Classificação de PCC e CV como terroristas foi rejeitada no Senado sem resistência de Flávio Bolsonaro

Brazilian Senator Flavio Bolsonaro greets supporters upon his arrival from the US at the International Airport in Brasilia, on May 28, 2026. (Photo by Sergio Lima / AFP)

A classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, pleito do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Donald Trump, foi discutida no Congresso Nacional no fim do ano passado e não prosperou.

Na ocasião, o agora presidenciável do PL não estava no plenário e não defendeu a medida ao contrário de outros senadores bolsonaristas, que registraram voto favorável e discursaram sobre a importância de enquadrar as facções.

Durante sua viagem aos Estados Unidos nesta semana, Flávio pediu a Trump a classificação do PCC e do CV como terroristas o que ocorreu, de fato, nesta quinta-feira (28).

A designação é considerada estratégica por aliados de Flávio para desgastar Lula (PT) na eleição, já que o governo petista é contrário à medida. O entendimento do Executivo é de que essa rotulação pelos EUA pode dar margem a uma intervenção americana no território brasileiro, além de deixar empresas e o sistema financeiro nacional expostos a medidas unilaterais da Casa Branca.

Quando o enquadramento das facções dependia de uma decisão do Congresso e não de Trump, Flávio não demonstrou o mesmo empenho. A discussão fez parte do chamado PL Antifacção, projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados em novembro passado e deliberado pelo Senado no mês seguinte.

No Senado, a maioria seguiu a posição do relator, Alessandro Vieira (MDB-SE), que vai na mesma linha do governo Lula, ou seja, evitar ingerência externa. “Por que o Exército americano, o Exército brasileiro e as cortes constitucionais pelo mundo afora se preocupam em [definir o que é terrorismo]? Porque as consequências são graves. E não são graves para o criminoso, para o terrorista, são graves para o país que tem em seu seio organizações terroristas”, disse.

Na Câmara, foi um aliado de Flávio, o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), pré-candidato ao Senado, que retirou do texto do PL Antifacção a classificação das facções como terroristas, cedendo à pressão do centrão e de governistas.

Relator do projeto na Câmara, Derrite apresentou seis versões para o texto, enviado ao Congresso pelo governo Lula. A versão original não tratava da equiparação, que foi incluída e depois retirada pelo deputado.

Em fevereiro, Derrite afirmou à Folha que era favorável à equiparação, mas havia uma discussão sobre soberania e constitucionalidade, que poderia derrubar a lei. “Entre o que eu acho e o que pôde ser aprovado, eu preferi ficar com a entrega da legislação.”

No Senado, a votação teve duas etapas. Primeiro, os senadores deliberaram sobre o texto principal da matéria, que não continha a equiparação das facções ao terrorismo. O projeto foi aprovado por unanimidade, com 64 votos sim, inclusive o de Flávio.

Em seguida, o plenário decidiu separadamente apenas essa questão, ao votar uma emenda proposta pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) propondo que “facções criminosas armadas, milícias e organizações ultraviolentas recebam tratamento jurídico equivalente ao conferido aos crimes de terrorismo”. A emenda tinha o apoio da bancada do PL.

A votação foi simbólica, sem contabilização do voto individual de cada senador. Os senadores contrários à emenda deveriam não se manifestar, e o trecho foi rejeitado. Naquele momento, alguns senadores protestaram e fizeram questão de declarar voto favorável, ainda que isso não alterasse o resultado.

Foi o caso de Girão, Carlos Portinho (PL-RJ), Jorge Seif (PL-SC), Sergio Moro (PL-PR), Wellington Fagundes (PL-MT) e Damares Alves (Republicanos-DF), mas não de Flávio, que não estava no plenário e teve seu voto considerado como contrário à emenda, assim como a maioria.

Durante a sessão, Flávio tampouco discursou a favor do PL Antifacção ou da equiparação das facções a terrorismo, embora o debate tenha sido intenso.

Questionado pela reportagem, o senador afirmou que participava da sessão de forma remota e que, por isso, não discursou nem teve o voto a favor da emenda registrado. No início da sessão, porém, Flávio estava no plenário.

Ele acrescentou que sua posição será de “tolerância zero” com organizações criminosas. “Flávio, inclusive, estabeleceu um prazo: ou eles se rendem a partir de janeiro ou deixam o país. Quem insistir em manter suas atividades criminosas será preso ou neutralizado”, disse a assessoria, em nota.

Também disse que uma manobra do governo transformou a votação em simbólica “e não houve tempo hábil para que o parlamentar voltasse ao plenário”.

A classificação de PCC e CV como terroristas foi defendida em discursos pelos senadores Girão, Portinho, Seif e Damares. Foram contrários os governistas Teresa Leitão (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (PT-AP), além do relator Alessandro Vieira.

Girão afirmou que as facções já são ligadas ao terrorismo internacional por meio do tráfico de armas e de drogas. “Tanto organizações criminosas quanto terroristas usam o sistema de medo como ferramenta política e territorial”, disse Seif.

Randolfe, líder do governo no Congresso, afirmou que “não se combate organização criminosa com rótulos, dando os nomes; combate-se organização criminosa com ação eficaz”.

Vieira usou argumentos semelhantes aos do governo Lula para rejeitar a equiparação —o receio de que haveria brecha para intervenção estrangeira. Além disso, o relator afirmou que o projeto já dava às organizações criminosas um tratamento penal tão grave quanto o previsto na Lei Antiterrorismo.

“A nominação como terroristas abre espaço para sanções internacionais, econômicas e militares. Eu entendo o apego, quase que um fetiche, pela expressão ‘narcoterroristas’, mas é só uma expressão que serve para rechear manchetes de jornal. Terrorismo abre espaço para sanções contra o país”, disse Vieira.

Como foi modificado pelo Senado, o PL Antifacção voltou à Câmara para nova votação e foi aprovado em fevereiro deste ano. Lula sancionou o texto com dois vetos no mês seguinte.

Com informações do Jornal de Brasília

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