias para o consumo, motor da atividade econômica.
Cardoso diz não ver grande espaço para a adoção de novos estímulos fiscais ao PIB por parte do governo Lula (PT), mas não descarta surpresas antes das eleições.
“Sempre pode ter algum coelho para ser tirado da cartola que a gente não está vendo, mas a gente não contempla, no nosso cenário-base, que o fiscal tenha algo muito diferente daquilo que está na lei orçamentária”, afirma.
Para Francisco Pessoa Faria, pesquisador associado do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), o ano eleitoral tende a gerar grande volatilidade em setores como o mercado financeiro.
Câmbio e alimentos podem pesar na inflação
No boletim Focus, a projeção para a taxa de câmbio ao final de 2026 está em R$ 5,50, patamar levemente superior ao que era previsto para 2025 (R$ 5,44). O dólar é um fator que pode influenciar a inflação, já que impacta os preços de insumos e as cotações de commodities, por exemplo.
Por ora, Francisco prevê IPCA na faixa de 4,3% tanto em 2025 quanto em 2026. O pesquisador afirma que a inflação dos alimentos tende a mostrar uma “subidinha” em 2026, mas ele ainda enxerga incertezas para o cenário dos preços de maneira geral.
“A inflação vai depender de como vão se comportar coisas como a conta de luz, de como o governo vai mexer na gasolina”, aponta. “Diria que, se a inflação ficar abaixo deste ano [2025], não será por muito”, acrescenta.
Para o PIB, Francisco estima uma alta de 1,6% em 2026, após crescimento de 2,2% em 2025. Mesmo com a perspectiva de avanço menor da economia, ele não grande impacto na taxa de desemprego, que atingiu a mínima de 5,2% no trimestre até novembro, segundo dados divulgados nesta terça (30) pelo IBGE.
Francisco espera desocupação ainda em 5,2% no trimestre encerrado em dezembro de 2025 e em 5,1% nos três meses até dezembro de 2026.
“Por que o desemprego não deve subir? Quem vai contribuir mais para a desaceleração do PIB é a agropecuária, que não pega tanto o emprego”, diz o pesquisador.
Ele ainda lembra que o nível de desocupação não depende só da abertura ou do fechamento de vagas de trabalho. Também leva em consideração quantas pessoas estão efetivamente buscando oportunidades de inserção no mercado.
Como o Brasil passa por transição demográfica, com envelhecimento da população, a pressão da procura por trabalho sobre a taxa de desemprego tende a ser menor do que em períodos anteriores da série histórica, segundo o pesquisador.
Economia desacelera aos poucos
Para Rodolpho Tobler, que também é economista do FGV Ibre, o PIB vem perdendo força de maneira “suave”. Sem movimentos bruscos, não se espera uma piora substancial nos dados de emprego e renda em 2026, aponta Tobler.
Ele afirma que o desemprego pode ficar entre 6% e 6,5% ao longo do novo ano, o que ainda é um nível baixo para os padrões históricos.
A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, avalia que o mercado de trabalho continuará forte. De acordo com ela, a taxa de desemprego deve terminar 2025 e 2026 abaixo de 6%.
“Um mercado de trabalho sólido ajuda a sustentar a atividade econômica, o que é positivo para o país. Por outro lado, esse cenário traz desafios para o controle da inflação, principalmente no setor de serviços”, afirma.
Em 2025, o BC passou a perseguir a meta para o IPCA de maneira contínua, abandonando o ano-calendário de janeiro a dezembro.
No novo modelo, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro do alvo é 3%.
O IPCA estourou a meta contínua pela primeira vez em junho. O índice, contudo, retornou para o patamar inferior a 4,5% em novembro.
Antes de o IBGE divulgar nesta terça a taxa de desemprego do trimestre até novembro (5,2%), o banco Daycoval esperava desocupação de 5,3% para os três meses até dezembro de 2025 e de 5,5% para igual período de 2026. Na média anual, as projeções estavam em 5,9% para 2025 e 5,7% para 2026.
Já o economista Sergio Vale, da MB Associados, estimava a média anual em 6% em 2025 e 6,5% em 2026.
Com informações da Agência Brasil
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