O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone, na manhã dessa segunda-feira, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre temas da agenda internacional. O chefe de Estado brasileiro sugeriu que a Palestina passe a ter um assento no chamado Conselho da Paz, criado pelo norte-americano. Ele argumentou que a inclusão da Palestina dará maior legitimidade às discussões e defendeu que o grupo tenha um escopo mais restrito, concentrando-se exclusivamente nas questões relacionadas à Faixa de Gaza.
Lula também confirmou que viajará a Washington para se encontrar com o republicano. A visita deve ocorrer após a ida do chefe do Executivo brasileiro à Índia e à Coreia do Sul em fevereiro. A data exata ainda será definida em breve pelas equipes diplomáticas.
O teor da conversa dessa segunda-feira foi divulgado pelo Palácio do Planalto. Segundo o governo brasileiro, Lula aproveitou a ocasião para reforçar sua posição histórica em favor de uma reforma ampla da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele voltou a defender a ampliação do número de países com assento permanente no Conselho de Segurança, como forma de tornar o órgão mais representativo da atual configuração geopolítica global.
O chefe do Executivo está entre os líderes internacionais convidados a integrar o Conselho da Paz, mas ainda não deu uma resposta ao convite. Na semana passada, durante um evento realizado em Salvador, ele manifestou publicamente reservas em relação à proposta. Na avaliação do presidente, a iniciativa de Trump pode resultar na criação de uma estrutura paralela à ONU, com o objetivo de concentrar maior poder político sob a liderança do governo norte-americano.
A ligação com Trump durou cerca de 50 minutos e tratou, também, de relações bilaterais e economia. A conversa foi descrita por ambos como produtiva, com trocas de informações sobre indicadores econômicos que apontam perspectivas positivas para as duas maiores economias das Américas. Trump ressaltou que o crescimento econômico do Brasil e dos Estados Unidos traz benefícios para toda a região.
Os presidentes saudaram o bom relacionamento diplomático construído nos últimos meses, que já resultou na eliminação de parte significativa das tarifas aplicadas a produtos brasileiros no mercado norte-americano — um ponto de encontro após meses de tensões no comércio bilateral.
Durante a ligação, Lula comentou uma proposta já encaminhada ao Departamento de Estado, que visa fortalecer a cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, com foco em áreas como lavagem de dinheiro, tráfico de armas, congelamento de ativos de grupos criminosos e intercâmbio de dados sobre transações financeiras. A ideia foi bem recebida por Trump, abrindo espaço para futuros acordos operacionais entre as equipes dos dois países.
No diálogo, Lula e Trump também trocaram impressões sobre a situação na Venezuela, com o líder brasileiro enfatizando a importância da paz e da estabilidade regional, além do compromisso com o bem-estar do povo venezuelano. A questão tem sido debatida em diversos fóruns internacionais e continua a ser um dos desafios políticos na diplomacia do hemisfério.
Pragmatismo
Segundo o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, a conversa foi marcada pelo pragmatismo em um contexto de Realpolitik por parte dos Estados Unidos. “O que vimos hoje (essa segunda-feira) não foi um alinhamento ideológico, mas um pragmatismo econômico monumental, no qual Lula compreendeu que, no universo de Trump, a balança comercial precede qualquer valor democrático”, explicou.
“O levantamento das tarifas sobre produtos brasileiros é a maior prova dessa ‘vitória técnica’ do Planalto, sinalizando que o Brasil aceitou jogar sob as regras do ‘America First’ para blindar seu agronegócio e sua indústria em um cenário global hostil e protecionista”, afirmou Coimbra.
Na avaliação do cientista político, no campo da influência global, a proposta de Trump para um Conselho da Paz em Gaza, operando fora dos ritos da ONU, coloca o Brasil em uma encruzilhada histórica. “Ao sugerir a inclusão da Palestina e focar na ajuda humanitária, Lula tenta ‘civilizar’ uma iniciativa unilateralista, buscando garantir ao Brasil um assento de relevância em um novo órgão que privilegia a eficácia sobre a legitimidade internacional”, disse.
Coimbra pontuou, porém, que o risco inerente a esse movimento é o esvaziamento definitivo do Conselho de Segurança da ONU, trocando o sonho histórico brasileiro de um assento permanente por uma cadeira temporária em uma estrutura controlada diretamente por Washington.
“A questão venezuelana serve como o maior termômetro dessa mudança de postura brasileira. Apesar da indignação formal com a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, o fato de Lula ter focado o diálogo em comércio e segurança interna revela que o governo brasileiro reconhece a nova hierarquia de poder na região”, frisou. “A retórica da soberania ferida deu lugar ao cálculo frio: o Brasil não pode se dar ao luxo de confrontar Trump por um regime vizinho em colapso enquanto precisa garantir exportações de aço e celulose. Há uma aceitação tácita de que Trump promoverá uma ‘limpeza’ regional, e o Brasil prefere ser o interlocutor racional desse processo a ser um alvo colateral”, completou.
Ele ressaltou ainda que o Brasil se posiciona agora como um Estado-pivô entre o bloco do Brics e a Casa Branca. “A série de viagens programadas por Lula para a Ásia e depois para Washington sugere uma tentativa ambiciosa de atuar como o tradutor dos interesses do Sul Global para o temperamento volátil de Trump. O resultado dessa aproximação não é uma amizade, mas um gerenciamento de danos sofisticado”, analisou. “Lula aceitou que a diplomacia em 2026 se faz com planilhas e balanças comerciais, consolidando o Brasil como o parceiro de conveniência necessário para manter a estabilidade econômica no continente, enquanto o mundo observa o desmonte do multilateralismo tradicional”, acrescentou.
Com informações do Correio Braziliense
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