Atacado pelos EUA, Pix teve embrião no governo Dilma e virou símbolo do Brasil

Os ataques do governo dos Estados Unidos ao Pix voltaram a colocar no centro do debate a origem do sistema de pagamentos instantâneos que revolucionou as transações financeiras no Brasil. A ofensiva norte-americana, que resultou na conclusão de uma investigação comercial contra o país, reacendeu disputas políticas e levantou questionamentos sobre quem idealizou e desenvolveu a tecnologia que se tornou um dos maiores casos de sucesso do sistema financeiro brasileiro.

Segundo reportagem publicada pela BBC Brasil, reproduzido pela Folha de S.Paulo, o Pix foi concebido e desenvolvido pelo Banco Central ao longo de vários anos, atravessando diferentes governos até seu lançamento oficial em novembro de 2020. Embora tenha entrado em operação durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, as primeiras discussões sobre pagamentos instantâneos surgiram ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

A polêmica ganhou força após o governo dos EUA afirmar, em relatório divulgado nesta semana, que o Brasil teria favorecido o Pix em detrimento de empresas americanas de meios de pagamento. Em resposta, lideranças políticas brasileiras passaram a disputar a narrativa sobre a criação do sistema.

Lula e Bolsonaro disputam narrativa sobre o Pix

Durante um evento em Goiás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil” e criticou as medidas adotadas pelo governo americano.

“Viram que eu entrei aqui com essa faixa: ‘O Pix é do Brasil’. É porque ontem, o presidente americano, numa atitude intempestiva —porque nós estávamos negociando depois da minha visita ao presidente [Donald] Trump— de forma intempestiva, anunciou um aumento de taxação das coisas brasileiras para 25%, com base numa mentira”, declarou Lula.

Na mesma ocasião, o presidente acrescentou: “Eu falei para ele: ô, Trump, ô cara, ao invés de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar nos EUA. Faz um Pix para nós.”

Um dia depois, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro” durante evento em Minas Gerais e defendeu o legado do ex-presidente Jair Bolsonaro na implementação do sistema.

As origens do sistema de pagamentos

Embora o Pix tenha sido lançado oficialmente em novembro de 2020, sua história começou anos antes. De acordo com documentos do Banco Central, a primeira referência à necessidade de um sistema de pagamentos instantâneos apareceu em 2014, quando o órgão apontou a importância de desenvolver soluções que permitissem transferências em tempo real, de forma contínua e com baixo custo.

Naquele momento, o projeto ainda não tinha nome nem formato definido, mas o conceito que daria origem ao Pix já começava a ser estudado pelos técnicos da autoridade monetária.

O desenvolvimento efetivo do sistema teve início em maio de 2018, durante o governo Michel Temer. Na ocasião, o Banco Central instituiu um grupo de trabalho voltado à construção de um ecossistema de pagamentos instantâneos considerado competitivo, seguro, eficiente e inclusivo.

Grupo de trabalho reuniu mais de 130 participantes

A Portaria nº 97.909, publicada em maio de 2018, criou formalmente o Grupo de Trabalho para Pagamentos Instantâneos (GT-PI). O documento já trazia conceitos fundamentais que mais tarde seriam incorporados ao Pix.

Entre as diretrizes estabelecidas estava a operação contínua da infraestrutura de liquidação pelo Banco Central, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, durante todo o ano.

Segundo o próprio Banco Central, essa iniciativa representou a primeira etapa concreta para a implementação dos pagamentos instantâneos no país. O grupo recebeu contribuições de mais de 130 participantes do mercado financeiro e de setores interessados no desenvolvimento da nova ferramenta.

Desenvolvimento avançou no governo Bolsonaro

Em dezembro de 2018, ainda no fim da gestão Temer, o Banco Central publicou o Comunicado nº 32.927, que estabeleceu requisitos considerados essenciais para a futura plataforma de pagamentos instantâneos.

Já durante o governo Bolsonaro, a partir de outubro de 2019, começou o desenvolvimento da infraestrutura tecnológica necessária para viabilizar o sistema.

O nome Pix foi apresentado oficialmente em fevereiro de 2020. Segundo o Banco Central, a marca foi inspirada nos conceitos de tecnologia, transação e pixel, simbolizando a conexão entre os agentes do sistema financeiro e a modernização dos meios de pagamento.

Lançamento transformou hábitos financeiros

Em outubro de 2020, teve início o cadastramento das chaves Pix pelos primeiros usuários. Pouco depois, em 3 de novembro, o sistema começou a funcionar de forma restrita.

A operação plena foi iniciada em 16 de novembro de 2020, marcando uma profunda mudança na maneira como brasileiros realizam transferências financeiras.

Curiosamente, um mês antes da estreia oficial, o então presidente Jair Bolsonaro demonstrou não conhecer detalhes do novo sistema quando foi cumprimentado por um apoiador. Após receber explicações sobre o funcionamento da ferramenta, respondeu: “Não tomei conhecimento, vou conversar essa semana com o [então presidente do BC] Roberto Campos”.

Números mostram expansão acelerada

Desde sua criação, o Pix registrou crescimento exponencial. Dados do Banco Central mostram que mais de 170 milhões de brasileiros já utilizaram o sistema, número equivalente a cerca de 80% da população.

Até outubro do ano passado, o volume movimentado por meio da plataforma ultrapassou R$ 3 trilhões. Apenas em janeiro deste ano, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações.

O recorde diário ocorreu em 12 de dezembro de 2025, quando o sistema processou 313 milhões de operações em apenas 24 horas.

Referência internacional em inovação financeira

O sucesso do Pix transformou o Brasil em referência global em meios de pagamento digitais. O modelo passou a inspirar iniciativas semelhantes em outros países, incluindo a Colômbia.

A pesquisadora Polina Kempinsky afirmou à BBC News Brasil que o país se tornou conhecido internacionalmente por seus bancos digitais e pelo ecossistema de inovação financeira impulsionado pelo sistema.

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, também elogiou a ferramenta. Segundo ele, o Pix oferece transferências quase instantâneas e custos reduzidos, características que podem servir de exemplo para outras nações.

Críticas dos EUA e defesa do setor bancário

Na conclusão da investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o governo dos Estados Unidos argumenta que o Brasil teria favorecido o Pix em prejuízo de empresas americanas do setor de pagamentos eletrônicos.

O documento afirma que o Banco Central atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, o que, segundo os americanos, criaria um conflito de interesses. O relatório também critica a exigência de destaque ao Pix nos aplicativos das instituições financeiras e a gratuidade do serviço para usuários.

“O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix”, afirma o documento.

Em resposta, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contestou as conclusões da investigação. Em nota, a entidade afirmou que o relatório se baseou em “informações incompletas” e ressaltou que o Pix é uma infraestrutura pública destinada a ampliar a competição, reduzir custos e promover a inclusão financeira.

As críticas ao sistema fazem parte de um conjunto mais amplo de questionamentos comerciais apresentados pelos Estados Unidos, que propõem a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. As negociações entre os dois países devem prosseguir até 15 de julho.

Com informações do portal Gov.br

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