Um estudo da Universidade Northwestern, em Chicago, descobriu que, entre adultos de meia-idade e idosos com maior risco de doenças cardiometabólicas, pequenas mudanças na rotina noturna podem trazer benefícios significativos à saúde. Prolongar o jejum noturno em cerca de duas horas, reduzir a intensidade da luz à noite e evitar comer três horas antes do sono melhorou indicadores cardiovasculares e metabólicos tanto durante a noite quanto ao longo do dia.
A pesquisa, publicada na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology, acompanhou 39 adultos com sobrepeso ou obesidade, entre 36 e 75 anos, durante sete semanas e meia. Metade dos participantes manteve o jejum habitual de 11 a 13 horas, enquanto o outro grupo estendeu o período sem alimentação para 13 a 16 horas, garantindo que a última refeição fosse feita pelo menos três horas antes de dormir. Com adesão de quase 90%, os pesquisadores destacaram que a estratégia é prática e não farmacológica, podendo ser uma alternativa eficiente para melhorar a pressão arterial, regular a glicose e favorecer um sono mais reparador.
Benefícios
Participantes que jantaram mais cedo apresentaram queda média de 3,5% na pressão arterial diastólica e redução de 5% na frequência cardíaca, indicando que o coração descansava melhor à noite e funcionava com mais eficiência durante o dia. Além disso, houve maior variabilidade da frequência cardíaca e níveis mais baixos de cortisol, hormônio ligado ao estresse, sinal de que o sistema nervoso estava mais equilibrado.
O metabolismo também foi beneficiado. Durante o Teste Oral de Tolerância à Glicose, os voluntários que adotaram o jejum prolongado apresentaram níveis mais baixos de glicose e aumento no índice insulinogênico de 30 minutos, mostrando que o pâncreas liberou insulina de forma mais eficiente. “O corpo respondeu melhor à ingestão de glicose, mesmo sem mudança significativa na sensibilidade geral à insulina”, explicam os pesquisadores.
O médico integrativo Wandyk Allison, especialista em endocrinologia, ressalta: “Parar de comer cerca de três horas antes de dormir e fazer jejum noturno realmente muda a saúde. Os efeitos vão muito além do emagrecimento, influenciando glicose, pressão arterial, sono, inflamação e eficiência metabólica”. Segundo Allison, quando a alimentação ocorre próxima ao horário de dormir, o corpo permanece em modo digestivo: a insulina sobe, o fígado continua trabalhando na digestão, o sono profundo se prejudica, a melatonina diminui e aumentam os riscos de refluxo e inchaço.
Já ao jantar mais cedo, o organismo entra em modo reparo: a glicose noturna cai mais rápido, a inflamação diminui, há maior uso de gordura como energia e o sono se torna mais profundo. “Não é apenas uma questão de horário, é fisiologia”, reforça o médico.
Alimentação alinhada
A médica Daniela Grimaldi, coautora do estudo, explicou ao Correio que três horas foram o ponto ideal entre benefício fisiológico e sustentabilidade prática. “As duas ou três horas antes de dormir são quando a melatonina aumenta e o corpo faz a transição para o sono — comer durante essa janela interrompe o metabolismo. Três horas foram significativas o suficiente para produzir benefícios enquanto permaneciam práticas, como mostrado pela nossa taxa de adesão de 90%.”
Quanto à exposição à luz noturna, a equipe manteve ambos os grupos com a luminosidade diminuída para garantir que as diferenças observadas fossem exclusivamente devido ao jejum. “A exposição à luz da noite afeta os ritmos circadianos, o sono e o metabolismo — todos os quais podem influenciar nossos resultados. Ao ter ambos os grupos com luzes esmaecendo igualmente, garantimos que quaisquer diferenças fossem devidas à intervenção de jejum em si, não à exposição à luz”, afirmaram os pesquisadores.
O jejum prolongado também mostrou efeitos promissores sobre a glicose matinal, sugerindo potenciais benefícios para pessoas com diabetes. “Vimos melhor manuseio de glicose, níveis mais baixos durante o teste de tolerância e melhor resposta à insulina, indicando melhor função pancreática. É razoável esperar benefícios também em diabéticos, mas estudos dedicados em populações diabéticas são necessários.”
Desafios e perspectivas
Segundo a pesquisadora, o principal desafio na aplicação prática da estratégia são os horários sociais e de trabalho, já que muitas pessoas jantam tarde. “Se você for para a cama às 22h ou 23h, isso significa terminar o jantar às 19h ou 20h. No entanto, nossa taxa de adesão de 90% mostra que é mais viável do que o esperado.” O estudo incluiu adultos de 35 a 75 anos, dos quais cerca de 20% estavam tomando medicamentos para hipertensão. Pessoas com diabetes foram excluídas, indicando a necessidade de pesquisas futuras em populações com diferentes condições de saúde.
Daniela conclui: “Nosso estudo de 7,5 semanas demonstrou efeitos fisiológicos significativos, mas precisamos de ensaios maiores e mais longos para ver se os benefícios persistem por períodos mais longos e se se traduzem em eventos cardiovasculares reduzidos ou incidência de diabetes. Estudos mais longos também revelariam efeitos sobre o peso e outros marcadores que requerem mais tempo”.
Com informações do Correio Braziliense
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