TaguaCei — Reeleita para governar o Distrito Federal por mais quatro anos, Celina Leão (PP) terá dois grandes desafios econômicos no início do novo mandato: solucionar a crise do Banco de Brasília (BRB) e reorganizar as finanças públicas do DF. Os problemas estão diretamente relacionados, já que o governo, como acionista controlador do banco, poderá ter de assumir compromissos financeiros para ajudar a recompor o patrimônio da instituição. A crise do BRB, provocada pelas operações envolvendo o Banco Master, já levou o GDF a buscar alternativas de capitalização, como mostra o histórico de negociações por um empréstimo bilionário com o Fundo Garantidor de Créditos.
Os dois assuntos ganharam destaque durante a campanha eleitoral de 2026 e devem permanecer entre as principais questões da próxima gestão. Segundo levantamento do g1, o governo precisa encontrar uma solução para a situação patrimonial do banco e, ao mesmo tempo, garantir recursos para manter os serviços públicos e cumprir os compromissos financeiros do Distrito Federal.
Esta é a segunda reportagem de uma série do g1 sobre os desafios do próximo mandato de Celina Leão. A primeira abordou os problemas da saúde pública.
Crise do BRB envolve operações com o Banco Master
A crise do Banco de Brasília está relacionada às negociações e operações malsucedidas com o Banco Master. Em março de 2025, o BRB anunciou a intenção de adquirir parte da instituição privada. A proposta previa a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, após autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
No fim de outubro de 2026, a Polícia Federal indiciou 15 pessoas suspeitas de participação nas condutas ilegais investigadas, entre elas Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e antigos diretores da instituição pública.
Como acionista controlador, o Governo do Distrito Federal tem a responsabilidade de garantir que o banco cumpra as regras do sistema financeiro e mantenha os níveis de capital exigidos pelas autoridades reguladoras.
Celina Leão tem procurado se distanciar das operações realizadas entre as duas instituições. A governadora afirma que não participou das negociações e que era contrária à aquisição. Em entrevista anterior, declarou que não tinha relação com as decisões tomadas pela gestão do banco durante o governo de Ibaneis Rocha (MDB).
Depois de assumir o Executivo distrital, em março, Celina passou a defender medidas para recuperar a instituição e afirmou que havia assumido o problema do BRB.
Atualmente, a principal dificuldade é patrimonial. O banco precisa recompor o capital comprometido pelas operações com o Master e voltar a cumprir os limites prudenciais estabelecidos pelo Banco Central.
Empréstimo de R$ 6,6 bilhões ainda depende de solução
Em entrevista à TV Globo após a vitória eleitoral, Celina comentou a divulgação do balanço financeiro do BRB, que não era publicado desde novembro de 2025. A governadora negou que a apresentação do documento estivesse relacionada ao resultado das eleições e afirmou que o cronograma dependia da construção de uma solução para o empréstimo.
O banco estima que pelo menos R$ 8,8 bilhões em créditos adquiridos sejam inexistentes, fraudulentos ou de difícil recuperação. Para reforçar o patrimônio da instituição, o GDF busca uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões.
O governo recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para viabilizar o empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Até o momento, entretanto, os recursos não foram liberados.
O governo federal já informou que não poderá oferecer garantia à operação. Mesmo assim, o Distrito Federal continua buscando alternativas para viabilizar o financiamento. Celina também afirmou que mantém tratativas com bancos árabes.
Plano de governo prevê recuperação e modernização do BRB
O plano apresentado por Celina Leão estabelece como prioridades a recuperação da solidez financeira do banco, a ampliação da transparência, o fortalecimento dos controles internos e a preservação do patrimônio público.
O documento apresenta nove frentes de atuação:
- Recuperação financeira: melhorar a governança, os controles internos, a gestão de riscos e a transparência.
- Serviços digitais: modernizar as plataformas sem abandonar o atendimento presencial.
- Microcrédito: ampliar o acesso de micro e pequenos empreendedores ao financiamento.
