Mesmo representando uma pequena parcela da força de trabalho no setor de transportes, mulheres têm conquistado espaço como entregadoras, caminhoneiras, motoristas de ônibus, condutoras de caminhão e motoristas de aplicativo. Apesar dos avanços, elas ainda convivem com preconceito, assédio, insegurança e dificuldades estruturais no exercício da profissão.
No Distrito Federal, a cicloentregadora Kelly Vasques, de 32 anos, percorre cerca de 30 quilômetros por dia entre Águas Claras e Taguatinga realizando entregas por aplicativo. Com uma bicicleta elétrica, celular e mochila térmica, ela trabalha cerca de 10 horas diárias e afirma que a agilidade é essencial para aumentar os ganhos.
Kelly conta que, recentemente, sofreu um acidente após um carro atingir sua bicicleta enquanto estava parada na calçada. Após comunicar o caso à plataforma, ficou bloqueada por oito horas. Mesmo diante das dificuldades, ela afirma que encontrou na atividade uma forma de recuperar a saúde mental após enfrentar um quadro de depressão e hoje consegue custear o tratamento e ajudar nas despesas do filho.
Segundo a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), as mulheres representavam, em 2024, apenas 6% dos motoristas e 2% dos entregadores parceiros das principais plataformas digitais do país. A entidade destaca que a flexibilidade de horários é um dos principais atrativos da atividade para esse público.
A socióloga e doutoranda da Universidade de Brasília (UnB), Kethury Magalhães, observa que a falta de estatísticas detalhadas sobre essas profissionais evidencia a pouca atenção dada às suas demandas. Ela também destaca que muitas enfrentam ofensas, discriminação e situações de risco no trânsito, reflexo de uma cultura que ainda associa a condução de veículos ao universo masculino.
Caminhoneiras relatam preconceito e falta de estrutura
No transporte rodoviário de cargas, a presença feminina é ainda menor. Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apontam que havia 16.349 caminhoneiras em todo o Brasil em 2025. No Distrito Federal, eram apenas 97 profissionais, menos de 1% do total.
A motorista Vânia Araújo, de 48 anos, trabalhou durante uma década conduzindo carretas e atualmente dirige ônibus de turismo interestadual. Ela relata que enfrentava longos períodos longe da família, ausência de banheiros femininos em pontos de apoio e episódios de assédio dentro da empresa onde trabalhava.
Segundo Vânia, após denunciar um caso de perseguição e assédio ao setor responsável, decidiu deixar a transportadora e ingressou na Justiça. Hoje, afirma sentir-se mais respeitada na nova profissão e participa de um grupo nacional de motoristas de ônibus que compartilham experiências e apoio entre mulheres da categoria.
Motorista do SLU precisou provar capacidade
Outra história é a de Tamara Dias, de 27 anos, motorista do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do Distrito Federal. Ela começou como gari e, após conquistar habilitação na categoria D, tornou-se motorista de caminhão em 2023.
Tamara afirma que precisou demonstrar constantemente sua competência para superar comentários de que teria sido promovida apenas por ser mulher. Atualmente grávida de oito meses, foi remanejada temporariamente para funções internas por questões de segurança e pretende retornar ao volante após a licença-maternidade.
Hoje, entre os 520 motoristas do SLU, apenas seis são mulheres.
Assédio leva motoristas a criar estratégias de proteção
A realidade também é desafiadora para motoristas de aplicativo. Uma condutora do Distrito Federal, identificada apenas como Carla, conta que passou a aceitar somente passageiras após sofrer assédio durante uma corrida.
Posteriormente, voltou a transportar homens, mas adotou medidas para aumentar a segurança, como aceitar apenas passageiros bem avaliados, priorizar pagamentos por cartão e evitar viagens longas durante a noite.
Casos de violência extrema também reforçam a preocupação da categoria. Em 2025, a motorista de aplicativo Ana Rosa Rodolfo de Queiroz Brandão foi assassinada durante uma corrida no Distrito Federal. O autor confessou ter escolhido a vítima por acreditar que, por ser mulher, teria menos resistência.
Neste mês, o acusado foi condenado a 29 anos, nove meses e 15 dias de prisão pelo crime de feminicídio.
Plataformas ampliam recursos de segurança
Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), a integração entre o aplicativo da Uber e o serviço 190 da Polícia Militar busca agilizar o atendimento em situações de emergência.
Já a Amobitec informa que as plataformas associadas vêm ampliando mecanismos de proteção às trabalhadoras. Entre eles estão o recurso Modo Mulher, da 99, que prioriza chamadas de passageiras e homens bem avaliados; o Uber Mulher, disponível em Brasília; e benefícios oferecidos pelo iFood, como auxílio durante a gestação e apoio financeiro em casos de câncer.
Especialista destaca necessidade de proteção trabalhista
A desembargadora do Trabalho e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sayonara Grillo Coutinho, avalia que empregadores devem adotar medidas para prevenir o assédio, como treinamentos, canais de denúncia, acolhimento psicológico e investigação das ocorrências.
Ela ressalta, porém, que as motoristas vinculadas às plataformas digitais ainda enfrentam maior vulnerabilidade jurídica, já que, em regra, essas empresas não reconhecem vínculo empregatício, o que limita o acesso a direitos trabalhistas e previdenciários.
A magistrada também destaca a importância da atuação de sindicatos e coletivos de trabalhadoras na conquista de melhores condições de trabalho e na ampliação de direitos para mulheres que atuam no setor de transportes.
Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.



