TaguaCei — O uso diário de cigarros eletrônicos com nicotina está associado a alterações na função dos vasos sanguíneos e à redução da capacidade cardiorrespiratória de adultos jovens, mesmo entre pessoas que nunca fumaram cigarros convencionais. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica JAMA Cardiology, que identificou diferenças em indicadores cardiovasculares de usuários de vape.
A pesquisa avaliou 58 adultos com idade média de 26 anos, divididos em três grupos: 17 usuários exclusivos de cigarros eletrônicos, 19 fumantes de cigarros convencionais e 22 pessoas que não utilizavam regularmente produtos de tabaco ou nicotina. Os participantes passaram por exames para analisar a função vascular, a capacidade pulmonar e o desempenho durante exercícios físicos intensos.
Um dos principais resultados foi a redução da capacidade de dilatação das artérias, mecanismo importante para a circulação sanguínea. Entre os participantes que não utilizavam nicotina, a dilatação arterial média foi de 8,3%. No grupo que usava vape diariamente, o índice caiu para 5,5%. Entre os fumantes convencionais, chegou a 4,4%.
Os pesquisadores também identificaram diferenças na reatividade da artéria carótida, responsável por transportar sangue ao cérebro. O índice médio foi de 4,7% entre os participantes sem exposição à nicotina, de 0,6% entre os usuários de cigarros eletrônicos e de -1,4% entre os fumantes convencionais.
Essas alterações podem indicar disfunção do endotélio, camada de células que reveste internamente os vasos sanguíneos e participa do controle da circulação. Os autores ressaltam, porém, que os resultados não significam que os participantes já tenham doenças cardíacas nem permitem prever individualmente a ocorrência de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC).
Menor capacidade durante exercícios
O estudo também identificou diferenças no desempenho físico. Os usuários de cigarros eletrônicos apresentaram menor consumo máximo relativo de oxigênio, indicador utilizado para avaliar a aptidão cardiorrespiratória.
A média foi de 27,9 mililitros de oxigênio por minuto por quilo de peso corporal entre os usuários de vape, enquanto o grupo sem exposição ao tabaco ou à nicotina registrou 33,8 mililitros.
Os resultados se somam a outras evidências sobre os efeitos desses dispositivos. Uma pesquisa anterior também apontou que o uso de cigarros eletrônicos pode reduzir o fôlego de jovens, com prejuízos à capacidade de realizar exercícios físicos.
Além disso, os pesquisadores observaram menor ventilação por minuto e menor débito cardíaco durante o exercício entre os participantes que utilizavam cigarros eletrônicos ou convencionais. O débito cardíaco corresponde ao volume de sangue bombeado pelo coração a cada minuto.
Vape não é alternativa segura para quem não fuma
Segundo Maxime Boidin, professor de reabilitação cardíaca no Instituto de Esportes da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, os resultados indicam diferenças na função vascular e na capacidade física mesmo entre indivíduos jovens e saudáveis.
O pesquisador destacou que o comprometimento vascular observado nos usuários de cigarros eletrônicos foi semelhante ao identificado entre fumantes com histórico de consumo leve, considerando as medidas específicas avaliadas.
Boidin afirmou que a substituição completa do cigarro convencional pelo eletrônico com nicotina pode reduzir a exposição a determinadas substâncias nocivas para quem está tentando abandonar o tabagismo. Ele ressalvou, entretanto, que pessoas que não fumam não devem começar a utilizar esses dispositivos.
A oncologista clínica Débora Curi, integrante do núcleo de excelência em câncer de pulmão do Grupo SOnHe, alerta para a falsa percepção de segurança associada aos vapes. Segundo ela, os dispositivos mantêm o risco de dependência de nicotina e expõem o organismo a substâncias potencialmente tóxicas.
Além dos possíveis efeitos cardiovasculares, pesquisas associam o uso de cigarros eletrônicos a problemas respiratórios, como bronquite, asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). O Instituto Nacional de Câncer (Inca) também alerta para os riscos relacionados à exposição a substâncias presentes em alguns líquidos utilizados nesses produtos, como o diacetil, associado à bronquiolite obliterante, uma doença pulmonar grave.
Como o vape pode afetar a circulação
O angiologista e cirurgião vascular Herik Oliveira, de Brasília, explica que a nicotina pode elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca. Outros componentes dos aerossóis, como partículas ultrafinas e metais pesados, também podem contribuir para processos inflamatórios e alterações no sistema cardiovascular.
Segundo o especialista, a exposição prolongada pode prejudicar a capacidade de dilatação dos vasos, favorecer a rigidez arterial e contribuir para alterações na coagulação sanguínea. Esses mecanismos podem aumentar o risco de problemas circulatórios ao longo do tempo.
O médico ressalta que as lesões podem evoluir gradualmente: inicialmente, ocorre comprometimento da parede interna dos vasos; em seguida, processos inflamatórios e estresse oxidativo podem contribuir para a perda de elasticidade arterial. Com a progressão dessas alterações, podem surgir condições que favorecem a formação de placas e coágulos.
Embora os resultados reforcem a preocupação com os efeitos do cigarro eletrônico sobre a saúde vascular, os pesquisadores destacam que o estudo identificou alterações em indicadores fisiológicos, e não a ocorrência direta de infartos ou AVCs entre os participantes.
Fonte: Correio Braziliense



