Inflação fica acima do teto da meta põe Banco Central em alerta

IPCA acumulado em 12 meses passa de 4,39%, em abril, para 4,72% em maio, e rompe o limite superior da meta, de 4,50%. Alta de preços entra no radar dos diretores do Banco Central que se reúnem na próxima semana

A menos de uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que definirá o futuro da taxa básica da economia (Selic) no país, dados divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a inflação oficial superou o teto da meta anual, de 4,5%, no acumulado dos últimos 12 meses até o mês passado. Especialistas consultados pelo Correio acreditam que o resultado acende um sinal de alerta para os diretores do Banco Central que se reúnem nos próximos dias 16 e 17.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve alta de 0,58%, em maio, o que representa uma leve desaceleração em relação ao aumento de 0,67% registrado em abril. Mesmo assim, a inflação ainda segue em ritmo de crescimento mais forte do que o esperado e acumula alta de 3,2% desde janeiro, acima do centro da meta, de 3%. Nos últimos 12 meses, o índice acumulado chegou a 4,72% no último mês, acima dos 4,39% contabilizados no mesmo período até abril.

A inflação dos alimentos segue como a principal vilã do IPCA neste ano, em razão da restrição à oferta de combustíveis no mundo inteiro devido ao conflito no Oriente Médio, deflagrado no fim de fevereiro. No mês passado, esse grupo registrou um aumento médio de 1,33% nos preços, o que, na prática, representa 0,29 ponto percentual (p.p.) no índice mensal. A alimentação no domicílio registrou uma variação de 1,65% no mês, com impacto maior da batata-inglesa (com alta de preços de 44,69%), do tomate (20,62%), da cebola (16,80%), e das carnes (1,39%).

Sobre o preço dos alimentos, o economista e professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Benito Salomão explicou que, apesar de haver um impacto do preço do frete mais caro, houve uma estabilidade no preço do diesel em maio, que caiu 2,34% no mês, depois de ter saltado 4,46% em abril. “Então, essa parte relacionada ao frete, essa parte da inflação explicada pelo aumento do frete tende a se estabilizar brevemente”, disse o acadêmico.

No geral, o preço médio dos combustíveis apresentou uma queda de 1,95%, em razão das isenções de imposto federal sobre diesel, gasolina e etanol, além de um alívio relativo em relação a abril, quando esses produtos tiveram uma alta de preços maior por conta do conflito no Oriente Médio. Ao todo, o grupo de transportes encerrou um mês com variação negativa de 0,46%, beneficiado pelos subsídios do governo que ajudaram a conter a alta dos preços dos combustíveis.

Apesar da perspectiva de fim da guerra no Irã estar mais próxima, outros fatores podem ter um peso maior no preço dos alimentos e na inflação, de maneira geral. A previsão de um El Niño mais intenso, no segundo semestre, pode impactar a próxima safra e, consequentemente, a oferta de produtos alimentícios no país, como ressalta o professor da UFU. “No segundo semestre está previsto um El Niño, que pode influenciar bastante o preço de alimentos, então, essas questões mais relacionadas com oscilações do lado da oferta, hoje, me preocupa mais do que a própria questão do petróleo”, ressaltou.

Já o grupo de habitação também acelerou nesse período e passou de 0,63% em abril para 1,22% em maio. A principal vilã foi a energia elétrica residencial, que subiu 3,67% no período e também contribuiu para o avanço maior do IPCA. Segundo o gerente da pesquisa, a inflação nesse grupo foi resultado direto de reajustes em determinadas áreas, além da vigência da bandeira amarela no país.

Em maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que abrange apenas a população que recebe até cinco salários mínimos, teve avanço de 0,65%, abaixo da elevação de abril, de 0,81%. Em 2026, o INPC acumula alta de 3,36%, enquanto que nos últimos 12 meses, o índice chega a 4,42%.

Juros mais altos

O aumento da inflação nos últimos três meses tem alterado as previsões para a taxa Selic neste ano. No boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, os agentes do mercado financeiro previam uma taxa básica de 12% ao ano em dezembro, no início do ano, e, no último relatório, divulgado na segunda-feira, a previsão estava em 13,5% anuais. Atualmente, a taxa Selic está em 14,5% ao ano, e a maioria dos analistas ainda prevê um corte de 0,25 ponto percentual, na próxima semana, mesmo com a possibilidade de manutenção ainda não estar descartada.

De acordo com Benito Salomão, o Copom deixou a “porta aberta” para um corte de mais 0,25 ponto percentual, na ata da última reunião, e os elementos que pressionaram a inflação neste mês já eram conhecidos pelo colegiado. “Esse corte de 0,25 ponto percentual está precificado já nos comunicados do Copom, e aí, talvez, a próxima ata pode anunciar o encerramento do ciclo monetário até essa situação da inflação convergir, de novo, para dentro da meta”, avaliou.

Para o professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto Luciano Nakabashi, o Copom deve ficar ainda mais cauteloso nas próximas reuniões. “Ou o ciclo de queda tende a parar mais cedo, ou eu acho que não seria o caso ainda, mas é até possível alguma possibilidade de dar uma parada já para esperar para ver o comportamento da inflação de uma forma geral e, claro, a questão da guerra”, destacou.

O professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo, ressaltou que o fenômeno da pressão inflacionária é mundial e isso estará no radar do Banco Central na próxima reunião do Copom. “Esse aumento do preço dos combustíveis vem impactando a inflação no mundo todo. E não é diferente aqui. Provavelmente, nos próximos dias e semanas nós veremos a queda do preço do combustível, caso a guerra entre Estados Unidos e Irã venha realmente a terminar. Isso tem um impacto muito grande no mercado internacional de petróleo”, comentou.

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