Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, defende ocupação total do território palestino, mesmo que isso coloque em perigo a vida dos civis em poder do grupo terrorista Hamas. Especialista alerta para graves consequências da estratégia
Nada mais parece assustar Abood AbuSalama. “Nós vivemos o genocídio com nossos próprios olhos. Vimos a morte em mil formas, mil vezes. Crianças foram esmagadas sob os escombros e pessoas inocentes, queimadas vivas sem motivo. As decisões cruéis de Benjamin Netanyahu não significam mais nada para nós — que tipo de destruição ele poderia acrescentar? Aumentará o número de mortos? Ou demolirá as ruínas que já estão em ruínas?”, desabafou ao Correio o fotógrafo palestino de 28 anos, morador da Faixa de Gaza. AbuSalama fazia menção à decisão do primeiro-ministro de Israel tomada nesta terça-feira (5/8), após reunião de três horas com o chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir. Netanyahu anunciou ser a favor da “conquista total” da Faixa de Gaza, ainda que isso coloque em perigo os reféns remanescentes do grupo terrorista Hamas, dos quais 20 estariam vivos.
Segundo o jornal The Jerusalem Post, a reunião de ontem entre o premiê e o chefe do Estado-Maior foi marcada pela tensão. “Nós precisamos modificar a abordagem tomada até agora, somente depois seremos capazes de libertar os reféns”, declarou Netanyahu. Zamir respondeu que a decisão de buscar a completa ocupação da Faixa de Gaza pode dar vazão a uma “armadilha estratégica”.
Mais cedo, durante visita a uma base militar, Netanyahu especificou o que pretendia. “É necessário derrotar totalmente o inimigo em Gaza, libertar todos os nossos reféns e garantir que Gaza não constitua mais uma ameaça para Israel”, declarou. “Netanyahu quer que o Exército israelense conquiste toda a Faixa de Gaza”, informou a rádio pública israelense Kan, ao citar autoridades do governo de Netanyahu, sob a condição de anonimato. A mesma emissora divulgou que vários membros do gabinete confirmaram que o primeiro-ministro “decidiu estender os combates para as zonas onde os reféns podem estar detidos”.
A estratégia das Forças de Defesa de Israel (IDF), segundo o jornal Maariv, é começar a combater em zonas, dentro de Gaza, que foram poupadas durante a guerra, ante o temor de colocar a segurança dos reféns em xeque.
A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que os planos de ocupação total de Gaza são “profundamente perturbadores, caso sejam verdadeiros”. De acordo com Miroslav Jance, secretário-geral adjunto da ONU para Europa, Ásia Central e Américas, essa manobra “poderia representar consequências catastróficas e colocar ainda mais em perigo a vida dos reféns”. “Não temos medo das decisões de Netanyahu — estamos apenas cansados. Cansados da guerra, dos bombardeios, do medo, da fome, do som dos drones, de perder aqueles que amamos, de assistir às crianças morrerem de fome, das mães buscando seus filhos em meio aos escombros”, relatou AbuSalama. “Estamos cansados de uma vida que se assemelha à morte e de uma morte que não nos surpreende mais.”
Também jornalista em Gaza, Mohammed Hassam Qita, 30 anos, disse ao Correio acreditar que, caso Israel reconheça a ocupação total em Gaza, será responsabilizado diretamente pela fome da população. “A passagem da fronteira de Rafah está agora sob o controle direto de Israel, ao contrário do que alegou perante a Corte Internacional de Justiça, ao citar uma ‘operação militar limitada'”, disse à reportagem.
Pesadelo
“Se Israel reocupar Gaza, isso será nada menos do que um pesadelo para o país. Israel terá que alimentar mais de 2 milhões de palestinos. Também precisará reconstruir a infraestrutura de Gaza e todas as instituições necessárias para o funcionamento do território”, afirmou ao Correio, por e-mail, Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York e especialista em Oriente Médio. Ele adverte que Israel não pode esperar nenhum tipo de ajuda dos Estados árabes nesse sentido. “Além disso, assim como ocorre na Cisjordânia, os palestinos não vão parar de aterrorizar os israelenses. Na minha opinião, criarão um inferno para Israel pelos próximos anos”, disse Ben-Meir.
Para o professor, ainda que a expulsão dos palestinos de Gaza seja algo extremamente improvável, o mundo inteiro ficaria em pé de guerra, neste eventual cenário. “Muitas nações anunciariam severas sanções a Israel. Os Estados árabes, em paz com Israel, provavelmente romperiam relações diplomáticas com o governo Netanyahu.”
VOZES PALESTINAS

“O plano do governo Netanyahu de ocupar totalmente a Faixa de Gaza é a continuação de uma política colonial e genocida. Transformar Gaza — destruída e sitiada — em território militarmente controlado é um crime contra o povo palestino e uma ameaça à paz regional. O mundo e suas instituições legais têm a obrigação moral e efetiva de intervir para pôr fim à fome, à destruição e às intenções expansionistas de Israel. Se Trump pôde agir com força por Israel, contrariando o clamor mundial pelo fim do genocídio, também pode — e deve — agir pela justiça e pelos direitos do povo palestino.”
Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil

“Ao longo dos últimos dois anos, temos vivido o que somente pode ser descrito como um brutal e lento apagar da vida. Não se trata apenas da guerra — é a fome, o deslocamento forçado, o trauma, os funerais dários. Cada dia parece uma luta pela sobrevivência. Perdemos casas, famílias, futuros. Ainda assim, acordamos e tentamos de novo, porque não temos outra escolha. Tenho medo de morrer antes de fazer uma diferença real no mundo. Medo de ser esquecido, de o sofrimento do meu povo ser ignorado, de sua dor continuar sem fim. Mas, aqui em Gaza, o medo torna-se parte do cotidiano. Vivemos sob bombas, fome e perdas.”
Hassan Salem, 25 anos, jornalista e voluntário humanitário, morador do campo de refugiados de Jabaliya

“A ocupação da Faixa de Gaza é uma decisão racista e autoritária, e a continuação de uma abordagem colonialista de Netanyahu. Acho que ela terá consequências importantes. Se uma área for declarada ocupada por Israel, a responsabilidade de fornecer alimentos, comida, água, medicamentos e serviços básicos recai sobre o ocupante, segundo o direito internacional. Isso é algo que Israel rejeitou desde o início da guerra. Israel busca impor o que chama de ‘migração voluntária’. No entanto, se for oficialmente declarado potência ocupante, o termo se transformará legalmente em ‘deslocamento forçado’, algo que Israel teme e tenta evitar.”
Mohammed Hassan Qita, 30 anos, morador da Cidade de Gaza
Com informações do Correio Braziliense
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