O maior estudo a investigar a relação entre antidepressivos e risco de transtornos do neurodesenvolvimento não encontrou ligação significativa entre o uso desses medicamentos por gestantes e diagnóstico de autismo (TEA) e transtorno do deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) nas crianças. Os autores reuniram dados de 37 pesquisas globais, totalizando mais de meio milhão de gestações. Segundo o artigo da Universidade de Hong Kong, na China, publicado na revista The Lancet, as mulheres jamais devem abandonar abruptamente o tratamento, com medo de prejudicar o feto.
Em 2018, uma análise de 10 artigos científicos sugeriu uma relação estatística entre o uso de antidepressivos na gestação e o risco de autismo/TDAH nos filhos. Dois anos depois, outra pesquisa fez a mesma ligação, acendendo um sinal vermelho entre as grávidas diagnosticadas com depressão. O problema é que cerca de 15% a 20% das mulheres sofrem de tristeza persistente, desinteresse e ansiedade na fase perinatal e, nos casos moderados a graves, o uso de fármacos pode ser indispensável.
Agora, os pesquisadores de Hong Kong reviram esses e outros estudos com objetivo de reunir dados robustos sobre o tema. Eles concluíram que algumas das publicações tinham baixa credibilidade, com erros estatísticos que comprometem os resultados. Ao reunir um número expressivo de pesquisas e ajustar questões como tipo de medicamento, dosagem, histórico familiar e outros fatores de confusão, a conclusão foi de que as análises que apontam aumento do risco de TDAH ou TEA com a exposição pré-natal a antidepressivos “não são convincentes ou são apenas fracas”. Os autores ressaltam que não receberam nenhum tipo de financiamento externo para a investigação, conduzida em uma instituição pública.
Tranquilizadoras
“Sabemos que muitos futuros pais se preocupam com o impacto potencial da medicação durante a gravidez; nosso estudo fornece evidências tranquilizadoras de que os antidepressivos comumente usados não aumentam o risco de distúrbios do neurodesenvolvimento, como autismo e TDAH, em crianças”, afirma Wing-Chung Chang, principal autor do artigo. De acordo com o pesquisador, embora todo medicamento tenha riscos, os efeitos adversos da interrupção do uso durante a gestação são ainda maiores. “Para mulheres com depressão moderada a grave, médicos e pacientes devem avaliar cuidadosamente os riscos e benefícios potenciais da continuidade do tratamento.”
Chang reforça que a avaliação publicada na The Lancet inclui mais de 600 mil gestantes que tomavam antidepressivos e quase 25 milhões de grávidas que não tomavam esses medicamentos. Ele conta que, antes de ajustar fatores-chave, como transtorno mental prévio, de fato aparece um aumento de 69% no risco de autismo e de 35% no de TDAH. Porém, ao calibrar corretamente os dados, essa relação foi insignificante do ponto de vista estatístico.
Para exemplificar, o pesquisador revela que, sem os ajustes, o uso de antidepressivo pelo pai levaria a um aumento de 46% no risco de TDAH e de 28% de autismo no filho. Isso sugere que não é o medicamento em si que tem associação com os transtornos do neurodesenvolvimento, mas, possivelmente, o diagnóstico de alguma doença mental nos pais. “As evidências sugerem uma ligação entre a presença de um transtorno mental em um dos pais e um risco ligeiramente maior de TDAH ou autismo”, disse, em nota, Joe Kwun-Nam Chan, da Universidade de Hong Kong e coautor do artigo.
Negligência
“Cada vez mais, a ciência vem mostrando o papel da genética nas questões implicadas nos transtornos do desenvolvimento, principalmente no transtorno do espectro autista”, destaca a médica pediatra Anna Dominguez Bohn, especialista em neurociência e desenvolvimento infantil. Ela destaca que, ao negligenciar o tratamento mental dos pais que necessitam de medicamentos, o risco para a criança é muito mais elevado do que o uso de antidepressivos.
“Não sabemos bem quais as implicações da depressão, ansiedade e outras questões descompensadas da saúde mental no desenvolvimento intra ou extrauterino”, diz Bohn. “Mas sabemos que isso afeta de forma bastante importante a interação do bebê com a mãe. A potencialização que a criança pode atingir na cognição e nas conexões nervosas, isso sim é muito influenciado pelo ambiente.”
Joe Kwun-Nam Chan concorda que o funcionamento familiar e os cuidados dos pais com os filhos têm impacto no neurodesenvolvimento da prole. “É necessário garantir que ambos os pais tenham acesso a apoio e tratamento para transtornos mentais, tanto para o seu próprio bem-estar quanto para o desenvolvimento neurológico da criança”, afirma.
Com informações do portal Metrópoles
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