‘É uma candidatura absolutamente derrotada, fragorosamente derrotada, porque o que ele fez com a nossa cidade, a população jamais perdoará’, diz ex-governador Agnelo Queiroz sobre a desistência de Ibaneis Rocha da disputa pelo Senado

O ex-governador do Distrito Federal e pré-candidato a deputado federal pelo DF, Agnelo Queiroz (PT), participou, nesta segunda-feira (13), do podcast Galo Preto, comandado pelo jornalista Leandro Fortes. Em uma entrevista de quase uma hora, o ex-governador falou sobre a situação política na capital federal e comentou sobre sua possível volta ao cenário político após mais de dez anos.

Durante a entrevista, Agnelo foi indagado, inicialmente, sobre a decisão do ex-governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), que, na semana passada, anunciou sua desistência de disputar uma cadeira pelo DF no Senado. Segundo Agnelo, essa decisão já era esperada, uma vez que Ibaneis enfrenta forte rejeição em razão do envolvimento de seu governo com o falido Banco Master, que teria vendido títulos falsos ao Banco de Brasília, causando, com isso, um prejuízo de mais de R$ 12 bilhões ao banco estatal.

“A saída dele eu já esperava um pouco, porque é uma candidatura absolutamente derrotada, fragorosamente derrotada. Pelo que ele fez com a nossa cidade, a população jamais o perdoará. Ele vendeu a CEB a preço de banana e, hoje, há uma empresa que explora o nosso povo violentamente. Ele quebrou o BRB. Na verdade, não foi apenas isso: o nome correto é que houve um assalto ao BRB”, afirmou Agnelo.

O ex-governador ressaltou ainda que o ocorrido com o BRB comprometeu seriamente não só os cofres do banco, mas também os do próprio Distrito Federal, uma vez que o banco, que cuida dos servidores e dos pequenos comerciantes, é, segundo ele, um patrimônio do povo do Distrito Federal.

“Quando eu assumi, em 2011, o banco estava em uma situação de muita dificuldade. Havia matérias nos jornais dizendo que o banco seria vendido por R$ 1, aquela coisa. Eu não permiti isso. Recuperei o banco, fiz com que desse lucro, valorizei os servidores e coloquei na direção do banco pessoas muito comprometidas com a instituição. O resultado é que o banco deu lucro, mostrou ser eficiente, ampliou o financiamento para os agricultores e para a agricultura familiar. Enfim, desempenhou um papel importante. Ao destruir o BRB, ele não destruiu apenas o banco; está destruindo a economia do Distrito Federal e comprometendo, por muitos e muitos anos, a economia do Distrito Federal”, afirmou.

O exemplo mais explícito desse desfalque na economia local, segundo Agnelo, foi a declaração dada pelo secretário de Fazenda do DF, Valdivino José de Oliveira, que informou que haverá, neste ano, uma perda de recursos públicos de R$ 5 bilhões.

Congresso

Essa situação, que comprometeu a economia do DF, e agora a desistência do ex-governador Ibaneis Rocha de disputar as eleições, na opinião de Agnelo Queiroz, irão contribuir para que os partidos de esquerda, em especial o PT, possam voltar a ser uma das opções dos eleitores neste pleito. Para Agnelo, que irá disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, o aumento das bancadas do DF dos partidos de esquerda e de centro-esquerda, seja no Congresso Nacional ou na Câmara Legislativa do DF, deve ser a tendência natural no pleito de outubro.

“A população do Distrito Federal vai ter uma tarefa a mais, que é eleger senadores e senadoras progressistas para o Distrito Federal. Temos muita confiança nisso, porque isso pode ajudar tanto o governo Lula em um próximo mandato quanto a própria cidade. A cidade vai precisar de representantes no Congresso que tenham como primeira e mais importante obrigação ajudar a governabilidade, ajudar o Brasil, mas também ajudar o Distrito Federal, porque a situação aqui será de terra arrasada. Nós todos que temos vivência e experiência podemos ir para o Congresso, se a população permitir, claro, como a Érika [Kokay], como a Leila [Barros]”, destacou.

Ao comentar sobre sua pré-candidatura, Agnelo deixou claro que sua candidatura será para ajudar o DF no que ele chamou de “recuperação”. Ao exemplificar um possível mandato como deputado federal, Agnelo disse que sua atuação será na defesa e na captação de recursos para ajudar a sanear os cofres do DF.

“Do ponto de vista prático, primeiro, há uma parte do orçamento que vamos direcionar para tentar ajudar a nossa cidade. Mas a parceria com o governo federal será essencial para enfrentar as políticas futuras. Por exemplo, a saúde pública está em uma situação dramática”, lembrou Agnelo, que é médico de formação.

GDF

Ao comentar sobre a administração de Ibaneis Rocha e, agora, de sua sucessora, Celina Leão (PP), o ex-governador do DF disse que a gestão de ambos foi “incompetente” e que o exemplo mais candente dessa má gestão é a situação da saúde pública da capital.

“É um grau de desrespeito absoluto com o cidadão, já que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Pela Constituição, esse direito está assegurado na lei maior do país. O que eles estão fazendo é dramático. Então, se a gente entrar com a experiência administrativa de quem já tirou a nossa cidade da crise outras vezes, será possível, sim, com a ajuda do governo federal e do Ministério da Saúde, tentar recuperar a saúde pública daqui. E, assim, sucessivamente, firmar parcerias com a Secretaria de Educação para retomar as creches e ampliar novamente o ensino em tempo integral”, afirmou o petista.

Futuro

Mas o ex-governador disse que ainda há esperanças e que, para atingir novos objetivos, os governantes do DF deverão ter um relacionamento mais estreito com o governo federal, o que não teria ocorrido com o governo Ibaneis, que se pauta por sua oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O ex-governador ainda deu um exemplo de como deveria ter sido a gestão de Ibaneis: “O governo federal tem um programa de telemedicina espetacular, que está atendendo pessoas nos rincões do Brasil, no Marajó, no Amazonas e em regiões bastante distantes das áreas metropolitanas. Esse programa, que está sendo aplicado em quase todo o Brasil, não é implementado em Brasília. Nós temos uma crise profunda. A telemedicina poderia atender uma quantidade enorme de especialidades que podem ser contempladas por esse modelo, mas o governo daqui não quer. Então, é algo realmente incompreensível, diante de um grau de irresponsabilidade absurdo”, explicou.

“Acho que, do ponto de vista prático, é preciso ajudar na administração, trazer os programas federais para cá e contribuir na elaboração do orçamento, para que seja possível reforçar a nossa situação”, completou Agnelo.

Por fim, o ex-governador do DF salientou que, mesmo com todas as atrocidades e negligências cometidas pelos governos de Ibaneis e Celina Leão, ainda há possibilidades de reverter a situação “dramática” que a capital federal vive no momento, em especial na área da saúde pública.

“Então, é possível ter saúde pública de qualidade? É possível. Mas é preciso ter muito compromisso com a nossa população para investir na saúde pública. E vai apanhar muito da mídia corporativa quem investir na saúde pública”, ressaltou.

Confira abaixo a entrevista do ex-governador do DF, Agnelo Queiroz, na íntegra.

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