Neymar nunca esteve fora da Seleção Brasileira. Toda a novela criada nos últimos meses – a cautela médica, a ausência em convocações anteriores, a conversa sobre “fim de ciclo” e até a tentativa de transformar sua situação em debate puramente técnico – terminou exatamente como a CBF queria: com aplausos, delírio popular, flashes, espetáculo e uma convocação transformada em evento de entretenimento global no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
A entrada de Carlo Ancelotti na sala e o anúncio do nome de Neymar foram tratados quase como uma coroação. E não por acaso.
A convocação mais apoteótica da história recente da Seleção não aconteceu apenas porque Neymar ainda joga bola. Ela aconteceu porque Neymar continua sendo um dos maiores ativos comerciais do futebol mundial. Talvez o maior do Brasil.
Existe, claro, uma discussão técnica legítima. E ela não pode ser ignorada. Neymar realmente não vinha conseguindo jogar em alto nível. Conviveu com lesões, falta de sequência e um Santos tecnicamente muito limitado. Nenhum jogador do mundo consegue carregar sozinho um time inteiro. Uma andorinha só não faz verão. Em muitos momentos, Neymar parecia um atleta tentando sobreviver dentro de uma equipe sem estrutura competitiva para potencializá-lo.
Ancelotti precisou agir com coerência. Convocar Neymar enquanto ele mal conseguia completar partidas seria desmoralizar a própria Seleção e passar a mensagem de que a camisa amarela virou departamento de marketing. O treinador segurou a convocação até o limite justamente para preservar o discurso técnico.
Mas internamente ninguém nunca teve dúvida. Nem Ancelotti. Nem a CBF. Nem os patrocinadores.
Se Neymar estivesse lesionado, fora de combate, seria impossível levá-lo. Da mesma forma que Rodrygo e Militão acabaram ausentes por questões físicas evidentes. Mas Neymar com 40% de condição física, minimamente apto para competir, seria convocado inevitavelmente. Porque ele movimenta cifras, atenção global, audiência, redes sociais, venda de camisas, contratos publicitários e visibilidade internacional como nenhum outro jogador brasileiro consegue atualmente.
E é aí que entra a Nike
A gigante americana é hoje a principal parceira comercial da CBF. O contrato com a entidade gira na casa de US$ 87 milhões anuais, podendo ultrapassar US$ 100 milhões com royalties e metas comerciais. É um dos contratos mais valiosos do futebol mundial. Além da Nike, a Seleção tem uma constelação de patrocinadores poderosíssimos: Itaú, Vivo, Ambev, Amazon, Google, iFood, Uber, Volkswagen, Azul, Sadia, Cimed e outros gigantes. Nenhum clube brasileiro chega perto disso.
Todos eles têm interesse direto em uma Seleção forte comercialmente. E Neymar é a locomotiva dessa engrenagem.
A ironia é que Neymar possui contrato pessoal justamente com a Puma, principal rival da Nike no mercado esportivo. Só que, quando veste a camisa da Seleção, o contrato da CBF “engole” praticamente todos os acordos individuais do atleta – com exceção das chuteiras. Na prática, a Nike ganha uma guerra publicitária brutal sem precisar pagar diretamente um centavo ao jogador.
Toda imagem de Neymar treinando, desembarcando com a delegação, dando entrevista ou comemorando com a camisa da Seleção leva o famoso “Swoosh” estampado no peito. É publicidade espontânea planetária.
A Puma até pode colocar Neymar em campanhas próprias, comerciais e peças de moda esportiva. Mas existe uma imagem emocional que nenhuma marca consegue reproduzir artificialmente: o craque defendendo seu país numa Copa do Mundo.
Essa imagem pertence à Nike. E a CBF sabe disso. Durante uma Copa, a Puma fica praticamente neutralizada no ambiente esportivo da Seleção. Neymar pode até calçar chuteiras da marca alemã – com quem tem contrato de R$ 150 milhões – mas todas as fotos históricas, os vídeos oficiais, as coletivas e as imagens icônicas estarão associadas à Nike. É uma vantagem de mercado gigantesca.
Por isso, a convocação de Neymar nunca foi apenas futebol. Era uma necessidade técnica futura, porque Ancelotti acredita que num ambiente competitivo e cercado por jogadores melhores o rendimento do camisa 10 cresce naturalmente. Mas era também uma necessidade comercial imediata.
A Seleção precisava de um rosto. Precisava de alguém capaz de transformar uma simples lista de convocados em espetáculo nacional. E conseguiu.
O Museu do Amanhã virou palco. A convocação virou show. O anúncio do nome de Neymar virou catarse coletiva.
O que nós vimos ontem foi a maior prova de que Neymar jamais esteve fora da Seleção foi justamente a forma como ele voltou.
Com informações do Jornal de Brasília
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