Depois de um “recesso” de 1.421 dias, Donald Trump retorna, hoje, à Casa Branca com a disposição de levar adiante suas promessas de campanha mais polêmicas, como a deportação em massa de imigrantes não documentados e a concessão de perdão a todos os condenados pelo ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Pela primeira vez em quatro décadas, a posse presidencial ocorrerá na Rotunda, a cúpula do prédio do Congresso dos Estados Unidos, em meio à onda de frio.
Nos últimos dias, Trump expôs dois lados antagônicos. Causou mal-estar diplomático, ao defender a anexação do Canadá e o controle sobre a Groenlândia e o Canal do Panamá. Mas, também, ganhou capital político após envolver-se, diretamente, nas negociações de um acordo entre Israel e o grupo terrorista Hamas para um cessar-fogo na Faixa de Gaza. O republicano creditou a si mesmo o sucesso nas tratativas para a libertação dos 98 reféns israelenses.
A pedido do Correio, especialistas de quatro renomadas universidades americanas traçaram um prognóstico em relação ao novo governo de Donald Trump. Professor de história e de política social da Universidade de Harvard, Alex Keyssar aposta que, nos primeiros dias de governo, o republicano emitirá uma série de ordens executivas para reverter as políticas encampadas pelo governo do democrata Joe Biden. “Este é um governo de ideólogos de direita que desejamn desmantelar o Estado regulatório e os programas de bem-estar social criados ao longo do século 20”, advertiu.
Keyssar espera uma Casa Branca muito mais voltada para atender aos interesses dos muito ricos, como os grandes bancos, as corporações e as big techs — empresas de tecnologia. Tanto que Trump nomeou ninguém menos do que o bilionário Elon Musk, dono da Tesla, da SpaceX e da rede social X, para comandar o Departamento de Eficiência Governamental cuja tarefa será desmontar a máquina burocrática do Estado e reduzir as regulações.
Jeffrey A. Sonnenfeld, professor de prática de liderança na Universidade de Yale, acredita que a democracia dos Estados Unidos prevalecerá. “No entanto, ela sobreviverá em uma condição frágil, com disseminação de fake news (notícias falsas) e superstição, trascendendo fatos sobre a economia americana e o apoio de Trump à insurreição, além da sua insistência em negar a derrota nas eleições de 2022”, afirmou.
Sonnenfeld acredita que a estratégia do presidente eleito levou os eleitores a subestimarem a genuína boa saúde da economia dos EUA. “A habilidade de Trump em substituir informações falsas e gerar raiva sem fundamento induziu uma clara vitória eleitoral, com os democratas perdendo muitos votos”, observou o estudioso de Yale. Para ele, o controle do republicano sobre todos os ramos do governo põe em perigo aqueles cidadãos de opiniões divergentes. “Trump é notoriamente vingativo. Preocupo-me, sobretudo com as suas ameaças de vingança contra vozes honestas e corajosas de ambos os partidos.”
“Políticas draconianas”
Por sua vez, Caitlin Patler — professora de políticas públicas da Universidade da Califórnia, Berkeley — espera um “retorno imediato de muitas das políticas draconianas” que marcaram o primeiro mandato de Trump. Ela cita o fim da discricionariedade do Ministério Público nas apreensões da Imigração, o que resultaria em um aumento de deportações; uma limitação severa sobre a imigração legal, com expressivas reduções no sistema de asilo e na concessão de vistos de trabalho; e a proibição de entrada nos EUA de viajantes originários de alguns países. “Todas essas medidas têm enormes custos sociais e econômicos e serão muito nocivas para o nosso país”, alertou.
Patler não descarta que Trump comece o governo com grandes operações de batidas da Imigração que aterrorizarão comunidades. “Também haverá ameaças renovadas à cidadania por direito de nascença, atualmente consagrada na Constituição dos EUA. Estimam-se que milhões de crianças cidadãs americanas vivam em lares com pelo menos um dos pais não documentados”, disse a estudiosa. Ela entende que privar essas crianças do direito à cidadania seria “cruel e inconstitucional”. Durante a campanha, Trump chegou a qualificar os imigrantes de “criminosos sanguinários e perigosos”, traficantes e terroristas.
