O delicado trabalho de restauração da Praça dos Três Poderes

As obras de restauração da Praça dos Três Poderes avançam em várias frentes, mas uma das etapas mais delicadas e minuciosas está na recuperação do tradicional piso de pedras portuguesas. Feito inteiramente de forma manual, o trabalho exige que cada pedra seja analisada, separada e recolocada uma por uma pelos trabalhadores. A última reforma foi em 1985.

O Correio acompanhou as etapas da obra e conversou com os profissionais envolvidos no processo. A restauração é supervisionada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A condução técnica está sob responsabilidade do Instituto Pedra, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Petrobras, por meio da Lei Rouanet. Já a execução dos trabalhos é realizada pela Concrejato Engenharia.

chefe de gabinete adjunto da Presidência da República, Swedenberger Barbosa, destacou que a iniciativa parte do governo federal em parceria com o órgão de preservação histórica. “O restauro e a recuperação é iniciativa da Presidência da República e do Iphan. A iniciativa é do órgão federal”, afirmou.

Atualmente, cerca de 20% da obra foi executada. Ao todo, são 1.328 quadrantes, de aproximadamente 22m² cada. A primeira fase do projeto ocorreu entre janeiro e abril deste ano. A previsão é de que a recuperação da praça seja concluída até dezembro, enquanto a segunda etapa, que inclui restauração de monumentos, deve ser entregue no primeiro semestre de 2027.

Além do piso, os serviços incluem recuperação dos espelhos d’água, monumentos, sistema de iluminação e melhorias voltadas para acessibilidade. Os recursos são integralmente viabilizados pela União.

O primeiro monumento restaurado na praça foi a escultura Os Candangos, obra em bronze de 8 metros de altura, criada por Bruno Giorgi em 1959. O restauro exigiu um processo específico de recuperação e a contratação de um especialista vindo de Porto Alegre.

Outros monumentos passarão por restauro, entre eles o Marco Brasília, a Herma de Israel Pinheiro, a Herma de Tiradentes e Cabeça de JK. Também estão previstos serviços no Pombal, no Espaço Lucio Costa e no Museu da Cidade.

Cinco etapas

A revitalização do piso segue cinco etapas executadas pelos trabalhadores. Tudo começa com a instalação dos tapumes informativos, que isolam e protegem o canteiro de obras. Em seguida, ocorre a retirada das pedras antigas. Com o auxílio de marteletes, os operários removem as peças deterioradas e também camadas de concreto aplicadas ao longo dos anos para tapar buracos deixados por estruturas de eventos montadas na praça.

A utilização de concreto, material inadequado para o piso, criou um problema que comprometeu parte das pedras originais, impossibilitando o reaproveitamento. Após a retirada, começa a fase da limpeza. As pedras passam por três recipientes diferentes. Primeiro, ficam imersas em água limpa. Depois, são colocadas em um balde com desincrustante diluído em água, onde permanecem por cerca de três a quatro minutos. Por fim, retornam para outro recipiente com água pura. O processo devolve a coloração branca original das peças.

Na sequência, o solo é compactado com máquinas. O terreno é rebaixado em, aproximadamente, 5cm e umedecido para receber novamente o piso. Só então começa o reassentamento das pedras. Os trabalhadores espalham a chamada “farofa”, mistura de areia e concreto, e recolocam as pedras uma por uma. Cada peça passa por seleção criteriosa antes de voltar ao chão.

Mais de 80% das pedras antigas estão sendo reaproveitadas. As que apresentam rachaduras, excesso de concreto, tamanho inadequado ou coloração muito escura são descartadas. As novas peças utilizadas na obra vêm do município de Sete Lagoas, em Minas Gerais.

“Voltar no tempo”

A arquiteta do Instituto Pedra, Laís Lobato, de 39 anos, acompanha de perto o andamento da restauração e afirma que o trabalho tem avançado conforme o planejado. “A obra está indo perfeitamente bem. Por enquanto, vamos focar mais na parte do piso e, à medida que a obra for avançando, vamos restaurar as edificações”, explicou.

Para ela, trabalhar na restauração da praça é, também, reviver a própria história de Brasília. “Estar aqui é quase como voltar no tempo e se sentir na construção de Brasília, como os candangos. Temos alguns trabalhadores aqui que são filhos de pessoas que ajudaram na construção de Brasília. É tipo uma história familiar. Obras de restauro têm essa alegria de trazer vida de volta”.

Engenheiro civil da Concrejato, Othon Daltro, 36, afirma que participar da obra representa um marco profissional. “É uma emoção estar numa cidade que abraça tanto as pessoas de fora, como eu, um carioca. Para mim, é muito importante estar fazendo um trabalho desse, que pesa tanto no currículo”, afirmou.

Entre os profissionais que atuam diretamente no piso está o calceteiro Afonso Henrique, 29. É ele quem passa horas abaixado encaixando manualmente cada pedra portuguesa.  O calceteiro é o profissional especializado em assentamento de pedras. “O serviço aqui, na praça, está excelente. Vamos continuar. Com exigência e paciência, a qualidade do serviço vai ficar melhor ainda. A produção média é um quadrante por dia finalizado, por cada dupla de funcionários”, contou. 

O assistente de engenharia Silvestre Alberone, 39, acompanha diariamente o trabalho das equipes e reforça a importância da segurança no canteiro. “Estou acompanhando o pessoal, orientando sempre usar Equipamento de Proteção Individual (EPI) para trabalhar com segurança e se prevenir. É gratificante ver esse trabalho. Todos trabalham sob um toldo para evitar a exposição ao sol, nesta época do ano”.

Com informações do Correio Braziliense

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