Quase 30% das mortes por influenza no Brasil em 2026 foram registradas nas últimas 2 semanas: ‘Doença do meu filho progrediu rápido demais’

Há pouco mais de um mês, o auxiliar de produção Eliseu Gomes de Souza Camargo, de 46 anos, tenta encontrar forças para seguir a vida após perder o filho Bryan, de 13 anos, vítima de uma infecção causada pelo vírus influenza, responsável pela gripe.

O menino apresentou os primeiros sintomas em 30 de março, quando começou a reclamar de dores no corpo e cansaço.

“Inicialmente, medicamos ele em casa e ficamos acompanhando”, conta Eliseu.

“No dia seguinte, ele teve febre e o levamos ao pronto-atendimento, onde foi medicado e depois voltou para casa.”

Segundo a família, nos dias seguintes, as dores no corpo — principalmente nas costas — e a falta de ar pioraram. O adolescente foi levado novamente a um pronto-socorro em Sorocaba, no interior de São Paulo.

“Ele chegou debilitado, com muita falta de ar. Foi quando pediram um exame e o Bryan foi diagnosticado com Influenza A. Ele foi internado, intubado e a doença progrediu rápido demais”, recorda o pai.

Durante a internação, Bryan sofreu duas paradas cardíacas e, em 6 de abril, não resistiu.

“A saturação dele caiu muito, e ele já não respondia mais às medicações. A partir daí, tivemos certeza de que já o tínhamos perdido. Quando ele teve a última parada cardíaca, já não havia mais o que fazer”, lamenta Eliseu.

O caso de Bryan está entre as 505 mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) associadas aos vírus Influenza A e B registradas no Brasil de janeiro a maio deste ano, segundo dados do Ministério da Saúde.

Desse total, 136 mortes, ou 27% do total, foram confirmadas apenas nas duas últimas semanas. Isso não significa, necessariamente, que os óbitos ocorreram nesse período, mas que tiveram a causa identificada recentemente.

No mesmo período de 2025, entre janeiro e maio, o país registrou 776 mortes por SRAG associadas à influenza.

Especialistas alertam, no entanto, que o número de óbitos relacionados ao vírus pode ser ainda maior.

Isso porque 1.344 mortes por SRAG registradas neste ano não tiveram o agente causador identificado — além da influenza, a síndrome respiratória aguda grave também pode ser provocada por vírus como covid-19, rinovírus e vírus sincicial respiratório (VSR).

Os números indicam também aumento no total de casos em relação ao ano passado. Em 2026, o Brasil já registrou até agora 7.749 casos de SRAG por influenza, sendo 256 pelo vírus H1N1, 1.903 por H3N2, 4.892 por Influenza A não subtipada e 698 por Influenza B.

Em 2025, de janeiro a maio, haviam sido registrados 6.250 casos.

No sábado (30/5), Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe foi concluída com número bem abaixo da meta: apenas de 38,5% do publico-alvo (crianças com menos de seis anos, idosos e gestantes) foi vacinado. A meta era vacinar 90% – uma cobertura vacinal não alcançada pelo Brasil desde 2021.

Médicos entrevistados pela BBC News Brasil afirmam que o aumento de casos nesta época do ano é esperado devido à sazonalidade dos vírus respiratórios, comum durante o outono e o inverno.

O clima mais seco e as temperaturas mais baixas favorecem a transmissão porque as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados e as vias respiratórias ficam mais vulneráveis.

Neste ano, contudo, houve uma antecipação da sazonalidade da gripe em algumas regiões do país, o que contribuiu para a ocorrência de casos graves e o aumento de internações nas últimas semanas.

A antecipação da sazonalidade viral é um fenômeno que pode ser influenciado por diversos fatores, entre eles mudanças abruptas do clima, baixa imunidade da população e maior circulação de pessoas — fazendo com que o vírus circule mais.

Isso pode dar a impressão de que a gripe está “mais forte” este ano, mas, segundo especialistas, não há evidências de que o vírus tenha se tornado mais letal.