- Capacitação: oferecer orientação e assistência aos empreendedores que recebem crédito.
- Garantias: facilitar o acesso de pequenas e médias empresas a financiamentos.
- Desenvolvimento: ampliar o financiamento de infraestrutura, inovação e projetos que gerem emprego e renda.
- Startups: apoiar empresas de tecnologia, inovação e economia criativa.
- Crédito para servidores: aprimorar produtos imobiliários, consignados e outras modalidades de financiamento.
- Educação financeira: orientar famílias e empreendedores e facilitar a negociação de dívidas.
Contas públicas também preocupam
Além da situação do BRB, o equilíbrio das contas públicas será outro desafio para a governadora. Desde que assumiu o governo, em março, Celina anunciou cortes de despesas, revisão de contratos e medidas de contenção de gastos. Na ocasião, afirmou ter encontrado um rombo bilionário nas finanças do Distrito Federal.
Ao longo dos meses, o governo apresentou diferentes valores para dimensionar o desequilíbrio fiscal e, posteriormente, passou a projetar uma recuperação das contas.
O plano de governo, entretanto, não estabelece metas fiscais nem apresenta números específicos para receitas, despesas ou investimentos. A proposta prevê um modelo de gestão voltado para resultados, com responsabilidade fiscal, modernização da administração tributária e adequação do DF ao novo sistema tributário nacional.
Entre as medidas estão o fortalecimento do controle interno, da transparência e dos mecanismos de integridade e prevenção à corrupção. O documento também prevê melhorar a qualidade dos gastos públicos e a gestão dos investimentos.
Outra diretriz é alinhar o planejamento de longo prazo aos principais instrumentos orçamentários: Plano Plurianual (PPA), Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Lei Orçamentária Anual (LOA).
Apesar dessas propostas, o plano não detalha como as medidas serão executadas nem estabelece prazos, indicadores ou metas específicas para a área fiscal.
Linha do tempo da situação fiscal do DF
A trajetória das medidas anunciadas pelo governo desde março ajuda a dimensionar o desafio financeiro que Celina terá de enfrentar no próximo mandato.
30 de março: posse e início da revisão das contas
Celina assumiu o governo após a renúncia de Ibaneis Rocha. Uma das primeiras medidas anunciadas foi o cancelamento da festa de aniversário de 66 anos de Brasília. Os R$ 25 milhões previstos para o evento seriam redirecionados à saúde.
A nova gestão passou a afirmar que havia despesas acima da capacidade financeira do Distrito Federal e que seria necessário rever contratos e prioridades.
15 de abril: anúncio de novos cortes
Em reunião com deputados distritais da oposição, a governadora anunciou que faria novos cortes de gastos. As medidas atingiriam contratos, aluguéis e a frota de veículos do governo, mas ainda não havia detalhamento sobre a execução.
24 de abril: decreto de contenção de despesas
Celina assinou um decreto que determinou a revisão de contratos, com a possibilidade de redução de até 25% dos valores. A medida também estabeleceu restrições a reajustes e nomeações e criou um comitê para acompanhar os gastos.
Serviços essenciais, como saúde, segurança e assistência social, foram preservados. Os órgãos receberam prazo de 60 dias para revisar contratos ou apresentar alternativas de compensação quando os cortes não fossem possíveis.
20 de maio: governadora fala em rombo bilionário
Ao responder a críticas de Ibaneis Rocha, Celina afirmou ter recebido o governo em meio a uma grave crise no BRB e a um rombo bilionário nas contas públicas. Na ocasião, não apresentou um valor exato para o suposto desequilíbrio.
27 de maio: secretário aponta déficit de R$ 1,9 bilhão
Em audiência na Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da CLDF, o secretário de Economia, Valdivino José de Oliveira, informou que o Distrito Federal havia arrecadado R$ 13,4 bilhões entre janeiro e abril, enquanto as despesas empenhadas somavam R$ 15,3 bilhões.
