Estudo mundial mostra impacto da desigualdade social na obesidade

Em um dos maiores estudos já realizados sobre obesidade no mundo, pesquisadores da coligação internacional Colaboração de Fatores de Risco de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (NCD-RisC) constataram que a epidemia global da doença entrou em uma nova fase, com expressivo recorte socioeconômico. Publicado na revista Nature com base em 4.050 levantamentos populacionais realizados entre 1980 e 2024, o artigo mostra que o avanço do problema começou a estabilizar e desacelerar em países ricos. Na maioria das nações de renda média ou baixa, porém, permanece em trajetória ascendente tanto entre adultos quanto entre crianças e jovens. 

Na América Latina, o Brasil é apontado pelo artigo como exemplo de país que, embora já tenha atingido um pico elevado de obesidade — entre adultos, a prevalência ultrapassa 30% —, não dá sinais de estabilização. Ao contrário, ano a ano observam-se taxas cada vez maiores. No período avaliado, a maior variação foi observada entre mulheres adultas: em 1980, 9,3% delas estavam com índice de massa corporal (IMC) acima de 30, percentual que passou para 34,9% em 2024, um aumento de 25,6 pontos percentuais . 

Com dados totais de 232 milhões de pessoas em 200 países e territórios, o estudo não mediu apenas a prevalência da obesidade, mas a velocidade da doença (aumento anual em pontos percentuais). O resultado revela um mundo dividido. Em vários países da Europa Ocidental, como França, Dinamarca, Espanha e Itália, o crescimento da doença desacelerou desde os anos 1990 entre crianças e adolescentes e, mais tarde, também entre adultos. Em alguns casos, os pesquisadores encontraram sinais discretos de queda nos índices. 

Platô

Nos Estados Unidos, a obesidade alcançou um platô entre crianças e adolescentes, embora os níveis da doença no país ainda estejam entre os mais altos do mundo. A Itália também alcançou estabilidade e pode ter começado a observar um decréscimo em todos os grupos etários com uma prevalência de 14% e 15% (mulheres e homens, respectivamente). No Japão, os registros são baixos: em 45 anos de acompanhamento, por exemplo, a obesidade entre mulheres se manteve em 4%.

Já em países como Brasil, Chile, México, Arábia Saudita e diversas nações africanas e asiáticas, o movimento segue no sentido oposto: a obesidade continua aumentando rapidamente e sem sinais claros de estabilização. A tendência é para todas as faixas etárias, com velocidade acelerada entre crianças e adolescentes. Em 2024, 17% das brasileiras e 18,1% dos brasileiros com menos de 18 anos tinham IMC acima de 30. O crescimento, em relação a 1980, foi de 15,2 e 16,7 pontos percentuais, respectivamente. 

“Chamar esse fenômeno globalmente de ‘epidemia’ acaba mascarando diferenças importantes e simplificando excessivamente um processo complexo e dinâmico”, afirma Alicia Matijasevich, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coautora do artigo da Nature. Para os pesquisadores, a desigualdade evidenciada pelos dados pode refletir transformações econômicas e sociais rápidas que não foram acompanhadas por políticas públicas robustas para combater os efeitos negativos das mudanças sobre a alimentação e o estilo de vida. 

O estudo aponta vários fatores envolvidos no avanço da obesidade: urbanização, aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, mecanização do trabalho, sedentarismo, desigualdade social e dificuldade de acesso a alimentos saudáveis. Os pesquisadores destacam que o problema vai além das escolhas individuais e depende fortemente do ambiente social e econômico. “No Brasil, questões como renda e acesso a alimentos saudáveis afetam fortemente as populações menos favorecidas, com impacto preocupante em relação a crianças e adolescentes”, avalia o cirurgião bariátrico Carlos Schiavon, cofundador da ONG Obesidade Brasil. 

“Dupla carga”

Segundo o artigo publicado na revista Nature, em países de renda média prevalece a chamada “dupla carga” da nutrição. Enquanto parte da população continua convivendo com insegurança alimentar e carências nutricionais, outra enfrenta excesso de peso e doenças relacionadas à obesidade. “Muitos países em desenvolvimento concentraram seus esforços em combater a desnutrição, e houve pouca resposta regulatória ao avanço do marketing de produtos pouco saudáveis, como bebidas açucaradas”, observa Alicia Matijasevich. “O sistema alimentar continua favorecendo produtos baratos, altamente processados e densamente calóricos”, disse, em uma entrevista coletiva on-line, Majid Ezzati, professor da Escola de Saúde Pública do Imperial College London, que conduziu a análise. 

Os autores do artigo também discutem o impacto potencial dos novos medicamentos contra obesidade, especialmente os agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida. Embora, por enquanto, não seja possível avaliar se essas medicações têm relação com a desaceleração da doença nos países ricos, os pesquisadores reconhecem que são ferramentas importantes, embora temam que o acesso desigual amplie ainda mais as disparidades observadas. “Nessa fase, provavelmente é muito cedo para dizer se os medicamentos GLP-1 tiveram um impacto direto em populações inteiras, embora sejam benéficos para os pacientes que os utilizam. O foco deve ser torná-los mais acessíveis a todos que precisam deles em todo o mundo”, comentou Ezzati.

Com informações do Correio Braziliense

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