Hábito de leitura pode ajudar a proteger a saúde mental e o cérebro

Pessoa lendo um livro, representando os possíveis benefícios da leitura para a saúde mental e o funcionamento do cérebro.
Crédito da foto: PxHere/Divulgação

TaguaCei — Ler por prazer pode ser muito mais do que uma forma de entretenimento. Pesquisas recentes associam o hábito a benefícios para a saúde mental, além de melhorias em atenção, memória, linguagem e outras funções cognitivas.

Estudos de neuroimagem apontam que pessoas que mantêm o hábito da leitura podem apresentar diferenças em estruturas cerebrais relacionadas ao aprendizado, à linguagem, à regulação emocional e ao controle das funções executivas. Essas funções são responsáveis por organizar pensamentos, controlar comportamentos e ajudar na realização de objetivos.

A leitura também pode funcionar como uma pausa diante da rotina. Ao mergulhar em uma história, a pessoa direciona a atenção para o conteúdo do livro e se afasta temporariamente de preocupações e pensamentos repetitivos. Essa característica aproxima o hábito de outras atividades capazes de ajudar a reduzir o estresse.

Estímulo desde a infância

Os benefícios podem começar ainda nos primeiros anos de vida. Um estudo com mais de 10 mil adolescentes apontou que aqueles que começaram a ler por prazer durante a infância apresentaram, posteriormente, melhores resultados em atenção, memória de trabalho, memória episódica e controle inibitório.

A leitura exige que o cérebro mantenha informações, acompanhe acontecimentos, reconheça personagens, faça relações e formule hipóteses sobre o desenvolvimento de uma narrativa. Por isso, diferentes processos cognitivos são acionados simultaneamente.

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim afirma que crianças que desenvolvem o gosto pela leitura também podem apresentar benefícios acadêmicos e socioemocionais. Segundo ela, pesquisas identificaram ainda diferenças em regiões cerebrais relacionadas à linguagem e à cognição.

A prática também pode ser importante no ambiente escolar. Em Ceilândia, por exemplo, iniciativas envolvendo leitura e educação já foram utilizadas para estimular o contato dos estudantes com livros e atividades literárias.

O cérebro continua plástico

Começar a ler mais tarde não significa que os benefícios desapareçam. Especialistas destacam que o cérebro mantém capacidade de adaptação ao longo da vida, processo conhecido como plasticidade cerebral.

Pesquisas com adultos alfabetizados ou submetidos a maior exposição à leitura encontraram alterações em regiões relacionadas ao processamento da linguagem. Um estudo publicado em 2013, por exemplo, identificou aumento da espessura cortical em áreas importantes para essa função entre pessoas de 18 a 25 anos.

Para especialistas, ainda não há evidências suficientes para afirmar que começar a ler depois dos 40 anos provoque necessariamente alterações estruturais específicas no cérebro. Mesmo assim, a atividade continua sendo considerada uma forma de estimular atenção, memória, linguagem, imaginação e compreensão.

O princípio é semelhante ao de outras atividades que mantêm o cérebro ativo. Estudos sobre memória e funcionamento cerebral também destacam a importância de atividades cognitivamente estimulantes, embora seus efeitos devam ser interpretados com cautela.

Possível proteção contra demência

Outro aspecto investigado pelos pesquisadores é a relação entre leitura e envelhecimento cognitivo. Estudos observacionais associam atividades intelectualmente estimulantes, como a leitura, a um declínio cognitivo mais lento e a um menor risco de demência.

Uma pesquisa publicada neste ano na revista Neurology, com dados de 1.939 pessoas, identificou que aquelas que relataram ter lido por prazer ao longo da vida apresentaram risco 36% menor de desenvolver Alzheimer.

Os próprios pesquisadores, porém, ressaltam que esse resultado demonstra uma associação e não prova que a leitura, sozinha, seja responsável pela redução do risco. Pessoas que leem regularmente também podem apresentar diferenças em escolaridade, condições de vida e outros hábitos relacionados à saúde.

Por isso, a leitura não deve ser encarada como uma forma de prevenir ou evitar isoladamente doenças neurodegenerativas.

Ficção pode estimular empatia

Os benefícios da leitura não ficam restritos à memória e à linguagem. Obras de ficção também colocam o leitor em contato com personagens que possuem experiências, emoções e pontos de vista diferentes.

Ao acompanhar uma história, o leitor precisa compreender as motivações dos personagens e interpretar situações a partir de perspectivas que podem ser diferentes das suas. Esse exercício pode contribuir para o desenvolvimento da empatia e para uma maior compreensão das emoções de outras pessoas.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Livre de Amsterdã, nos Países Baixos, também relacionou a leitura de ficção ao envolvimento emocional com personagens e ao desenvolvimento da capacidade de considerar perspectivas diferentes.

A leitura compartilhada pode ampliar ainda mais essa experiência. Pesquisas sobre clubes de leitura apontam que discutir livros em grupo também pode favorecer a interação social, o sentimento de pertencimento e a troca de experiências.

Uma espécie de “poupança mental”

A neuropsicóloga Juliana Gebrim compara a chamada reserva cognitiva a uma espécie de poupança mental construída ao longo da vida.

A ideia é que atividades que exigem atenção, memória, linguagem, raciocínio e capacidade de estabelecer conexões possam contribuir para que o cérebro tenha mais recursos diante das mudanças provocadas pelo envelhecimento.

Isso não significa que ler impeça o Alzheimer ou outras formas de demência. A relação observada pelos estudos é mais complexa e envolve diferentes fatores, incluindo escolaridade, condições sociais, estilo de vida e outros hábitos.

Ainda assim, a leitura aparece como uma atividade acessível e capaz de reunir diversos estímulos cognitivos em uma única prática.

Leitura também pode aliviar o estresse

Além dos aspectos cognitivos, o hábito pode contribuir para o bem-estar emocional. Quando a leitura é voluntária e prazerosa, a concentração na narrativa pode afastar temporariamente preocupações do cotidiano.

Segundo especialistas, esse processo pode favorecer relaxamento, despertar emoções positivas e estimular a imaginação. A identificação com personagens também pode proporcionar sensação de companhia e diminuir a percepção de solidão.

Por isso, não é necessário estabelecer uma meta rígida para aproveitar os possíveis benefícios. O mais importante é que a leitura seja uma experiência prazerosa e adequada aos interesses de cada pessoa.

Assim como outras formas de cuidar da saúde mental, o hábito da leitura pode fazer parte de uma rotina mais ampla de cuidados com o cérebro e com o bem-estar.

Fonte: Correio Braziliense

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