Durante inauguração do CDTS da Fiocruz no Rio, presidente desafia Ricardo Couto a responsabilizar corruptos e milicianos que chefiaram o estado nos últimos anos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi ao Rio de Janeiro neste sábado (23) inaugurar obra, mas deixou um recado político que vai ecoar por meses. Diante do governador interino Ricardo Couto, de autoridades federais e de um público que recebeu cada frase com aplausos, Lula cobrou, alto e em bom som, que o responsável pelo Palácio Guanabara faça o que os governos anteriores se recusaram a fazer: prender quem saqueou e armou o estado do Rio de Janeiro.
A ocasião foi a cerimônia de inauguração do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que encerrou o calendário oficial dos 125 anos da instituição. O governo federal investiu R$ 370 milhões no prédio-sede do centro, que desenvolve vacinas, fármacos, biofármacos e métodos de diagnóstico para o SUS. Estavam presentes o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o presidente da Fiocruz, Mário Moreira.
“Trabalhe para prender todos os ladrões”
Lula não foi ao evento apenas para cortar fita. Em discurso direto, o presidente mirou o histórico recente de desmando no Rio e cobrou do interino uma postura à altura do momento.
“Ninguém tá esperando que você faça um viaduto, uma ponte, uma praia artificial, ninguém. Sabe o que as pessoas esperam de você? Trabalhe para prender todos os ladrões que governaram este estado e os deputados que fazem parte de uma milícia organizada”, afirmou o presidente.
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O recado não parou aí. Lula foi ainda mais contundente ao retratar o que considera uma chaga histórica da política fluminense. “Não é possível este estado poderoso e bonito ser governado por miliciano. O povo do Rio não merece isso. Já tivemos um juiz governador, que foi um fiasco. Então, você [Couto] precisa honrar o Poder Judiciário e mostrar que é possível consertar o Rio de Janeiro. O Rio não pode ocupar apenas as páginas policiais.”
Seis meses para fazer o que não foi feito em dez anos
Lula reconheceu que Couto chegou ao cargo sem ter sido eleito — e usou isso como argumento para ampliar a cobrança. Sem o peso das alianças eleitorais e dos compromissos de campanha, o interino teria, segundo o presidente, uma janela rara para agir com liberdade.
“Então, você [Ricardo Couto], que não precisou pedir voto. Eu nunca tinha te visto, mas quando começou esse processo, de votação na Assembleia Legislativa, eu falei: ‘Se a Assembleia indicar, vai vir o mesmo’. Ia vir um miliciano. Então, aproveite estes seis meses que você tem, faça o que muita gente não fez em 10 anos neste estado”, frisou Lula.
Lula também elogiou a recepção calorosa que Couto recebeu do público. “Você percebeu os aplausos que você recebeu?”, perguntou ao interino, que confirmou com a cabeça. “Eu tenho certeza que o outro governador não seria aplaudido”, completou — entre novos aplausos ao interino e vaias à referência ao antecessor Cláudio Castro.
Quem é Ricardo Couto — e o que ele já fez
Desembargador e presidente licenciado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), Ricardo Couto assumiu o Palácio Guanabara em 23 de março de 2026, seguindo a linha de sucessão prevista na Constituição estadual. Ele ocupou o cargo após a renúncia de Cláudio Castro (PL), que abandonou o governo às vésperas de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — onde respondia por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022 e arriscava ficar inelegível por oito anos.
Desde que assumiu, Couto promoveu o que a imprensa chamou de “choque de gestão”. Até a última quarta-feira (20), foram publicadas no Diário Oficial 3.171 exonerações em 69 órgãos estaduais. Todas as 33 secretarias do governo fluminense foram impactadas. Os cortes atingiram cargos de coordenação, direção e gerência — e, segundo fontes ouvidas pela imprensa, a maioria das demissões foi motivada por irregularidades funcionais, como ausência de registro de presença e falta de critérios para o exercício das funções.
A sombra da milícia e a tentativa de golpe via Alerj
Lula também fez referência direta à tentativa do grupo político de Castro de garantir um sucessor por via indireta — isto é, pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), onde o ex-governador tinha maioria. A manobra foi barrada por decisões judiciais, e Couto acabou assumindo por força da Constituição estadual.
Sem citar o nome, o presidente também criticou o deputado estadual Douglas Ruas (PL), pré-candidato bolsonarista ao governo do Rio e figura apontada como ligada a grupos milicianos. A mensagem foi clara: o Rio não pode correr o risco de repetir o passado recente.
Federal na segurança pública
Lula reafirmou que o governo federal não vai deixar Couto sozinho na área de segurança. Mencionou a aprovação da lei de enfrentamento a facções criminosas e voltou a cobrar o Senado pela votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia a participação da União na segurança pública dos estados. Se aprovada, a PEC abrirá caminho para a recriação do Ministério da Segurança Pública — promessa reiterada pelo petista.
O presidente classificou o Rio como “a cidade mais famosa do mundo” e disse ser inadmissível que ela continue “tomada pelo crime organizado”.
Couto parafraseia Milton Nascimento
Discreto em aparições públicas desde que assumiu o governo, Ricardo Couto fez um breve discurso no evento e optou por um tom de gratidão — e até de lirismo. Parafraseando o cantor Milton Nascimento, o interino declarou: “Eu acho que saúde deve ir onde o povo está.” Agradeceu ao presidente Lula, ao governo federal, ao ministro Padilha e ao presidente da Fiocruz, e afirmou que “as portas do estado do Rio de Janeiro estão abertas a todo incentivo para a saúde.”
O pano de fundo político é inseparável do recado de Lula. Com as eleições estaduais marcadas para outubro, o presidente apoia abertamente o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), que lidera com folga as pesquisas para o governo do Rio. A visita ao estado, o discurso inflamado contra a corrupção e a milícia, e o apoio explícito ao interino compõem uma estratégia clara: chegar ao segundo semestre com o Rio de Janeiro como vitrine de que é possível — e necessário — romper com o ciclo de desmandos que marcou a era Castro.
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