Papa Francisco deixa legado na luta em defesa das minorias e contra abuso infantil

O jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio edificou o seu pontificado na figura e na oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz; onde houver ódio, que eu leve o amor”. Fragilizado, com as forças quase exauridas, o papa tornou a pedir pelo fim da guerra no Oriente Médio, durante a bênção na Praça de São Pedro. Francisco entra para a história como um missionário reformista, um líder que abriu como nunca os caminhos da Igreja Católica e desafiou a ala conservadora com medidas pragmáticas e necessárias. Defendeu o acolhimento da comunidade LGBTQIAPN , combateu a pedofilia nas instituições católicas, promoveu uma limpeza nas finanças do Vaticano, mostrou-se entusiasta do diálogo interreligioso e do ecumenismo, tentou levar a Igreja até as periferias do mundo e se colocou a favor da comunhão para os divorciados. 

“Francisco deixa uma Igreja nova, missionária e expansiva. Uma Igreja que não seja autorreferencial, mas que saia ao encontro dos outros, que vai até as pessoas e lhes pede: digam-me o que vocês precisam”, explicou ao Correio o vaticanista italiano Fabio Marchese Ragona, coautor da autobiografia do papa Francisco intitulada Vida. “Uma Igreja de portas abertas, para todos, sem excluídos! Esse era o sonho de Francisco, que espero que possa continuar.”

Para Roberto Regoli, especialista em história da Igreja Católica da Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma), o legado de Francisco somente poderá ser compreendido ao longo do tempo e dependerá muito do sucessor escolhido no próximo conclave. “Pelo que podemos entender, o tesouro de Francisco era o marginalizado, o pobre, não um sistema de ideias ou um pensamento a propor”, afirmou, por e-mail. “O seu legado é a carne pobre e, portanto, algo que sempre esteve presente na humanidade e na Igreja e, ao mesmo tempo, é intangível e difícil de descrever.” Apesar de reconhecer que Francisco publicou encíclicas importantes, como a Laudato Si’ (Louvado seja você), Regoli ressaltou que o pontífice estava mais interessado em gestos do que em textos. “Ele iniciou processos sobre a questão da inclusão dos distantes, algo difícil de gerir.”

Luiz Felipe Pondé, filósofo e diretor do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), concorda que ainda é cedo para mensurar o legado de Francisco. “Ele foi papa durante 12 anos e acabou de falecer. A Igreja é uma instituição extremamente complexa, tem 2 mil anos. Não é capitaneada por uma pessoa só. Claro que um papa é uma figura importante, mas a Igreja tem uma estrutura burocrática gigantesca, muito bem protegida das pressas modernas, típicas do século 21”, avaliou ao Correio. O estudioso admite que o trajeto de Francisco foi marcado pelo retorno à preocupação social da Igreja, depois de João Paulo II e Bento XVI mostrarem-se mais conservadores nesse sentido. 

À esquerda

De acordo com Pondé, Francisco se aproximou de uma herança do Vaticano II e de Paulo VI. “A grosso modo, foi um papa mais à esquerda. O primeiro pontífice latino-americano, fora do eixo europeu, é um traço que provavelmente fica”, reconhece. Ele acredita que Francisco deve ser honrado como parte de uma instituição que atravessa séculos e segue de pé. “Como arcebispo de Buenos Aires e sacerdote, ele sempre esteve muito perto da ideia de opção pelos pobres, como prega a Teologia da Libertação, apesar de Francisco não ter sido propriamente marxista.”

Embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben lamentou a morte de Francisco e comentou os esforços do pontífice por um cessar-fogo na Faixa de Gaza. “Sentimos muito a perda do ícone da luta por um mundo melhor, tanto espiritual quanto materialmente. Ele será lembrado sempre, enquanto existir fé nesta terra”, disse à reportagem. “Rezar pela paz na Palestina, antes de devolver sua alma ao seu Criador, reflete a dor que sentia por não poder ver a paz na sua vida terrestre. Também apelou a toda a humanidade para fazer algo pela paz.” O diplomata acrescentou que, até o último suspiro, Francisco não parou de pensar no bem da humanidade. “Ele será lembrado sempre como pilar da convivência e coexistência pacífica entre as fontes da fé, da renovação, da defesa dos pobres, dos direitos da mulher e dos direitos humanos.”

Ao longo do pontificado, Francisco se esforçou em combater a pedofilia na Igreja Católica. No entanto, o americano Shaun Dougherty, presidente da Rede de Sobreviventes de Abusos de Padres (SNAP), disse ao Correio que o papa não cumpriu com o seu legado, no que diz respeito ao escândalo. “Ele nunca implementou uma lei canônica razoável e bem elaborada que proibisse o encobrimento de crimes de abuso sexual cometidos contra crianças dentro da Igreja. Sua cúpula nada fez para proteger as crianças. Uma lei teria conseguido isso”, observou Dougherty, que foi abusado pelo padre George Koharchik dos 10 aos 13 anos, em Johnstown (Pensilvânia).

Em 29 de julho de 2013, ao retornar da única viagem ao Brasil, onde participou da Jornada Mundial da Juventude, Francisco declarou: “Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”. Diretor-executivo do New Ways Ministry, organização que acolhe fiéis católicos LGBTQIAPN desde 1977, Francis De Bernardo reconheceu que o jesuíta argentino “fez mais para acolher pessoas LGBTQ na Igreja do que qualquer outro líder católico na história”. “Seu legado é de ouvir e aprender, de ser pastoral e atencioso. É um legado de coração, não de cérebro. Ele deu coragem a muitos outros líderes católicos para acolherem pessoas LGBTQ “, declarou, por meio do WhatsApp.

Com informações do Correio Braziliense

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