TaguaCei — A endometriose pode provocar impactos que vão muito além das cólicas e das alterações menstruais. Um estudo que acompanhou quase 3 milhões de mulheres durante 25 anos apontou que aquelas diagnosticadas com a doença apresentaram risco 46% maior de desenvolver diabetes tipo 2 em comparação com mulheres sem endometriose.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da George Mason University, nos Estados Unidos, e publicada na revista Diabetology. Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados indicam uma associação entre as duas condições, e não que a endometriose seja diretamente responsável pelo surgimento do diabetes.
Uma das hipóteses levantadas é que a inflamação crônica provocada pela endometriose possa interferir na saúde metabólica. Segundo o ginecologista e endocrinologista Igor Trotte, mediadores inflamatórios podem prejudicar a ação da insulina nos músculos e no tecido adiposo, levando o organismo a produzir quantidades maiores do hormônio para manter os níveis de glicose normais.
Com o passar do tempo, esse processo pode contribuir para o desenvolvimento da resistência à insulina e, em pessoas predispostas, favorecer o surgimento do diabetes tipo 2.
Um dos resultados que chamou a atenção dos pesquisadores foi a associação mais forte entre mulheres na pré-menopausa e sem obesidade, grupos que tradicionalmente não são considerados os de maior risco para diabetes tipo 2. A relação também variou conforme o tipo de endometriose, sendo mais acentuada nos casos em que a doença se manifesta fora da região pélvica.
Endometriose pode apresentar diversos sintomas
Outro estudo, liderado pelo Instituto de Pesquisa Sant Pau, na Espanha, e publicado na revista Human Reproduction, reforçou que a endometriose pode apresentar manifestações que não se restringem ao sistema reprodutivo.
A pesquisa analisou dados de mais de 22 mil mulheres e identificou diferentes padrões de sintomas, incluindo dor pélvica crônica, dor abdominal, problemas gastrointestinais, síndrome do intestino irritável, enxaqueca, ansiedade, depressão, fadiga crônica e infertilidade.
Entre as mulheres na pré-menopausa, 18,8% apresentaram uma alta carga de sintomas, caracterizada principalmente por dor intensa, problemas gastrointestinais e alterações de humor. Outros grupos apresentaram manifestações moderadas de dor e problemas emocionais ou sintomas psicológicos e neurológicos, como ansiedade, depressão e enxaqueca.
A variedade de manifestações pode contribuir para o atraso no diagnóstico. Em alguns casos, a paciente procura inicialmente especialistas por causa de enxaquecas, alterações intestinais, fadiga ou problemas emocionais, sem que esses sintomas sejam relacionados à endometriose.
Segundo a ginecologista e obstetra Marina Aguiar de Almeida, do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, é importante avaliar a paciente de forma integral. Sintomas que pioram ou melhoram de acordo com o ciclo menstrual devem servir como um alerta para a investigação da doença.
Endometriose e adenomiose
O estudo também avaliou mulheres que apresentavam simultaneamente endometriose e adenomiose. Nesta última condição, um tecido semelhante ao endométrio cresce dentro da parede muscular do útero, podendo provocar dores intensas e sangramento menstrual excessivo.
Entre essas pacientes, 57% estavam nos grupos considerados de maior carga de sintomas, marcados por dor intensa, manifestações gastrointestinais e sofrimento emocional.
As mulheres com maior quantidade de sintomas também apresentaram piores indicadores de saúde física e mental, além de maiores limitações para atividades cotidianas, mobilidade e participação social.
Exame de sangue pode facilitar diagnóstico
Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, também identificaram diferenças nos níveis de determinados hormônios em mulheres com endometriose. O estudo, publicado na European Journal of Endocrinology, analisou 159 mulheres com a doença confirmada e outras 57 sem endometriose.
Os cientistas observaram diferenças nos níveis de andrógenos, incluindo os chamados andrógenos 11-oxigenados. A análise do perfil hormonal conseguiu identificar mulheres com endometriose com eficácia de até 95%.
A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de um exame de sangue que possa auxiliar na identificação da doença de maneira mais rápida e menos invasiva. A equipe da universidade busca agora parceiros para transformar os resultados da pesquisa em uma ferramenta de diagnóstico.
Para o ginecologista Alexandre Brandão, especialista em endometriose, um exame capaz de auxiliar na confirmação da doença poderia reduzir significativamente o tempo necessário para chegar ao diagnóstico e permitir o início mais rápido do tratamento adequado.
Cólica incapacitante é sinal de alerta
Especialistas ressaltam que a conscientização sobre os sintomas continua sendo fundamental. A cólica menstrual intensa e incapacitante é apontada como um dos principais sinais de alerta para a endometriose.
Segundo os médicos, sentir algum desconforto durante a menstruação pode ser comum, mas uma dor que faz a mulher interromper atividades, faltar ao trabalho ou à escola ou deixar de fazer atividades de que gosta não deve ser considerada normal.
A ginecologista Karoline Prado destaca ainda que exames de imagem normais não necessariamente descartam a doença. O ultrassom transvaginal realizado com protocolo específico e por profissional experiente é importante, mas algumas lesões podem não ser identificadas. Da mesma forma, uma ressonância magnética normal não deve fazer com que os sintomas e o histórico da paciente sejam ignorados.
A avaliação precoce e individualizada permite que a investigação e o tratamento sejam conduzidos simultaneamente, evitando que a paciente passe anos convivendo com sintomas sem diagnóstico e assistência adequada.
Fonte: Correio Braziliense
Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.



