A deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG) publicou um vídeo, na noite desta quinta-feira (10/4), após ser atingida por gás de pimenta durante uma manifestação do Acampamento Terra Livre, em frente ao Congresso Nacional.
Nas imagens, Célia passa mal após inalar o gás. A parlamentar repete várias vezes que é deputada federal, mas não tem a passagem liberada de volta ao Congresso. A parlamentar relata que foi “impedida de sair do local, constrangida, agredida e precisou de atendimento médico na Câmara dos Deputados”.
“Esse episódio escancara o que temos denunciado há muito tempo: a violência do Estado contra os povos originários e o racismo institucional que marca as estruturas de poder deste país. Também é violência política de gênero, num país em que ser mulher indígena no Parlamento é resistir diariamente ao apagamento”, escreveu a deputada na publicação.
O confronto entre as polícias Legislativa e Militar e os manifestantes ocorreu no começo da noite de quinta-feira. Em nota, a Câmara dos Deputados informa que os policiais foram acionados após os indígenas derrubarem os gradis e avançarem para o gramado do Congresso Nacional. No entanto, o Acampamento Terra Livre não confirma que os manifestantes descumpriram o perímetro combinado.
“O Congresso, além de aprovar leis inconstitucionais, ataca os povos indígenas e seus próprios deputados. A deputada indígena Célia Xakriabá (PSOL) e várias pessoas ficaram feridas ao serem recebidas com bombas de gás de pimenta e efeito moral, no local que deveria ser a casa da democracia. Lamentamos o uso desnecessário de substâncias químicas contra os manifestantes, mulheres, idosos, crianças e lideranças tradicionais”, diz a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Confira a nota completa no fim da matéria.
Célia recebeu apoio de aliados após o episódio. A deputada federal Érika Hilton (Psol-SP) condenou o episódio e o classificou como “revoltante” e “lamentável”. “Estive hoje com você e seguirei ao seu lado para que medidas sejam tomadas diante dessa violência e desrespeito praticado contra você e nossos irmãos indígenas”, escreveu.
O deputado Pastor Henrique Vieira (Psol-SP) também comentou na publicação. “Célia é uma deputada federal eleita pelo povo de MG e merece ser respeitada como tal”, disse.
A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, pediu respeito com a deputada. “Estamos juntas”, escreveu.
O que dizem as forças de segurança
As Polícias Legislativas Federais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal usaram agentes químicos para conter os indígenas. De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar do DF, duas mulheres foram atendidas com mal súbito. “Uma foi transportada para a UPA de São Sebastião e a outra para o IHBDF. Estavam conscientes, orientadas e estáveis”, diz nota da corporação. O caso da deputada não foi notificado pelos Bombeiros, já que ela recebeu atendimento médico dentro da Câmara dos Deputados.
A assessoria da Câmara dos Deputados informou que a ação dos policiais legislativos foi tomada para impedir a entrada no Congresso Nacional. “O acordo com o movimento indígena, que reúne lideranças de diferentes etnias do país, era que os cerca de 5 mil manifestantes chegassem apenas até a Avenida José Sarney, anterior à Avenida das Bandeiras, que fica próxima ao gramado do Congresso. Mas, parte dos indígenas resolveu avançar o limite. A situação já foi controlada e o policiamento das duas Casas Legislativas, reforçado”, disse a Câmara dos Deputados.
A assessoria da Presidência do Senado Federal declarou que a dissuasão dos manifestantes foi realizada exclusivamente por meios não letais e a ordem foi restabelecida. “A Presidência do Congresso Nacional reforça seu respeito aos povos originários e a toda e qualquer forma de manifestação pacífica. No entanto, é indispensável que seja respeitada a sede do Congresso Nacional e assegurada a segurança dos servidores, visitantes e parlamentares”, diz nota.
Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal afirmou que durante toda a semana realizou o acompanhamento e policiamento das manifestações. “Na data de hoje (10), ao final da manifestação, os manifestantes adentraram à área de segurança do Congresso Nacional, momento em que a segurança do Congresso Nacional, a Polícia Legislativa, atuou com material químico”, disse a corporação.
O que diz a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)
“A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) repudia de forma veemente os atos de violência do Congresso anti-indígena, cometidos pelo Departamento de Polícia Legislativa (DPOL) e pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) na tarde desta quinta-feira, 10, durante a marcha “A Resposta Somos Nós”, que faz parte da programação do Acampamento Terra Livre (ATL).
O Congresso, além de aprovar leis inconstitucionais, ataca os povos indígenas e seus próprios deputados. A deputada indígena Célia Xakriabá (PSOL) e várias pessoas ficaram feridas ao serem recebidas com bombas de gás de pimenta e efeito moral, no local que deveria ser a casa da democracia. Lamentamos o uso desnecessário de substâncias químicas contra os manifestantes, mulheres, idosos, crianças e lideranças tradicionais.
Temos evidências de que os atos fazem parte de um contexto de violência institucional disseminada contra os povos indígenas. Ontem, durante reunião convocada pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), para tratar da organização da marcha do dia de hoje, um participante não-identificado proferiu manifestação de cunho racista e de incitação à violência: “deixa descer logo… deixa descer e mete o cacete se fizer bagunça”. Conforme registrado em gravação obtida por solicitação da APIB após a reunião, a fala foi proferida por um provável agente das forças de segurança.
Hoje, o acesso ao gramado do Congresso Nacional por parte dos manifestantes ocorreu de forma espontânea, sem qualquer ato de violência, depredação ou rompimento de barreira. A APIB reforça o caráter pacífico e democrático da manifestação, que reuniu mais de 7 mil lideranças indígenas de diferentes povos de todo o país.
A mobilização teve como objetivo a defesa de direitos constitucionais e o fortalecimento do diálogo com os Poderes da República. O Acampamento Terra Livre é realizado há mais de 20 anos na capital federal, sempre com forte organização, compromisso e respeito às instituições democráticas. Ao longo dessas mais de duas décadas, o movimento indígena sempre colaborou e continuará colaborando para garantir que o evento ocorra de forma tranquila e segura”.
Marcha indígena
Indígenas de todo o país marcharam do Complexo Cultural Íbero Americano até a Praça dos Três Poderes, nesta quinta-feira (10/4). A mobilização integra a 21ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado de 7 a 11 de abril, na capital federal.
O tema da marcha foi “A resposta somos nós”. Segundo os indígenas, o objetivo da mobilização foi mostrar ao governo e à sociedade a necessidade de agir contra a crise climática. Eles reivindicam o fim da era dos combustíveis fósseis, uma transição energética justa e o reconhecimento da importância dos povos originários e dos territórios tradicionais para a preservação da natureza.
Com informações do Correio Braziliense
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