Bolsonaro chega ao ano eleitoral enfraquecido, mas com esperança em Flávio

Former Brazilian President Jair Bolsonaro watches his phone at the garage of his residence in Brasilia on September 11, 2025. A Brazilian judge on September 10 returned the first not-guilty vote in the coup-plotting trial of former president Jair Bolsonaro, shifting all eyes on the last two of his colleagues left to vote following two guilty findings. The 70-year-old far-right ex-leader risks a prison sentence of more than 40 years if found guilty of seeking to claw back power after his defeat in 2022 elections to leftist Luiz Inacio Lula da Silva (Photo by Sergio Lima / AFP)

Preso por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro (PL) chega ao ano eleitoral mantendo a liderança da direita em seu sobrenome. Isolado em uma sala da Polícia Federal em Brasília, o ex-presidente, que acumula uma série de problemas de saúde, transfere o capital político ao seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anunciando-o candidato ao Planalto em 2026. Bolsonaro exaure, de maneira precoce, suas estratégias eleitorais, espantando a traição que sempre o atormentou.

“Bolsonaro esquentou a militância quando indicou Flávio à presidência”, afirma a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), apoiadora do ex-mandatário na Câmara. “O nome do Flávio causou surpresa, porque ninguém esperava naquele momento. As pessoas diziam que um familiar seria o vice. Deu um gás muito grande na militância.” De fato, o anúncio ocorreu de supetão, no início do mês. Desde então, essa novidade foi interpretada com a desconfiança de quem apostava na desistência de Flávio —a candidatura seria tão somente para recuperar a relevância política depois do episódio da prisão— ou com seriedade.

Afinal, a pesquisa Quaest mais recente mostra o senador, com 23% das intenções de voto, à frente do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tem 10%, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), somando 41%. Na visão de Kicis, o fortalecimento da candidatura de Flávio se explica por ele estar sempre na mídia, em reuniões com empresários e representando o ideário bolsonarista. “Ele mostra que a disputa para 2026 vai ser por dois caminhos, um pela prosperidade e segurança pública e outro pelo caos”, diz a deputada.

Em paralelo, Bolsonaro acumula uma série de problemas de saúde. Na véspera do Natal, ele operou uma hérnia inguinal (região da virilha). Ao mesmo tempo, continua a ter crises de soluço, em decorrência das diferentes cirurgias intestinais que fez por causa do episódio da facada, nas eleições de 2018. Enquanto o ex-mandatário cumpre pena de 27 anos, outra pessoa de sua família, além de Flávio, mobiliza a militância: a presidente do PL Mulher, Michelle Bolsonaro. Popular no segmento evangélico, a ex-primeira-dama é cotada para a chapa bolsonarista. Ela, porém, não foi indicada até aqui pelo seu marido. Kicis diz que Michelle nunca se posicionou como presidenciável, devendo se candidatar ao Senado.

A conjuntura se completa, enfim, com o elenco de governadores que postula um mandato presidencial, o favorito deles, Tarcísio. Com Flávio no pleito, a candidatura seria de centro-direita, uma terceira via. Professor de ciência política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Paulo Henrique Cassimiro diz que, ao indicar o filho Zero Um, Bolsonaro esvazia outros nomes e mostra não querer perder o poder, mesmo em caso de derrota para Lula. Trata-se, segundo Cassimiro, de um último recurso do ex-presidente, evitando que um aliando surrupie a sua liderança.

“A mobilização de Bolsonaro nas ruas diminuiu bastante, mas ele tem um capital eleitoral. O nome Bolsonaro vai ter um peso na eleição, mesmo que ele não tenha mais controle da agenda da direita”, diz. Também professor de ciência política, Leonardo Belinelli, da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), afirma que, até o momento, as condições não foram favoráveis para o ex-presidente capitalizar politicamente a sua prisão. Nesse contexto, corre o risco de perder a imagem viril que tanto lutou para construir. Belinelli admite, porém, que sua estratégia de anunciar Flávio para as eleições tem dado certo no atual momento político.

Preterir Michelle, segundo o professor, tem a ver com uma das bases do projeto bolsonarista: a preferência pelo laço sanguíneo. “Michelle conseguiu construir mesmo um caminho próprio, relativamente desvinculado de Bolsonaro. O trabalho que ela faz com o PL Mulher, em diálogo com evangélicos, sinalizou uma diferenciação interna nesse grupo político”, diz Belinelli.

Com informações do Jornal de Brasília

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