O resultado representava um déficit orçamentário de R$ 1,9 bilhão no período. Segundo o secretário, os gastos empenhados haviam crescido 8,19% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
Valdivino explicou que os R$ 1,9 bilhão correspondiam a dívidas contabilizadas referentes aos anos de 2023, 2024 e 2025. Apesar do resultado negativo no primeiro quadrimestre, projetou um superávit de R$ 2 bilhões para o encerramento de 2026.
16 de junho: elaboração do orçamento de 2027
A Secretaria de Economia realizou audiência pública sobre o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027. A pasta iniciou as etapas de validação das receitas, definição de limites de gastos e elaboração das propostas dos órgãos do governo.
Também alertou para a necessidade de evitar estimativas superdimensionadas de receitas e despesas.
7 de agosto: governo amplia estimativa do desequilíbrio
Ao apresentar o balanço fiscal do primeiro semestre, Celina declarou que havia assumido o DF com um rombo de quase R$ 5 bilhões, pagamentos atrasados e necessidade de um choque de gestão.
O secretário de Economia detalhou os números: R$ 1,9 bilhão de déficit já registrado e entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões em despesas contratadas que, segundo ele, não estavam formalmente previstas no orçamento. A composição apontava um desequilíbrio de aproximadamente R$ 5,4 bilhões, com referências posteriores a um cenário próximo de R$ 6 bilhões.
Um dos exemplos apresentados foi o transporte público. O subsídio anual da área seria de R$ 2,2 bilhões, mas o orçamento disponível previa R$ 1,1 bilhão, deixando uma diferença de R$ 1,1 bilhão.
O secretário também afirmou que saúde, educação e limpeza urbana tinham despesas programadas acima das previsões orçamentárias.
Segundo Valdivino, o governo passou a centralizar a definição de prioridades e a controlar os gastos de aproximadamente 60 a 70 unidades orçamentárias. A recuperação fiscal, de acordo com ele, dependeria de duas frentes: contenção das despesas e aumento da arrecadação.
Na ocasião, a projeção de resultado positivo para o fim de 2026 passou de R$ 2 bilhões para R$ 3 bilhões. O secretário afirmou que pretendia buscar um superávit de até R$ 5 bilhões.
16 de setembro: orçamento de 2027 é enviado sem previsão de déficit
Celina encaminhou à CLDF o projeto de orçamento de 2027, com previsão de R$ 49,797 bilhões em receitas e despesas no orçamento próprio do Distrito Federal.
A proposta foi elaborada sem previsão de déficit e com a orientação de compatibilizar os gastos com as receitas estimadas e a capacidade financeira do governo.
O projeto estabeleceu, por precaução, limites de 82% para despesas correntes, 2% para emendas parlamentares da CLDF e 1% para reserva de contingência. A programação totalizava 85% dos recursos, preservando uma margem fiscal.
Entre as áreas contempladas, estavam:
- Educação: R$ 9,30 bilhões;
- Saúde: R$ 8,01 bilhões;
- Urbanismo: R$ 2,81 bilhões;
- Transporte: R$ 2,48 bilhões;
- Segurança: R$ 1,82 bilhão;
- Assistência social: R$ 1,26 bilhão.
Além do orçamento próprio, a Secretaria de Economia estimou R$ 30,32 bilhões provenientes do Fundo Constitucional do Distrito Federal. Com isso, o conjunto de recursos previsto para 2027 chegaria a aproximadamente R$ 80,12 bilhões.
Em setembro, Celina também alertou que uma eventual mudança na regra de cálculo do Fundo Constitucional poderia retirar R$ 1,8 bilhão do orçamento do DF no próximo ano. A preservação desses recursos segue em debate, como mostra a mobilização da bancada local em defesa do Fundo Constitucional do Distrito Federal.
A combinação entre a necessidade de recuperar o BRB, encontrar uma solução para o empréstimo bilionário e manter o equilíbrio das contas públicas deverá exigir decisões importantes de Celina Leão no próximo mandato.
Fonte: g1