“A princípio, não há evidência de mudança importante no perfil viral em relação ao ano passado. As cepas circulantes permanecem semelhantes às observadas em 2025”, afirma Juliana Lapa, infectologista e membro do Comitê de Infecções Respiratórias da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

De acordo com ela, os números seguem um padrão semelhante ao observado em anos anteriores, tanto em quantidade de casos quanto em gravidade.

Segundo Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e Grupo Santa Joana, o hospedeiro do vírus é um fator importante para determinar a gravidade da infecção.

Crianças, idosos, pessoas com comorbidades, como diabetes e asma, ou que fazem uso de tabaco podem apresentar quadros mais graves, por exemplo.

“Também podem ocorrer casos de coinfecção, quando a pessoa pega mais de um vírus ao mesmo tempo, que também contribui para o agravamento.”

Tipos de vírus

A médica Juliana Lapa, explica que a síndrome respiratória aguda grave (SRAG) ocorre quando a infecção respiratória compromete severamente os pulmões e pode levar à insuficiência respiratória.

“Isso pode acontecer tanto pelo dano direto causado pelo vírus quanto por uma resposta inflamatória exacerbada do sistema imunológico. Além disso, esses pacientes apresentam maior risco de complicações secundárias, como pneumonia bacteriana”, afirma.

Segundo ela, embora diferentes vírus respiratórios possam causar quadros graves, a Influenza A costuma gerar maior preocupação devido à alta capacidade de mutação e disseminação.

Isso dificulta a criação de anticorpos duradouros pelo organismo e favorece reinfecções, fazendo com que uma pessoa possa contrair o vírus mais de uma vez.

Além disso, o Influenza A consegue circular entre humanos e diferentes espécies animais, como aves e suínos, característica que amplia a possibilidade de novas combinações genéticas.

Essa recombinação genética acontece quando uma célula é infectada por dois subtipos diferentes do vírus ao mesmo tempo. Isso é possível porque o genoma do influenza A é segmentado em moléculas distintas, possibilitando que esses segmentos se misturem durante a multiplicação do vírus dentro do hospedeiro, gerando uma nova cepa com características inéditas.

Foi justamente essa característica do vírus Influenza A que permitiu o surgimento de pandemias históricas, como a de gripe espanhola de 1918 e a de H1N1 de 2009.

Os subtipos H1N1 e H3N2 pertencem ao grupo Influenza A e são atualmente os mais comuns entre humanos e podem provocar complicações severas, principalmente em crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.

O H1N1 ficou conhecido mundialmente após a pandemia de 2009, quando um vírus de origem suína se espalhou rapidamente pelo mundo. Desde então, passou a circular sazonalmente junto às demais variantes da gripe.

Especialistas explicam que o subtipo costuma estar associado a inflamações pulmonares graves e rápida piora respiratória, especialmente em grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas ou com doenças crônicas. Em muitos casos, os sintomas surgem de forma abrupta, com febre alta, dores intensas no corpo e rápida piora respiratória.

Já o H3N2 é conhecido pela elevada transmissibilidade e pelo impacto significativo entre idosos, já que essa população costuma apresentar um sistema imunológico mais fragilizado. Esse subtipo sofre mutações frequentes, dificultando a manutenção da imunidade coletiva por longos períodos.

Surtos de H3N2 já foram associados ao aumento da mortalidade entre idosos e à pressão sobre sistemas hospitalares. Em ambientes fechados, como asilos e hospitais, a disseminação costuma ocorrer rapidamente.

Embora os sintomas sejam semelhantes aos do H1N1, especialistas afirmam que o H3N2 apresenta maior capacidade de escapar parcialmente da proteção imunológica adquirida em infecções anteriores devido às mutações frequentes

“A influenza A possui maior capacidade de variação antigênica, o que favorece reinfecções frequentes e o surgimento de novas variantes”, detalha Lapa.

O Influenza B, por sua vez, apresenta comportamento diferente. Ele circula quase exclusivamente entre humanos e sofre menos mutações do que o tipo A.

Apesar de ser considerado menos agressivo e possuir menor potencial pandêmico, o vírus também pode provocar hospitalizações, complicações respiratórias e mortes.

