A cirurgiã-dentista, especialista em ortodontia e reabilitação oral, Geisa Cantelli destacou a importância dos cuidados preventivos com a saúde bucal da infância à velhice. Ao CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília — realizado nessa quinta-feira (9/7), ela explicou às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte que infecções na boca podem favorecer o surgimento de doenças graves no coração, como a endocardite bacteriana. “É uma condição rara e muito grave”, afirmou. Confira os principais trechos da conversa:
Como está a realidade atual do Brasil com relação à saúde bucal?
Tem melhorado muito. As últimas pesquisas mostram que melhoramos em torno de 47% nos últimos 20 anos em relação ao índice Cpod, que se refere à quantidade de dentes cariados, perdidos e obturados. Em 2003, tínhamos um índice em torno de 20 dentes para cada paciente com dentição permanente e, hoje, o índice é de 10 dentes. Ainda é muito alto, porque acima de seis já consideramos um número alto. Para uma população que tem uma das melhores odontologias do mundo, precisamos melhorar ainda mais.
Há implicações para a saúde do indivíduo com perda dos dentes?
No caso das crianças, os dentes de leite não estão ali à toa, mas estrategicamente para orientar os permanentes que vão vir. Essa bagunça da arcada pode começar ainda na primeira infância. A falta de dentes vai interferir até mesmo no desenvolvimento da face. Quando tem uma criança que perdeu vários dentes, por exemplo, por cáries rampantes de mamadeiras, a criança passa a ter a dentição toda bagunçada, e isso interfere em questões respiratórias e de fala. No adulto, também há uma série de questões, porque nem sempre dá para reabilitar o paciente de forma simples.
Problemas bucais podem acarretar intercorrências cardíacas?
Sim. Um desses fatores é a endocardite bacteriana, uma condição rara, mas muito grave. Quando a gente tem um problema bucal que sangra, é como se tivesse uma ferida aberta que é uma porta de entrada para contaminação bacteriana na corrente sanguínea. Na boca, temos uma quantidade enorme de bactérias e precisamos viver com isso em equilíbrio. Se você já tem um sangramento gengival, há uma porta de entrada para a área sistêmica e algumas bactérias têm predisposição a aderirem em partes específicas de válvulas cardíacas.
Existem prejuízos de ficar sem dentes na velhice?
As pessoas se acostumaram a perder os dentes, achar que é normal e aderir à prótese total removível. Hoje, se eu for colocar uma prótese total em um paciente, ele vai ter muita dificuldade. As pessoas se acostumaram a mastigar e a viver daquela forma, mas na verdade, elas não têm qualidade de mastigação e se acostumaram a engolir de qualquer forma. A gente não pode aceitar e tratar isso com naturalidade.
Qual a melhor rotina de escovação para as crianças?
Orientamos aos pais que deixem essa criança escovar sozinha, mas façam uma escovação supervisionada. Precisamos introduzir o hábito do uso do fio dental desde muito cedo e perder aquele hábito do palito que não ajuda, só empurra o alimento para baixo da gengiva. O pai e a mãe que conseguem, pelo menos, no período noturno fazer essa higienização da forma adequada, passando o fio dental, escovando direitinho e permitindo que essa criança vá dormir sem se alimentar de novo, é muito estratégico e funciona muito bem. A escovação deve ser feita com escova extramacia, de cerdas muito finas, porque não é força, é jeito. Em relação ao bochecho, a orientação é que não seja feito com frequência e deve ser utilizado com orientação do dentista.
Quais as vantagens de começar o trabalho de ortodontia cedo, como previsto na campanha Julho Laranja?
Essa é uma questão extremamente importante para nós, ortodontistas, e sempre foi uma pauta muito importante. Vemos a facilidade que temos de tratar quando há diagnóstico precoce. A prevenção é melhor do que a cura e o tratamento. É fantástica essa avaliação na primeira infância, por volta dos 6, 7 anos, que é o período, mais ou menos, que começa a troca dos dentinhos de leite pelos dentes permanentes.
Com informações do Correio Braziliense



