TaguaCei — A destruição de ecossistemas e as mudanças nos padrões de chuva podem aumentar o risco de doenças transmitidas de animais para seres humanos. Um estudo internacional liderado por pesquisadores da University College London (UCL), no Reino Unido, identificou uma espécie de “impressão digital antropogênica” na distribuição global de doenças infecciosas, indicando que atividades humanas e alterações ambientais estão associadas a diferentes padrões de risco.
Publicado na revista Nature, o trabalho é uma das maiores avaliações já realizadas sobre fatores ambientais relacionados ao surgimento de doenças infecciosas. Os pesquisadores analisaram mais de 58 mil surtos de 32 doenças registrados em 169 países.
Entre as enfermidades estudadas estão doenças transmitidas diretamente por animais, como coronavírus, ebola e mpox, além de infecções transmitidas por vetores, como mosquitos, carrapatos e pulgas. Nesse grupo estão doenças como dengue, malária e doença de Lyme.
Florestas fragmentadas elevam exposição
Os cientistas identificaram maior risco de surtos em determinadas regiões onde pessoas e animais vivem próximos a ecossistemas florestais muito fragmentados.
A fragmentação ocorre quando uma floresta é dividida em áreas menores por estradas, fazendas, cidades ou outras formas de ocupação humana. Nessas condições, animais capazes de sobreviver em ambientes modificados podem se tornar mais comuns, aumentando as oportunidades de contato com seres humanos.
No caso das doenças transmitidas por vetores, os pesquisadores encontraram evidências mais claras da influência das alterações ambientais provocadas pelas atividades humanas.
Áreas com ecossistemas fragmentados e regiões submetidas à redução prolongada das chuvas associada às mudanças climáticas apresentaram maior risco de surtos de enfermidades como dengue e Zika.
O estudo, porém, não encontrou um único conjunto de fatores ambientais capaz de prever todos os surtos de doenças zoonóticas. Os efeitos do desmatamento, do aquecimento do planeta e da intensificação da agricultura variaram conforme a doença analisada.
Não existe um único fator para prever surtos
Os pesquisadores destacam que as condições que favorecem o surgimento ou a disseminação de uma doença podem ser diferentes das que influenciam outra enfermidade.
Para Rory Gibb, do Laboratório de Pessoas e Natureza da UCL e autor principal do estudo, a transmissão de doenças de animais para humanos é comum em ambientes modificados pela atividade humana, mas os fatores específicos associados aos surtos variam.
“Isso significa que melhorar o acesso das pessoas aos cuidados de saúde e fortalecer os sistemas de monitoramento de doenças é fundamental para garantir que surtos de qualquer doença possam ser detectados precocemente e contidos antes que se tornem epidemias ou pandemias”, afirmou.
Os cientistas defendem, por isso, uma estratégia que combine vigilância epidemiológica, sistemas de saúde mais estruturados e medidas de proteção dos ecossistemas.
Acesso à saúde também interfere na identificação
Outro resultado do estudo chama atenção para o papel do acesso aos serviços de saúde na identificação dos surtos.
Segundo os pesquisadores, a probabilidade de um surto de doença emergente ser notificado caiu, em média, 32% para cada hora adicional de deslocamento até o centro de atendimento mais próximo.
Isso indica que os locais onde os surtos são registrados podem refletir não apenas a ocorrência das doenças, mas também a capacidade de cada região de identificar, diagnosticar e comunicar novos casos.
Para Anísio Pinheiro, médico especialista em saúde pública, a prevenção exige integração entre diferentes áreas.
Ele defende a atuação conjunta de vigilância em saúde, vigilância veterinária, agricultura e meio ambiente, com compartilhamento rápido de informações.
Uma das possibilidades é investigar conjuntamente episódios como a morte de animais silvestres. Segundo o especialista, esse tipo de ocorrência pode servir como sinal precoce da circulação de determinadas doenças, como a febre amarela.
O fortalecimento da atenção primária e dos agentes comunitários também é apontado como importante, principalmente em áreas de fronteira agrícola e regiões afetadas pelo desmatamento.
Google Maps pode ajudar a antecipar surtos
Outro estudo publicado na Nature, desta vez liderado por pesquisadores brasileiros, identificou uma possibilidade de utilizar dados públicos de ocupação de unidades de saúde disponibilizados pelo Google Maps para identificar sinais de aumento de doenças infecciosas.
Pesquisadores de instituições como universidades de São Paulo, Goiás e Brasília analisaram 17 unidades de pronto atendimento da Região Metropolitana de São Paulo entre julho de 2023 e outubro de 2024.
Os dados de ocupação foram comparados com resultados laboratoriais relacionados a infecções por vírus responsáveis por doenças como covid, influenza e dengue.
Os pesquisadores observaram que aumentos na ocupação das unidades de saúde ocorreram antes da elevação dos casos confirmados das doenças analisadas. Em alguns casos, os sinais puderam ser identificados com até cinco semanas de antecedência.
Vanderson Sampaio, pesquisador do Instituto Todos pela Saúde e autor principal do estudo, afirmou que a ferramenta pode complementar os sistemas tradicionais de vigilância epidemiológica.
Segundo ele, a utilização de informações públicas permitiria identificar alterações na ocupação das unidades em tempo real, sem acessar dados pessoais dos pacientes.
A proposta é que esse tipo de indicador possa complementar sistemas tradicionais de notificação, principalmente em locais onde o registro de casos é mais lento ou fragmentado.
Estratégias precisam considerar o território
Álvaro Madeira Neto, sanitarista e gestor em saúde, defende que as medidas de prevenção sejam organizadas em diferentes horizontes.
No curto prazo, ele aponta a necessidade de reduzir o intervalo entre o surgimento de um caso e a resposta das autoridades, com atenção primária acessível, capacidade de diagnóstico, laboratórios e equipes preparadas para investigar eventos incomuns.
Em uma perspectiva de médio prazo, o especialista defende a integração de informações sobre clima, vetores, animais, uso da terra, ocupação humana, saneamento, mobilidade e ocorrência de doenças.
A intenção seria utilizar esses dados para antecipar situações de risco, em vez de apenas contabilizar os danos depois que os surtos acontecem.
No longo prazo, Madeira Neto aponta a necessidade de proteger ecossistemas, reduzir formas predatórias de transformação do território e enfrentar as mudanças climáticas.
O estudo internacional reforça, portanto, que a relação entre meio ambiente e doenças infecciosas não segue uma fórmula única. A combinação entre alterações climáticas, transformação dos ecossistemas, presença de vetores, comportamento humano e capacidade de vigilância pode produzir diferentes cenários de risco conforme a doença e a região.
A integração entre saúde pública, meio ambiente, agricultura e vigilância epidemiológica é apontada pelos especialistas como uma das estratégias para identificar ameaças mais cedo e melhorar a resposta a possíveis epidemias.
Fonte: Correio Braziliense



