A manifestação “Justiça já”, organizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo pastor Silas Malafaia, reuniu o menor público de apoiadores desde que ele deixou o comando do país, no final de dezembro de 2022. Estimativa do Monitor do Debate Político do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) — instituição ligada à Universidade de São Paulo — e da ONG More in Common calcula que cerca de 12,4 mil pessoas compareceram, ontem, à Avenida Paulista. A margem de erro é de 1,5 mil pessoas para mais ou para menos.
A contagem foi feita no pico do ato, às 15h40, com base em 34 imagens aéreas analisadas por inteligência artificial. Cinco imagens captadas por drone foram selecionadas para a contagem, abrangendo dois pontos de concentração na Paulista. Para comparação, na manifestação realizada em 6 de abril, em defesa da anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro, também na Paulista, o Monitor do Debate Político contou 44,9 mil pessoas.
A diminuição de público não passou despercebida por políticos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pela rede social X (antigo twitter), o líder do governo na Câmara, deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), foi irônico e afirmou que a defesa da “anistia evaporou e que Bolsonaro chega ao julgamento no STF menor do que nunca. A extrema-direita perdeu apoio popular e capacidade de mobilização. O fracasso de hoje escancarou: o ciclo deles está em declínio”, frisou.
O deputado Guilherme Boulos (PSol-SP) também comentou em publicação no X. “Paulista vazia no ato do Bolsonaro. O povo não aceita mais a manutenção de privilégios! Só nos últimos dias, a aliança do bolsonarismo com o centrão aprovou: aumento do número de deputados, aumento da conta de luz e, agora, ameaça aprovar o fim do descanso remunerado. O recado começa a ser dado”.
Supremo na mira
As críticas ao Supremo Tribunal Federal foram o principal tema da manifestação — Bolsonaro é réu no processo que corre na Corte por tentativa de golpe de Estado. Mas também houve críticas ao governo Lula, com menções ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e ao escândalo dos descontos irregulares de aposentadorias e pensões da Previdência Social.
Malafaia atacou a recente decisão do STF sobre a responsabilização de plataformas digitais por conteúdos ofensivos publicados por usuários. “O Supremo está legislando. Querem calar as redes sociais”, acusou. Com bandeiras do Brasil, de Israel e dos Estados Unidos, além de faixas com mensagens destinadas ao presidente norte-americano Donald Trump, os manifestantes concentraram-se em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde um trio elétrico foi instalado para os discursos.
Bolsonaro, por sua vez, aproveitou o momento para criticar o inquérito no qual é réu, afirmando que o objetivo principal do processo é de eliminá-lo da disputa presidencial — embora esteja inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele pediu apoio dos manifestantes para eleger 50% dos políticos da direita na Câmara dos Deputados e no Senado, nas eleições do ano que vem.
“Me deem isso, que eu mudo o destino do Brasil. Nem preciso ser presidente. O Valdemar [Costa Neto, presidente do PL, partido ao qual é filiado], me mantendo como presidente de honra do PL, faremos isso por vocês. Inclusive, não interessa onde eu esteja, aqui ou no além. Quem estiver na liderança vai mandar mais que o presidente da República. Com essa maioria, elegemos nosso presidente do Congresso Nacional. Maioria das comissões de peso no Senado e Câmara. Nas sabatinas, decidimos quem prosseguirá”, afirmou, para acrescentar:
“Não quero isso para perseguir quem quer que seja. Não quero isso para revanchismo. Quero isso pelo futuro do meu Brasil. Não tenho obsessão pelo poder”, afirmou.
Sobre a anistia aos presos e investigados pela invasão aos Três Poderes no 8 de Janeiro, Bolsonaro disse que ela é “um remédio previsto na Constituição”. Ele completou citando alguns dos presos e disse que a anistia é “o caminho da pacificação” e “um gesto de altruísmo”. Pediu, ainda, que os Três Poderes “pacifiquem o Brasil”.
“Coloquem em liberdade esses inocentes do 8 de Janeiro. Quem, porventura, quebrou alguma coisa, que pague. Não quero crer que seja vingança de uma pessoa ou de outra”, observou.
Bolsonaro afirmou que não houve tentativa de golpe, pois, segundo ele, não havia armas, apoio de instituições, nem emprego das Forças Armadas. E citou políticos, como o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, Nelson Jobim (ministro aposentado do STF), Aldo Rebelo (ex-ministro da Defesa) e o ex-presidente José Sarney, que colocaram em dúvida a articulação de uma quartelada.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente, voltou a defender o indulto para o pai como uma condição para o apoio eleitoral nas próximas eleições. Um recado direto ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo — e apontado como possível candidato à Presidência, em 2026, como representante do bolsonarismo. Ele usou o discurso para destacar as realizações de Bolsonaro no mandato presidencial. Afirmou que o ex-presidente, além de levar água para o Nordeste, saneou estatais e salvou empresas.
“Foi um presidente que não aceitou acordos políticos, levou água para o Nordeste, criou o Pix e sempre olhou para o andar de baixo”, afirmou. O governador criticou a exclusão de Bolsonaro nas próximas eleições. “Pode-se tirar das urnas, mas nunca do coração do povo”, disse.
Participaram os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Nikolas Ferreira (PL-MG), Gustavo Gayer (PL-GO), Zucco (PL-RS) e Bia Kicis (PL-DF), e os senadores Rogério Marinho (PL-RN), Marcos Rogértio (PL-RO) e Carlos Portinho (PL-RJ). O vice-prefeito de São Paulo, Coronel Ricardo Mello Araújo (PL), marcou presença. Também compareceram, além de Tarcísio, os governadores Romeu Zema (Novo-MG, apontado como potencial candidato à Presidência em 2026), Cláudio Castro (PL-RJ) e Jorginho Mello (PL-SC).
Com informações da Agência Brasília
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