O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha tem ampliado sua atuação política em Minas Gerais por meio de uma rede de emissoras de rádio e enfrenta resistência entre integrantes do próprio partido, o Republicanos. As informações são da Folha de S.Paulo.
Segundo a reportagem, Cunha tem utilizado a estrutura da rede evangélica 89 Maravilha FM para fortalecer sua pré-campanha a deputado federal nas eleições de 2026, promovendo programas ao vivo, encontros com lideranças locais e visitas a municípios do interior mineiro.
A emissora inaugurou frequências em 32 cidades do estado até o mês passado e afirma alcançar cerca de 500 municípios, embora não tenha informado a metodologia utilizada para calcular o alcance.
A expansão da rede de rádios vem acompanhada de uma agenda política intensa. Durante inaugurações de novos estúdios, Cunha reúne representantes locais, como prefeitos, pastores e lideranças comunitárias, para participar de programas transmitidos ao vivo.
Em uma das agendas, realizada em Pouso Alegre, no Sul de Minas, o ex-deputado comentou temas políticos nacionais e deu declarações sobre o chamado caso Master. De acordo com a reportagem, Cunha minimizou informações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto criticou a participação do senador Jaques Wagner (PT-BA) no episódio.
Rádio como ferramenta de articulação política
As transmissões da emissora possuem forte presença política. Em uma das participações, Eduardo Cunha afirmou que a rádio possui posicionamento definido e declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro, que já concedeu entrevistas ao veículo.
Além da programação, a estrutura das emissoras passou a funcionar como ponto de encontro para prefeitos, vereadores e pré-candidatos do interior de Minas. Segundo a reportagem, Cunha recebe diversas lideranças municipais e inclui visitas a igrejas evangélicas em sua agenda pelo estado.
Outro ponto destacado é a destinação de emendas parlamentares durante seu mandato. Conforme investigações da Polícia Federal, Cunha direcionou recursos para 29 municípios mineiros. As verbas foram formalmente indicadas pela liderança do Republicanos na Câmara, embora apenas três cidades administradas pelo partido tenham recebido recursos.
Ao ser questionado, Eduardo Cunha afirmou que a distribuição das emendas não seguiu critérios partidários.
“O critério para distribuição não foi o partido que gere a cidade, mas o pedido de políticos locais”, declarou.
Desgaste dentro do Republicanos
Apesar da movimentação política, Cunha enfrenta resistência entre integrantes do Republicanos em Minas Gerais. Segundo relatos publicados pela Folha, antigos aliados e correligionários têm evitado uma aproximação mais intensa com o ex-deputado.
O avanço sobre regiões onde outros parlamentares da legenda possuem bases eleitorais também teria gerado desconforto interno.
O presidente estadual do Republicanos, Euclydes Pettersen, negou qualquer tentativa de barrar a candidatura de Cunha e afirmou que a decisão caberá aos eleitores.
“Não tenho como dar canetada [para barrar a pré-candidatura], não tenho esse poder. O nome dele será colocado à aprovação popular”, disse.
Histórico político e questões judiciais
A movimentação eleitoral ocorre enquanto Eduardo Cunha ainda enfrenta desdobramentos judiciais. Recentemente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões em bens do ex-deputado, valor relacionado a investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Cunha presidiu a Câmara durante o processo que resultou no impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Em 2016, foi preso no âmbito da Operação Lava Jato, acusado de envolvimento em esquemas de corrupção relacionados a contratos da Petrobras. Posteriormente, decisões judiciais anularam condenações contra ele.
Nas eleições de 2022, disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo, mas não conseguiu se eleger.
Mudança para Minas Gerais
Natural do Rio de Janeiro, Eduardo Cunha transferiu seu domicílio eleitoral para Minas Gerais para disputar as eleições de 2026, evitando concorrer diretamente com sua filha, a deputada federal Dani Cunha (PL-RJ).
O ex-deputado possui histórico no setor de radiodifusão e já participou de projetos ligados a emissoras evangélicas. Mesmo com a mudança eleitoral, mantém articulações políticas no Rio de Janeiro, principalmente junto a lideranças religiosas.