“Nós podemos, certamente, esperar que Trump retire as normas propostas por Biden sobre mudanças climáticas e atue a favor da legalização das criptomoedas. Ele poderá tentar reduzir de tamanho alguns órgãos do governo, como a Agência de Proteção Ambiental (EPA, pela sigla em inglês). Por pensar que as mudanças climáticas são uma fraude, provavelmente precisará de menos funcionários”, prevê John C. Coffee, professor de direito da Universidade Columbia (em Nova York). De forma geral, o especialista acredita que Trump tentará retirar orçamentos e pessoal de muitas agências, ao seguir recomendações de Musk.
Em relação às mudanças políticas, Coffee acha que o novo presidente poderá, mais uma vez, forçar o presidente da Câmara dos Deputados a substituir algum importante líder republicano no Congresso. “É algo sem precedentes que o presidente intervenha dessa maneira no Legislativo”, destacou. “A única área em que creio que seu exagero claramente fracassará será o desejo declarado de anexar ou controlar Canadá, Groenlândia e Panamá. Seu objetivo real parece ser o de pressionar e extorquir essas nações para concordarem com suas políticas sobre comércio, tarifas e minerais raros.” Coffee também aposta que Trump fará valer a fama de crítico das ações afirmativas e tentará forçar grandes corporações a desistirem de tais programas. Ele prometeu o que chamou de “fim do delírio transgênero”.
Relações exteriores
De acordo com Keyssar, a política externa da administração republicana na Casa Branca incluirá bravatas e ameaça, mas sem grandes mudanças. “Parece certo que ele oferecerá menos apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia e enfraquecerá a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)”, disse. “Trump, certamente, alocará dinheiro para proteger a fronteira com o México e começará as deportações, mas apenas até certo ponto.”
A escolha pelo ex-senador Marco Rubio para o o posto-chave de secretário de Estado deixa Sonnenfeld confortável. A pasta da Defesa, no entanto, é motivo de polêmica entre estudiosos e a própria imprensa americana. Pete Hegesth, cotado para chefiar o Pentágono, “é um alegado alcoólatra, um gestor incompetente e um predador sexual, além de pouco experiente na vida pública”.
Coffee espera que Trump tente forçar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a resolver o conflito com a Rússia aceitando os termos de Vladimir Putin. O republicano prometeu que colocará um fim à guerra durante seu mandato. “Creio que ele pressionará a Otan para que cada país-membro europeu contribua com muito mais dinheiro. Em relação à deportação em massa de imigrantes ilegais de volta ao México e ao Hemisfério Sul, isso poderia causar problemas na economia americana. Por mais popular que tenha soado na última eleição, pode ser sua ruína quando implementado”, advertiu o professor de Columbia.
Trump avisou que assinaria a ordem executiva para realizar “a maior deportação em massa da história dos Estados Unidos” imediatamente depois de tomar posse. Estudiosos não descartam que essa e outras medidas sejam anunciadas ainda na tarde de hoje.
Cerimônia
Antes, uma cerimônia atípica marcará a assunção ao poder do 47º presidente dos Estados Unidos. Ao meio-dia (14h em Brasília), Trump prestará juramento e fará o discurso de posse sob a Rotunda do Capitólio, o mesmo local em que, quatro anos atrás, uma horda de simpatizantes do republicano vandalizou gabinetes de congressistas e causou indignação ao mundo. Depois da solenidade, Biden e a vice, Kamala Harris, derrotada nas eleições para Trump, se despedirão-se e deixarão Washington.
A agência de notícias France-Presse informou que a posse será transmitido ao vivo, por meio de telões, na Capital One Arena, um ginásio de esportes com capacidade para 20 mil pessoas, no centro de Washington. Trump prometeu comparecer ao local. A previsão é de que as temperaturas cheguem a 10 graus Celsius abaixo de zero.
A segurança é uma preocupação em especial, principalmente depois do atentado à bala que quase custou a vida do republicano, durante comício em Butler (Pensilvânia), em 13 de julho de 2024. Cerca de 25 mil policiais, soldados e franco-atiradores estarão posicionados no centro da capital. O Serviço Secreto, encarregado de garantir a integridade do presidente, anunciou “um plano de segurança ligeiramente mais robusto” em relação às eleições anteriores, justificado por “um entorno mais ameaçador”.
Entre os chefes de Estado e de governo convidados por Trump, estão os premiês Giorgia Meloni (Itália) e Viktor Orbán (Hungria); e os presidentes Javier Milei (Argentina) e Xi Jinping (China). Outras personalidades da extrema-direita anunciaram presença: os franceses Marion Maréchal e Eric Zemmour; o britânico Nigel Farage; e Tino Chrupalla, um dos líderes do partido alemão AfD.
Com informações do Correio Braziliense
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