Além da síndrome respiratória aguda grave, a influenza pode causar pneumonia viral, insuficiência respiratória e agravamento de doenças cardiovasculares e metabólicas.

“O vírus pode causar uma inflamação do endotélio, a camada interna dos vasos sanguíneos, fazendo com que qualquer placa de gordura que tenha nesse vaso sanguíneo se solte. Essa placa fica na corrente sanguínea, podendo ir para o cérebro e causar um AVC ou para o coração, causando um infarto”, acrescenta Richtmann.

Vacinação em baixa

A redução progressiva da adesão à vacinação contra a Influenza nos últimos anos tem chamado a atenção de especialistas.

A falta de vacinação favorece a circulação viral, além de deixar a população mais suscetível e, consequentemente, levar a um maior número de infectados.

Segundo Lapa, a baixa procura pela vacina é um fator multifatorial, mas foi impulsionado principalmente pela desconfiança com as vacinas, que se intensificou após a pandemia de covid-19.

“A desinformação fez com que muitas pessoas passassem a desconfiar das vacinas e isso vem desde a pandemia onde a vacinação foi sendo deixada de lado. Prova disso, é o sarampo, que era erradicado, mas que voltou a aparecer no Brasil devido à falta de vacinação”, pontuou Lapa.

A Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza teve início em 28 de março e seguiu até 31 de maio. A campanha era válida para as regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste – a região Norte tem um calendário próprio devido ao inverno amazônico a partir de dezembro.

“Iniciamos a campanha priorizando as crianças, gestantes e idosos com 60 anos ou mais, que são os grupos mais vulneráveis. Mas ainda notamos uma baixa procura da população pela imunização”, explica Ana Catarina de Melo Araújo, Coordenadora-Geral de Incorporação Científica e Imunização do Ministério da Saúde.

Os dados do Ministério da Saúde mostram que apenas 18,2 milhões das 47,4 milhões de doses disponíveis para o público-alvo foram aplicadas. Isso representa apenas 38,5% das pessoas vacinadas, bem abaixo da meta de 90%.

O último ano que o Brasil conseguiu atingir essa taxa de cobertura vacinal foi em 2020.

Na campanha de vacinação de 2025, foram aplicadas até junho 40,8 milhões de doses, o que representa 41,28% da população-alvo (idosos, crianças e gestantes). Nenhum estado atingiu a meta que era de vacinar 90% desse público.

A vacinação contra a influenza é realizada anualmente, pois o vírus sofre mutações constantes e a imunidade diminui com o tempo.

A campanha desenvolvida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é focada em proteger os grupos de risco contra complicações e óbitos.

Inicialmente, crianças, idosos e outros grupos considerados prioritários pelo Ministério da Saúde como profissionais de saúde, professores e pessoas com comorbidades podem receber o imunizante gratuitamente.

Com o passar das semanas, outros grupos podem ser adicionados para receber a vacina pelo SUS, de acordo com a demanda de cada cidade e o estoque de imunizantes.

O imunizante oferecido pelo SUS é trivalente, ou seja, protege contra três cepas do influenza, duas do tipo A e uma do tipo B.

Desde o dia 18 de maio, pessoas de todas as idades da cidade de São Paulo podem ser vacinada contra a influenza. Outras capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campo Grande, Belém, Palmas e Porto Velho, já ampliaram o público que pode se vacinar gratuitamente.

Pessoas que não pertencem aos grupos que estão recebendo a vacina gratuitamente pelo SUS podem adquirir o imunizante na rede particular. O valor varia de acordo com a cidade, mas pode ser encontrado a partir de R$ 80.

Nesse caso, há duas opções: a vacina trivalente e também a quadrivalente — esta protege contra quatro cepas do influenza: duas do tipo A (H1N1 e H3N2) e duas do tipo B.

Apesar de proteger contra um tipo a mais de vírus, os especialistas afirmam que a trivalente é suficiente.

“Uma das cepas do tipo B que a vacina quadrivalente protege é a Yamagata que não circula mais desde a pandemia, então não há a necessidade de tomar a vacina quadrivalente. A trivalente é suficiente”, explica Richtmann.

Com informações do Correio Braziliense

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